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O PINÓQUIO CONSERVADOR X O PINÓQUIO PROGRESSISTA: Disney x Del Toro




A história de Pinóquio é clássica, eu diria até universal. Baseada em um livro do século XIX, escrito pelo italiano Carlo Collodi, a história do menino de madeira e sua longa jornada de autodescobrimento já passou por dezenas e dezenas de adaptações ao longo das décadas, com destaque aqui à mais famosa, a versão da Disney em 1940. Eu sei que ela foi transformada em live action esse ano, mas vamos esquecer que isso aconteceu... por favor!!!


Apaixonado pela história de Pinóquio desde criança, Guillermo del Toro, o famoso diretor de obras como “o labirinto do fauno” (2006), “círculo de fogo” (2013), “a forma da água” (2017) e “Hellboy” (2007), queria muito oferecer sua própria versão da história, com seu toque especial de realismo fantástico. Depois de várias recusas, por várias empresas, por conta do custo de produção, a Netflix decidiu apoiar a ousada proposta. Em 22 de novembro desse ano finalmente o “Pinóquio de del Toro” foi lançado, no formato de stop motion, uma forma de animação complexa, cansativa, custosa, mas muito interessante e original. Todos personagens e cenários são construídos de forma física, concreta, já que as cenas e movimentos são reais, capturadas quadro a quadro por câmeras de verdade. Quem tiver interesse nos bastidores desse filme, a Netflix tem um ótimo making of de todas as etapas de produção, vale a pena conferir.


Apesar de muitos pontos em comum, as duas histórias (a clássica e a de del Toro) se distanciam em um detalhe importante. Embora seja linda, e até hoje surpreendente, a narrativa contada pela Disney é conservadora. A moral da história é simples, clara e eficaz, envolvendo aqui a obediência e os riscos da quebra desse pacto. No fim das contas, Pinóquio é punido por desobedecer o pai, Gepeto, os professores da escola, e até autoridades como a polícia, quase sempre se envolvendo em problemas por conta de sua rebeldia, como na cena clássica da “ilha do prazer” e os meninos que se transformam em burros. Todo o seu deslocamento na história, assim como cada uma das suas múltiplas aventuras, é motivado por uma única lição de moral: “nunca desobedeça as instituições (estado, família e escola), caso contrário problemas aparecem”.


O Pinóquio de del Toro, por outro lado, segue muito mais por uma jornada existencialista, áspera, o que desapontou muitos pais, provavelmente porque aguardavam algo mais infantil e adocicado. Até mesmo o design do personagem é diferente do clássico, muito mais cru, simples, ao contrário da versão da Disney com suas roupas coloridas e traços infantis. No lugar de olhos grandes, inocentes e infantilizados, a versão de del Toro apresenta olhos enigmáticos, muitas vezes até assustadores. O contraste entre a voz infantil e o corpo frankensteiniano de Pinóquio apenas produz mais dissonância na cabeça do espectador.




Além de designs contrastantes, e cenários quase opostos em tom e estilo, esse novo filme tem propósitos diferentes. Se a mensagem do clássico da década de 40 era o perigo da mentira e da desobediência, com a nova versão o foco é a própria mortalidade. Em vez de um final feliz, como no clássico, del Toro deixa um gosto amargo na boca do público. Quem assistiu o filme sabe exatamente do que estou falando, daquelas últimas palavras ácidas do narrador, o Sebastian J. Cricket. Apesar de várias tangências com a versão da Disney da década de 40, o novo filme de del Toro arrisca um tom mais maduro, sem perder a leveza, a comédia e até os musicais.


Embora a morte, e não a mentira, seja o centro da versão de “del Toro”, o diretor discorda de interpretações que enxergam no filme um produto pessimista. Segundo ele, pelo contrário, o tema da mortalidade deve ser celebrado e não reprimido como se fosse motivo de tristeza. Por conta de sua herança mexicana, a morte não é um tabu a ser evitado, ou um monstro de capa preta e foice, mas um momento mágico. Quase ressoando as palavras heideggerianas de Borges em seu conto “o imortal”, del Toro percebe que a vida faz sentido graças ao fato de ser transitória, passageira, falível. Nessa nova narrativa, Pinóquio se torna um menino de verdade não pela presença de pele e órgãos, mas porque acolhe a morte, personificada no filme como um espírito em formato de esfinge.


No fundo, valorizamos a vida não apenas porque a morte é um fato orgânico, mas também porque temos consciência desse destino, o que não acontece com uma vaca em um pasto, por exemplo. A mortalidade, portanto, nos afeta de duas formas, em sua materialidade biológica e na consciência que a acompanha. A morte, segundo del Toro, faz parte da existência. Ao contrário da Disney, essa nova versão recusa o final feliz, o que não significa necessariamente pessimismo, mas sim realismo, um lembrete de que tudo passa e o tempo não perdoa. Em vez de um convite a tristeza, o filme é muito mais uma celebração das coisas e pessoas ao nosso redor, por mais breves que sejam.


Claro que nem tudo são flores no filme de del Toro. Um dos problemas, ao menos no meu ponto de vista, são os instantes em que o diretor tenta reproduzir a “fórmula Disney”, de preferência nos musicais. Sem dúvida, foram bem feitos, mas se tornaram um pouco incompatíveis com a mensagem geral do filme e seu tom mais existencialista. Muitas musicas pareciam fora de eixo, desconectadas com o tom quase melancólico das cenas. Tirando esse detalhe, o filme é uma verdadeira obra de arte, impressionante em todos os níveis imagináveis, seja na beleza do stop motion, na performance vocal dos atores e, principalmente, no enredo.


REFERÊNCIA:

https://thenexus.one/por-que-o-pinoquio-de-del-toro-corta-duas-das-maiores-cancoes-da-disney/

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