Os entulhos da mansão de Margarida Bonetti, "A mulher da casa abandonada"


Uma hora dessas você já deve saber sobre a mulher da casa abandonada, mas farei um pequeno resumo para quem a história não chegou: um jornalista da Folha de São Paulo, Chico Felitti, se interessa por uma mansão caindo aos pedaços em um bairro nobre da capital paulista, ali ele descobre que mora uma criminosa no seu sentido mais brutal da palavra, foragida do FBI a mais de 20 anos.


A mulher com o rosto empapado de Hipoglós se trata se Margarida Bonetti, neta do barão de Bocaina, Francisco de Paula Vicente de Azevedo, e filha do médico Geraldo Vicente de Azevedo, proprietário (já falecido) da mansão. Ela faz parte de uma das famílias mais influentes de São Paulo e passou os últimos 22 anos morando naquela casa sem manutenção, os últimos 10 residindo sozinha, mas por quê?


Chico Felitti, jornalista, escritor e narrador do podcast A mulher da casa abandonada descobre que Margarida, a qual se apresenta como Mari, na verdade é foragida do FBI por um crime bárbaro: manter uma empregada doméstica, em situação análoga à escravidão por 20 anos. Ela e o marido levaram uma emprega da casa da família para os E.U.A, na década de 1980, mas o crime só foi denunciado no final da década de 1990 e o processo aberto em 2000.


Nos autos do processo Margarida, A mulher da casa abandonada, é acusada de tortura, jogar sopa quente no rosto da empregada, escalpelar o couro cabeludo dessa e mais outras situações como trancar a geladeira com o cadeado para que ela não pudesse acessar a comida da casa. Além de não prestar serviço médico, acarretando 7 tumores no abdômen da empregada e uma cicatriz na perna devido a uma infecção que atingiu o osso após um corte que ela sofreu dentro de casa.


Como parceiro desse crime bárbaro está Renée Bonetti, ex-marido de Margarida. Diferente dela, ele cumpriu sete anos de pena nos E.U.A e hoje vive bem com um salário que gira em torno de um milhão por ano, 1 milhão de dólares por ano, como diretor de uma empresa que presta serviços para a NASA.


Não acho justo que ele tenha tido um final feliz, afinal o que são 7 anos de cadeia para quem manteve por 20 anos em situação análoga a de escravidão um ser humano que era analfabeto em sua língua e na língua do país, não tinha família e amigos por perto e ainda por cima vivia nessa situação horrenda de tortura, a qual infringia os Direitos Humanos.


Mesmo assim o homem hoje ganha muito bem e tem um cargo alto no país que se naturalizou cidadão e local onde cometeu o crime, ou seja, nenhum indignação popular, porém, ao menos ele cumpriu a pena. Houve alguma justiça, o que já é uma situação melhor do que nenhuma justiça, que é o caso de Margarida.


O que choca mais nesse caso não são só as crueldades que a vítima sofreu, mas o fato de o caso ter uma repercussão mínima, ainda que o crime tenha saído na mídia brasileira e internacional nos anos 2000. Na época da publicação do processo, por que a vizinhança ficou em silencio o tempo todo? Todos sabiam onde estava Margarida Bonetti, por que ninguém fez nada? Pacto da branquitude? Resquício da colonização? Fragilidade da Lei?


Ao ver a repercussão do caso de Margarida Bonetti percebo que não se trata apenas de mais um crime, os entulhos são maiores do que podem ser vistos. Sim, o pacto da branquitude é um deles, mas não o único. Todo mundo no bairro sabe que Margarida é uma foragida a anos, mas, apesar de não ter uma amizade com ela, são respeitosos.


A atmosfera no bairro soa como: “sabemos o que você fez, mas se você não mexer com a gente, não mexemos com você.” E pela forma como a história é contata no podcast os moradores se incomodam mais com o fato da casa cheirar mal, ser foco de dengue, estar caindo aos pedaços (destoando da paisagem local), da autora do crime ameaçar chamar a polícia quando estacionam na frente da casa ou quando cortam uma árvore no bairro. Choca mais os vizinhos o fato de Margarida Bonetti ser malcuidada e escandalosa do que de fato o crime bárbaro que ela cometeu nos E.U.A.


Se ela mantivesse a casa em bom estado, andasse elegante e fosse uma pessoa amigável, muito provavelmente esse podcast nunca teria ido ao ar, afinal, não despertaria a curiosidade de ninguém, seria só mais um crime esquecido cometido pela alta sociedade.


