“Pandora: a garota interestelar” (2020)




Por Manoela Nunes de Jesus


Desenvolvida no século XIX, a ficção científica envolve componentes intuitivos, fantasiosos e ficcionais, bem como componentes racionais, técnicos e científicos, resultando em uma associação que, além de produzir uma narrativa que seria ficcional e, simultaneamente, científica, simula uma nova realidade.


Dessa forma, rompendo as barreiras entre o mundo científico, a linguagem da arte e a vida diária, esse tipo de gênero investe diretamente nessa simulação e a conduz, às vezes, para universos tão vastos que extrapolam a aceitação. Isso pode ser observado nos trabalhos tidos como fundadores da ficção científica, como “Frankenstein”, de Mary Shelley, e “O médico e o monstro”, de Robert Louis Stevenson, e naqueles que consolidaram o estilo, a exemplo dos contos de Edgar Allan Poe e os romances de H. G. Wells. Nesse contexto, destaca-se ainda a obra “Pandora: a garota interestelar”, escrita pela autora Priscilla Sobral e que também lida, de maneira instigante e criativa, com noções ficcionais e imaginativas relativas ao futuro, à ciência e à tecnologia.


Nascida no Rio de Janeiro em 1987, mas, atualmente, vivendo na Bahia, Priscilla Cordolino Sobral conta histórias desde pequena, iniciando pelos seus teatros de fantoches dentro de casa até levar suas ideias para o universo virtual, principalmente através de sua primeira publicação. Como é apaixonada pela leitura e pela escrita, a escritora possui graduação em Letras, mestrado em Literatura e Cultura, no âmbito da Tradução Cultural e Intersemiótica, e é doutoranda em Língua e Cultura, no âmbito da Linguística Aplicada, pela Universidade Federal da Bahia. Além disso, ela também mostra seu interesse pelo estudo de novas línguas como docente de Francês como Língua Estrangeira e Literatura de Língua Francesa, combinando o amor pelo ensino, que, inclusive, já dura há mais de dez anos, e a elaboração de suas histórias. Priscilla já trouxe a público dois livros, “Eu, ele e minha melhor amiga” (2018) e “Pandora: a garota interestelar” (2020), que, apesar das distâncias estruturais e temáticas que mantêm entre si, chamam atenção por estimular a reflexão e a imaginação dos leitores.


“Pandora: a garota interestelar” conta a história de Mirella, uma adolescente que enfrenta uma vida difícil e hostil depois de perder os pais e o irmão em um acidente de carro e ir morar, ainda com dez anos, com sua tia e suas duas primas, que não só a obrigam a abandonar a escola, mas também a fazer as tarefas domésticas. No entanto, ao tentar fugir dessa situação, a jovem é abduzida por uma nave espacial e se depara com criaturas muito diferentes, as quais acreditam que ela foi designada para salvar o planeta Artemis do domínio de um tenebroso dragão. Entre o desejo e o medo de não ser a escolhida, a menina tenta se adaptar a essa nova realidade e se preparar para o grande confronto, por meio de aulas ministradas pelos tripulantes da nave, dentre os quais um, em especial, desconfia da aptidão e força da protagonista para cumprir esse desafio.


Ao longo dessa aventura, da qual também fazem parte personagens como Hortência, Julius, Perséfone, Esperança, entre outros, Mirella encontra uma família e amigos onde menos espera, assim como passa por um processo de cura e autodescoberta.


O livro evidencia a capacidade da escritora para criar uma narrativa que, embora ocorra em uma realidade distinta da nossa, consegue ser verossímil, uma vez que, além dos cenários, as informações sobre a viagem espacial e o planeta Artemis, por exemplo, são claras e bem construídas, contando, até mesmo, com respaldo técnico e científico. Ademais, questões que são, frequentemente, negligenciadas ou tratadas superficialmente, como a perda de entes queridos, trabalho infantil e preservação ambiental, ganham visibilidade em diversos momentos da história. Permitindo aos leitores se sentirem identificados e representados devido a sua aparência e personalidade, os personagens são, ao mesmo tempo, cativantes e complexos, sendo que alguns deles possuem uma versão animal que é revelada no decorrer do enredo.


A autora, por sua vez, tem um estilo de escrita reflexivo, inteligente, mas, acima de tudo, simples, o que torna a leitura do texto leve e divertida, ainda dando a quem lê lições interessantes e valiosas acerca de alguns princípios e ideias que a sociedade prega como “certos” ou “normais”.


A obra, então, se adequa ao gênero ficção científica tanto por inserir elementos científicos, que ultrapassam ou integram o nosso dia a dia, como fundamentais ao andamento da trama, mas também por trabalhar e, de certa forma, priorizar questões sensíveis e do cotidiano.


Assim, o texto acaba por atingir, semelhantemente aos romances dos escritores previamente mencionados, uma convergência entre técnicas, relatos e narrativas, isto é, entre a ciência e a arte, possibilitando um contato das produções tecnológicas com os diálogos literários, narrativos e ficcionais.


Por isso, Priscilla Sobral, mediante a coerência e plausibilidade, aspectos que costumam ser difíceis de aplicar em trabalhos desse estilo, prova-se capaz de executar com excelência vários pontos de sua história, a exemplo do desenvolvimento do enredo, dos personagens e dos cenários. Desse modo, ela facilita, graças a uma linguagem dinâmica e envolvente, o alcance do livro para diferentes leitores, incluindo seu público-alvo, crianças e adolescentes que, naturalmente, estão em uma fase de formação de caráter e conhecimento de mundo.





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