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OBJETIFICAÇÃO DO AFETO: PARA MIM E PARA O MEU PRAZER





Objetificação diz respeito a como temos a tendência em compreender o indivíduo como um objeto, elevando a sua aparência e negligenciando a sua individualidade. O afeto, por sua vez, é a unidade básica da vida social.


Quem acredita que as primeiras organizações familiares surgiram da necessidade de plantar e colher para sobrevivência não conhece a história do amor. É sabido que inúmeros fósseis já foram encontrados, enterrados juntos, evidenciando que o afeto existe mesmo antes de talvez se manifestar a fala, como a compreendemos hoje.


Nessa linguagem do amor, os cadáveres eram enterrados juntos, se abraçando; se entreolhando, sendo esses, aparentados como companheiros românticos ou cuidadores e sua prole.


Em alguns casos, há vestígios de fósseis com idade já avançada, nossa conhecida terceira idade, com fraturas e escoriações não obtidas no momento da morte, mas sim, anos antes de partir. Daí são reveladas lindas histórias onde alguém do bando se machuca, ficando impossibilitado de se locomover, e que nunca fora abandonado por sua comunidade, pelo contrário, acaba sendo carregado, alimentado e cuidado até o fim de sua vida.


Essa breve introdução tem por objetivo inicial, sensibilizar o olhar para fora do eu, compreendendo que o afeto é algo que surge em nós, mas que se encontra no outro.


Entretanto, o afeto é também multifacetado, afinal, o vivenciamos em inúmeras instâncias e não necessariamente precisamos desse outro suplementar para tal.


Essa tentativa de descentralização do olhar no eu pode ser feita a partir da dimensão do livre afeto. Enquanto idealizarmos que ele nos pertence e nos serve, sempre vamos objetificá-lo e hierarquizá-lo. Quando ampliarmos a perspectiva para a descentralização no eu único ou no outro único, os afetos talvez possam ser vivenciados a partir do plural.


Mas é claro que essa estrutura simplista egocêntrica é histórica e forjada para uma finalidade bem definida, pois a lógica do amor-único é centralizadora e consumista. Mas quem não quer pertencer a hegemonia do gozar de todas as performances desse amor, engessado como um quadro ou repetitivo como um gif?


Bom, é necessário colocar na balança se vale mais o acting out ou a qualidade do afeto. E a qualidade do afeto é a dimensão de comprometimento, sinceridade e desejo de diástase da soberania do amor-único.


Almejar a exclusividade em um mundo cheio de nós, e sobretudo, quando nós precisamos de nós - não apenas 1 mas vários - é quase um tiro no pé desse atributo. Pois, é assim que o afeto começa a se dissolver entre as camadas de mentiras, desonestidades e falta de interesse na individualidade do outro, dono-único do nosso afeto, objeto-único do nosso prazer.


A princípio, abrir mão da tão sonhada e comum patente de exclusivo/a-legítimo/a assusta e dá aval para que a criança interior, nunca possuidora de um emocionário, saia pela casa rabiscando todas as paredes e sujando todo o chão.


Pensar na descentralização do afeto, de certa forma, é abrir espaço para a difícil tarefa de educar emocionalmente essa criança que nunca saiu do estágio pré-operacional ou simbólico [1].


Para isso, uma grande motivação seria a possibilidade da existência de uma alternativa ao sofrimento exacerbado com as frustrações e inseguranças, coisas-combo da ideologia-do-amor-único.


Seria justamente essa variação o ponto fora da curva tão chamado de ‘’não-monogamia’’ atualmente. O prefixo de negação pode parecer se referir a uma mera ideia oposta, entretanto, não se trata de polarizar as experiências e fluir drasticamente de uma configuração de relacionamento para qualquer outra. Claro que o sentido oposto (monogamia) vem dotado da sua carga semântica-ideológica, mas esse prefixo diz respeito a uma gradiente nada tênue.


Em meu texto ‘’A não monogamia é ética?’’ [2] busquei iniciar uma discussão refletindo acerca da falta da organicidade presente em diversas relações proeminentemente automáticas e no texto ‘’Teatro de nós mesmos: a cultura da performatividade’’ [3] penso a partir das heranças culturais que sutil ou escancaradamente controlam nossos corpos e moldam nossos comportamentos.


A convergência dessas análises conduz o olhar para a objetificação do afeto e a centralidade do amor. Mas um prazer compartilhado é sempre melhor gozado, além de atribuir sentido aos nossos fósseis.

E você, o que pensa sobre isso?

 

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Notas:

[1] Segundo Piaget, o Estágio pré-operacional ou simbólico ocorre entre os 2 e 7 anos, onde as crianças começam a pensar simbolicamente tendendo a serem egocêntricas e visualizando-se no centro de tudo.

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