Faço um adentro que o crime saiu em revistas e jornais nacionais e internacionais nos anos 2000, mas ainda assim é como se fosse um grande delírio e depois a poeira abaixou, não ouve uma comoção coletiva sobre isso e por ter acontecido com uma família extremamente abastarda e influente foi interpretado como natural por seus pares: pessoas brancas e ricas.


É como se fosse normal porque os ancestrais dela assim como os ancestrais de alguns vizinhos daquele bairro nobre, onde se localiza a casa, tratavam os trabalhadores de suas terras como mercadorias, e foi através do trabalho escravo que hoje a maioria das famílias brasileiras abastardas são abastardas.


Faço um outro adentro: a família de Margarida Bonetti tem mais de 12 imóveis e a maioria vale milhões, só a casa do jeito que está é avaliada em 4 milhões e Margarida é herdeira de alguns deles, não apenas da casa onde reside.


O que são 4 milhões para quem vive de salário-mínimo no nosso país ou até para quem é classe média, mas não é herdeiro? O que são 4 milhões para quem não tem um centavo para comer? Deixo aqui essa reflexão, principalmente se você for um cidadão médio ou uma cidadã média como eu.


Para os vizinhos de Margarida é mais chocante o fato de a casa estar cheia de entulhos, os cachorros malcuidados (não que eu ache que eles não devam estar cuidados, afinal, amo cachorros), as paredes descascando, os tetos quebrados, a falta de esgoto, do que de fato estar ao lado de um ser humano que torturou outro ser humano.


Ouvindo o podcast lembrei do filme Que horas ela volta? que mostra a realidade de muitas empregadas; comer sobras, dormir no quartinho quente e ainda os patrões dizerem: “Ela é quase da família”, “ela é tratada como uma irmã”, essa última frase inclusive repetida por Margarida algumas vezes durante sua entrevista no último episódio do podcast. Se um irmão fosse tratado dessa forma, imagina seu pior inimigo?


Apesar da PEC das domésticas ter dado direitos para as empregadas como garantia de salários, décimo terceiro e férias, ainda no Brasil muitas mulheres, a maioria negras, que são professionais domésticas, vivem sem ter um salário, recebendo muito pouco para cuidar de lares e em geral são exploradas por seus patrões e patroas. Algumas limitadas a não usar o banheiro da casa que atua, a não comer a comida do lar e muito menos jantar na mesa junto com a família, esse último quesito até já seria considerado um luxo pensando na hierarquia colonial que é cultivada nesse tipo de relação no Brasil.


Mesmo assim elas são chamadas de irmãs e de parentes. Algumas infelizmente se sentem gratas porque ao menos tem um emprego, e hoje possuir um trabalho em plena crise econômica, é motivo para sentir-se abençoado pelo Universo, então denunciar algum abuso seria uma carta de demissão e talvez uma não contratação por parte de outras famílias.


Também há casos de domésticas que são abusadas por seus patrões, mas não os denunciam por temer alguma maneira de retaliação, de acontecerem algo com elas mesmas ou com suas famílias, ou por terem uma dependência emocional com seus algozes. O medo também passou pela cabeça da empregada de Margarida, mas felizmente ela foi iluminada e denunciou os abusos, porém muito receosa do que viria pela frente. Não foi uma decisão fácil, apesar das agressões sofridas.


E a justiça brasileira nisso tudo? Não podemos esquecer quem faz parte da justiça, quem são os bacharéis que se sentam nas cadeiras com suas togas, em geral, herdeiros da elite. Então muitos são a favor do Réu até que se prove o contrário e o pior que isso não é uma escolha individual, isso está na Lei, ela protege o Réu, e nesses casos de abuso essa proteção é extremamente negativa.


Afinal como uma pessoa sem recurso pode provar que está sendo abusada? É extremamente difícil, ainda mais em casos que não envolvem violência física. Felizmente, hoje a maioria das pessoas tem acesso a celulares com câmara fotográfica e gravador, mas aí a Lei entra com produção de provas sem autorização, direito de imagem e várias outras firulas que se não absolver o Réu ao menos diminui bastante sua pena.


O caso de Margarida Bonetti, ou melhor, da mulher que foi vítima dela, foi horrendo porque não houve justiça e não haverá, cairá no esquecimento das Leis, porque prescreveu mesmo com provas.


