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PINK FLOYD, CANETA BIC NO REBUCETÊ





Num piscar de olhos entramos todos em outro assunto. Todo mundo, toda hora e a todo instante esboça um certo comportamento, agora comum, de desvio de atenção, o foco. O que era novidade no início dessa frase será apenas uma vaga lembrança no ponto final. Esses são os novos tempos, suas lógicas e engrenagens. E nunca se ouviu falar tanto em TDAH, hiper foco, dislexia, motivo pelos quais acredito que mereça nossa atenção.


Andei pensando nisso esses dias recordando o tempo em que se levava tempo para degustar a vida.


Ao sair de casa, a caminho do trabalho, liguei o som do carro e escolhi na playlist que tenho, num desses streamings de músicas, a canção Dogs (David Jon Gilmour / Roger Waters) do álbum Animals do Pink Floyd lançado no ano de 1977 e parti em direção ao meu destino. Foram 17:05 minutos de muito êxtase e prazer em ouvir um trabalho da banda que parece, para mim, oferecer o oposto da proposta das criações que consumimos hoje em dia.


Tudo bem que o Syd Barret não utilizou de muita complexidade para sugerir o nome Pink Floyd, que nada mais é do que a junção dos nomes de dois bluesmen, Pink Anderson e Floyd Council, de quem era fã. Mas a junção de pensamentos de Roger Keith (Syd Barret), Rick Wright, Roger Waters, Nick Mason e David Gilmour nos anos de 1965 daria a música um presente chamado rock progressivo que eu me confundo sempre chamando de progressista.


Era 1985 quando eu, rebobinando com uma caneta Bic uma fita cassete preta que tinha e levava para todos os cantos, conheci o rock. Introduções enormes, solos de guitarra (que me conquistaram, dona Paula Toller), e álbuns que continham muitas vezes músicas instrumentais que eram um verdadeiro convite para visitarmos nossas emoções e à imaginação. Naquela época ainda aguçávamos o pensamento, estimulávamos a criação e nos aprofundávamos um pouco mais nas informações porque elas não vinham mastigadas e embaladas pra consumo como hoje. O que nos acostumamos hoje a dizer "dê um Google" dizia-se “procure no pai dos burros” (Dicionário) ou vá na biblioteca ler uma Barsa (enciclopédia). Aquela era uma vida que se mostrava possível e tranquilamente bem vivida em uma rotação muito menor que permitia que pudéssemos conectar informações, assuntos, casos e até fofocas com estímulos naturais em que decidíamos proativamente quais e se aprofundávamos ou não. Melhor ou pior que hoje eu não entrarei nesse debate, mas posso dizer que a velocidade parece estar nos deixando, alheados, desinteressados, superficiais, rasos e arrisco dizer que preguiçosos intelectualmente.


Quantas vezes você se pegou compartilhando informações apenas pelo título? E quantas vezes você leu uma matéria e o texto dizia algo totalmente diferente do enunciado ou desconectado com uma racionalidade? Será que não já discutiu sobre assuntos que sequer leu fazendo conexões no achismo e no entendimento que teve superficial sobre o tema?


Nas aulas de português ou mesmo de história eu sempre ouvia os professores dizerem (os comprometidos com sua profissão, é claro) que a falta do exercício da escrita e principalmente da leitura nos traria problemas graves de compreensão de textos, interpretação, conexão, senso crítico e capacidade de entender nossa própria historia. Incrível como os meus professores, filhos de Nostradamus (é ironia viu?), conseguiram prever tudo o que aconteceria no século XXI, agravado com o surgimento do ainda indomável advento da internet.


Entramos na era das frases curtas, da abordagem de assuntos múltiplos em curto espaço de tempo, da impaciência em ouvir ou ler, da necessidade geral de se emitir opiniões, dos likes e lacrações que se sobrepõe ao sentir profundo, ao saber e ao realmente compreender.


Se o tempo sempre foi valioso em toda a história da existência humana, hoje ele é a moeda mais cara do mundo, arrisco afirmar. Ninguém tem tempo sobrando ou livre, mas tem tempo pra vender ao preço de atenções, que geram receitas, que geram status, que geram sensação de poder, que nos escravizam mentalmente, que não geram aproximação, que não geram empatia, que nada tem de amor.


Muito se fala em liberdade mas para alcançarmos esse tal liberté não parece muito fácil, além de gerar um grande rebucetê (com licença, Jorge Amado) que travamos para entendermos que, escravos do tempo, somos iludidos com a ideia de sermos livres, atendendo apenas as demandas do senhor capital.


A música Dogs (cães em inglês) que eu mencionei no texto reflete sobre a visão do compositor sobre as relações capitalistas empregador/empregado como descreve muito bem André Luiz Fernandes no seu texto sobre o Álbum Animals no site que tem pauta e edição de Igor Miranda: "Os “cães” são uma crítica ao setor corporativo e aos chamados “homens de negócios”. Na letra, Roger compara seu comportamento “adestrado” aparente, que esconde uma competitividade brutal, na qual tudo vale em troca de “petiscos” e “tapinhas nas costas”. “Dogs” fala, acima de tudo, sobre aqueles responsáveis por manter o poder da próxima espécie da tracklist: os porcos."


Como é genial poder refletir sobre temas caros a nossa sociedade, de maneira crítica sobre nossos comportamentos fazendo paralelos com acordes e melodias que buscam alcançar sentimentos que nos toquem profundamente e nos transportem para um estágio de introspecção engrandecedora. E nessa pegada vai aí uma crítica aos 60 segundos do Tiktok e a incapacidade que nos dá para processarmos o que vemos e ouvimos. O mundo, a cada segundo, já passou e ninguém viu.


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Referências


https://igormiranda.com.br/2022/01/pink-floyd-animals-conceito/

http://mesotropo.blogspot.com/2009/08/o-amante-da-expressao-popular.html?m=1


https://www.antena1.com.br/artistas/pink-floyd#:~:text=A%20hist%C3%B3ria%20do%20Pink%20Floyd,(esp%C3%A9cie%20de%20bar)%20londrinos.


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