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O RACISMO NASCEU NA ESCRAVIDÃO?




De antemão gostaria de dizer que esse texto será polêmico. Não pretendo com algumas linhas sanar todas as questões sobre a temática do racismo brasileiro. Contudo, após algumas leituras que interseccionam as categorias raça e trabalho, comecei a perceber que, por vezes, caímos na armadilha de analisar o mundo através de categorias que nascem na esfera do pensamento e partem para explicar a realidade. Vou tentar simplificar o que estou querendo dizer. As categorias ajudam a entender o que acontece na realidade, mas jamais podem ultrapassar o real como se valessem infinitamente para interpretar fatos diferentes em tempos diferentes.


Nesse sentido, a priori parece certo dizer que não existe racismo com brancos. No entanto, falando isso associamos o racismo quase que automaticamente como uma categoria que só operou ou operará contra as pessoas negras.


No Brasil, após 400 anos de escravidão de pessoas negras, parece piada quando uma pessoa branca diz que sofreu racismo. Isso porque, algumas pessoas esvaziam o significado das categorias. Em contrapartida, outras pensam que as categorias sempre tiveram e terão o mesmo significado.


Nós brasileiros, conhecemos uma face do racismo, uma dolorosa face que nos atinge(pessoas negras/pardas) todos os dias principalmente na esfera material. Basta olharmos as universidades, desde o período da lei de cotas. Com uma política que pretendeu reparar de alguma maneira a omissão do Estado desde a abolição da escravatura, se conseguiu aos poucos facilitar a entrada de pessoas pardas e negras no ensino superior.


Tivemos uma melhora considerável no número de pessoas negras nas universidades. Segundo dados da CNN de 2022, em 10 anos passaram de 41% para 52% o número de pardos e negros nas universidades federais. Isso demonstra como antes as pessoas negras eram mais prejudicadas sem tal política e o quanto foi necessário para diminuir as desigualdades no acesso ao ensino superior.


Ademais, não foi tão fácil implementar essa política, segundo Wagner Miquéias em seu livro “Racismo, escravidão e capitalismo no Brasil: Uma abordagem marxista”, alguns intelectuais e famosos como Peter Fry, Lilia Schwarcz, Yvonne Maggie, Caetano Veloso e Ferreira Gullar, redigiram o manifesto contra a lei de cotas ‘’Todos têm direitos iguais na república democrática’’.


Partir do princípio de que todos têm direitos iguais faz com que se desconsidere que as pessoas partem de lugares diferentes. Além disso, ignora a história do nosso país e estimula a continuidade da omissão.


É importante salientar que a categoria racial precisa ser considerada junto com a de classe, para não cairmos nas armadilhas da identidade.


Em suma, o racismo no Brasil opera contra pessoas negras. Contudo, não nasceu na escravidão, pois dizer isso é desconsiderar que essa categoria se modificou historicamente e desconsiderar também que opera contra outros povos. No nazismo o ódio aos judeus é uma forma do racismo. O que os povos palestinos estão vivendo na guerra de Israel contra o Hamas e vice-versa, é uma forma de racismo. A exclusão dos Irlandeses pelos ingleses é uma forma de racismo. O racismo, antes de tudo começa e se reproduz no mundo material e por isso, em um determinado contexto uma pessoa branca ou lida como ‘’branca’’ pode sofrer racismo. Finalizo com uma das cenas mais marcantes do filme Bacurau em que os brasileiros do Sul se enxergavam igual os estadunidenses e quando disseram que eram brancos foram alvo de piadas porque na concepção de alguns, ‘’somos todos latinos’’.


FONTE:



Racismo, escravidão e capitalismo no Brasil: Uma abordagem marxista/2022


Filme Bacurau / 2019

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Ótimo texto! Bem pertinente o debate.

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carlosobsbahia
carlosobsbahia
06 nov 2023

Texto bem objetivo em estabelecer parâmetros do que vem a ser racismo de modo estrutural.

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Thiago Pinho
Thiago Pinho
06 nov 2023
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Ótimo ensaio. Provocativo

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