O Brasil não pode extraditar seus cidadãos, até aí não vejo uma gravidade, porque penso que: se você é daquele país, você conhece aquelas leis e não a de outros e o Estado tem o dever de proteger os cidadãos. Mas talvez, devido a gravidade desse caso, seria interessante o legislativo brasileiro reformular isso.


Hoje, com a Internet, temos fácil acesso as Leis de outros países e talvez fosse o caso de estipular um tempo mínimo, reformular a Lei: se a pessoa morou de 5 a 10 anos em um outro país e sabe falar a língua presume-se que ela deve ter conhecimento sobre o básico das Leis de onde residiu, então, talvez, ela devesse ser extraditada em casos de crimes com agravantes. Mas não vou me delongar nesse assunto aqui, afinal adentraríamos em um debate denso sobre Direito Penal e Direito Internacional.


O fato é que Brasil não pode extraditar, mas ela poderia responder pelo crime em solo brasileiro entre 2000 e 2020, já que manter uma pessoa em situação análoga à escravidão também é crime no Brasil. Mas por que isso não aconteceu? Os E.U.A teria que enviar para o Brasil uma carta junto com o processo o qual ela foi citada, o país destinatário poderia ou não acatar em fazer a denúncia e por conseguinte abrir o processo aqui.


No podcast Felitti diz que tentou contato tanto lá nos E.U.A quanto aqui no Brasil, mas não obteve resposta de nenhum dos dois lados, pois só quem pode ter essa informação são as pessoas que fazem parte do processo. E isso levanta uma questão, será que os E.U.A não enviou a carta ou o Brasil arquivou o processo?


Vamos a lógica, Margarida faz parte de uma das famílias mais influentes do país, inclusive, seu avô foi um dos diretores da ferrovia Rio-São Paulo, o Barão de Bocaina, isso já seria um precedente, pensando na nossa cultura colonial de proteção a famílias abastardas, portanto esse já seria um motivo do Brasil para arquivar a carta e o processo estadunidense.


Segundo ponto da tese: por que os E.U.A não enviaria a carta se uma das partes que é cidadão naturalizado estadunidense (Renée Bonetti) respondeu pelo crime? Mesmo ele sendo um indivíduo que teria utilidade para o país (já que entende de satélites e trabalhou desde que chegou nos E.U.A nesse ramo), qual seria a lógica para não proteger Renée, mas proteger Margarida, que era apenas na época esposa dele?


Então mesmo sendo especulação a resposta soa clara para nós, provavelmente o Brasil arquivou o processo. Outro adentro, no podcast temos a informação que o Brasil também tentou repatriar Renée para que ele não respondesse o crime nos E.U.A, mas felizmente não obteve sucesso nessa empreitada.


Depois de 20 anos os crimes prescrevem no Brasil e ainda que Margarida Bonetti tenha passado 22 anos em uma casa caindo aos pedaços, essa casa é uma mansão e ela tem o direito de ir e vir, de brigar com policiais e de plantar abacates no jardim. Ela não sofreu abuso físico ou moral, ela não ficou privada de se alimentar, ela não ficou privada de transitar, ela podia conversar com pessoas, ela sabe ler, têm conhecimento de algumas línguas, ela conhece a Constituição Brasileira e o Código Penal Brasileiro.


Então não podemos comparar a escolha de reclusão de Margarida Bonetti numa mansão sem manutenção em um dos bairros mais ricos de São Paulo com uma pena de reclusão ditada pelo Estado. Ela escolheu seu próprio destino.


Mesmo que muitos ouçam a história no podcast, leiam sobre ou assistam os vídeos e ache que ela está pagando porque está sozinha na casa caindo aos pedaços, cheia de entulhos e segundo ela acumulando doenças como reumatismo, isso não foi uma justiça e nunca será!


Os entulhos são maiores do que pensamos e não estão apenas na casa de Margarida, se alastra por toda a história, inclusive, ou principalmente, da vítima. Lá está no meio do quintal da vida de uma senhora de 80 anos alguns móveis enferrujados, traumas que não poderão ser podados como a árvore de Higienópolis que Margarida Bonetti hipocritamente queria preservar e nem poderão ser jogados fora como as geladeira da mansão da casa dos Vicentes, herdeiros do barão de Bocaina, casa que Margarida se "escondeu" por mais de 20 anos e todos ao redor sabiam.


Na vítima estão estampadas as marcas do horror, a cicatriz na perna devido a infecção por falta de acesso a cuidados médicos, porque foi privada durante 20 anos pelos ex patrões o acesso a saúde. Também seu corpo está marcado pela cicatriz da cirurgia de quem acumulou cistos por vários anos, um deles chegou a ter o tamanho de uma bola de futebol, segundo laudos médicos.


Além das manchas físicas, essa senhora foi privada praticamente durante toda a sua vida de ter uma família, de ter amigos. Foi privada de uma língua. Não teve acesso à educação, nem a saúde e foi abusada durante 20 anos no lugar onde morava pelas únicas pessoas que ela conhecia e que falavam a mesma língua que ela. Então os entulhos permanecem lá, ainda que hoje ela esteja bem ao que parece, porém as marcas do passado não serão apagadas e muito menos minimizada.


A sensação de injustiça prevalece em algum canto dessa casa-gente que foi abandonada, que esteve invisível, que foi maltrata por mais de 20 anos, e não estou falando da mansão no bairro nobre de São Paulo, mas da vítima que morou durante mais de duas décadas em situações precárias, sofreu torturas e dormia em um porão sujo em um bairro rico de uma cidade pacata do estado de Maryland.


Ao menos a partir do caso dela foi sancionada uma Lei nos E.U.A que preserva os empregados imigrantes que chegam junto com as famílias a qual irão prestar serviços, os fornecendo Direitos básicos como saúde, salário e férias e não os deixando ser extraditados em casos de abuso, se estiverem em situação ilegal. Também com a condenação de Renée Bonetti ela teve acesso a uma indenização, aos salários atrasados, e conseguiu retomar a vida, o que foi o mínimo diante do sofrimento que passou.


Porém, não podemos esquecer que sua principal algoz nunca pagará pelos crimes cometidos e sempre será uma protegida do seu país e do seu bairro, mesmo que tenha cometido um crime bárbaro contra um ser humano. Aí volto a questionar a Lei, todos os crimes deveriam ser prescritos? Algum crime deveria ser prescrito? Qual a função da prescrição do crime nesse caso? Deixo também essa pergunta para o jurisconsulto e também para o legislativo brasileiro.


Naquela rua, naquele bairro nobre, morava uma foragida e todos sabiam. Será que podiam fazer alguma coisa? Talvez pudessem pressionar a justiça, por que não fizeram? Por que não quiseram se envolver? Por que só uma ou duas pessoas se manifestaram, por que a conivência? Isso também é um dejeto da cultura colonial que está entulhada no nosso país, proteger os pares e não se envolver com a vida do outro, principalmente quando esse outro é um herdeiro e o crime ocorreu em outro país, do que adiantaria clamar por justiça? Adiantaria muito porque o pacto colonial seria quebrado a e a justiça efetivamente seria para todos.


A solução do bairro foi tomar Margarida como incapaz, como louca, como bruxa no seu sentido da fantasia, como desequilibrada, mas não como uma criminosa e é assim que são tratadas as pessoas da elite e da classe média alta que cometem crimes. São criminosos ricos que se escoram na saúde mental, não estou afirmando que alguns não tenham de fato algum sofrimento psíquico, mas essa é a regra e não uma exceção, será que todos realmente são alienados mentais? Mais uma vez me questiono aqui e gostaria que o leitor ou a leitora questionasse também a lógica disso.


Para a vizinhança, a barbaridade de Margarida Bonetti não foi em torturar uma emprega doméstica negra, analfabeta e sozinha nos E.U.A, mas entulhar uma mansão em um bairro de elite, jogar dejetos pela janela da casa, não fazer a manutenção das estruturas, ser espalhafatosa, arrogante e promover algazarra dentro da residência em que se “escondeu” por mais de 20 anos enquanto estava sendo procurada pelo FBI por um crime hediondo e que infringia os Direito Humanos (é bom ressaltar).


Que esse crime e o seu desfecho infeliz sirvam para que mais histórias como essa não se repitam e os entulhos da colonialidade sejam expulsos das terras brasileiras, as Leis sejam refeitas, que menos Maragidas Bonettis não saiam impunes, e que a podridão da elite brasileira seja expulsa pelos ralos. Que a justiça seja feita, mesmo que tardiamente. Lastimavelmente nesse caso, não será... Os entulhos prevalecem.


Foto de capa: Folha de São Paulo <https://f.i.uol.com.br/fotografia/2022/06/06/1654553854629e7cfe66e4f_1654553854_1x1_md.jpg>

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