POLÊMICA NO OSCAR 2022: Como um marxista interpretaria o tapa de Will Smith?



Nessa noite de domingo, em pleno OSCAR, um acontecimento chamou a atenção de todo mundo, sendo que provavelmente você já leu alguma coisa a respeito. E não me refiro aqui a Beyoncé e sua performance de abertura, muito menos às seis estatuetas que Duna conquistou naquela noite. A grande polêmica foi o tapa de Will Smith em seu colega comediante Chris Rock depois de uma piada sobre a perda de cabelo de sua mulher, Pinkett Smith, a comparando a uma personagem careca do filme “até o limite da honra” (1997). A mulher de Will Smith passa por um tratamento de uma doença autoimune, o que resultou numa perda de cabelo.


A comédia norteamericana sempre foi caracterizada por sua ousadia, por seu acolhimento da livre expressão de seus criadores, destacando aqui criações como South Park, Family Guy, além de dezenas e dezenas de Talk Shows com o mesmo compromisso de uma liberdade incondicional. A primeira emenda na constituição norteamericana sempre falou mais alto, colocando o sujeito em primeiro lugar, assim como suas demandas e queixas, sejam elas de direita ou de esquerda. Mas ontem, na noite de domingo, percebemos que até os comediantes do país mais liberal de todos, o maior defensor do indivíduo e sua capacidade de autogestão e liberdade, possuem também um limite.


Comediantes liberais, sejam de esquerda ou de direita, se gabam de suas capacidades em ultrapassar qualquer tipo de limitação institucional, colocando a si mesmos acima de tudo. A arte, portanto, se torna sinônimo de um novo tipo de neoliberalismo que aparece nos últimos tempos: o neoliberalismo humorístico. Nesse cenário, qualquer tipo de critério externo ou coletivo, qualquer instituição intrometida nos assuntos privados, vai ser considerada imediatamente uma ameaça intolerável. Embora abracem esse princípio de formas diferentes, com conteúdos e valores bem distintos, tanto a direita reacionária, como a esquerda liberal, são contra esses tipos de regulação, ao menos quando se referem ao que fazem e dizem. A justificativa é sempre a mesma: “estão nos censurando... ninguém pode nos dizer o que falar ou quando falar. Se eu quero, se eu desejo, se eu sou, logo, eu faço”. Em um mundo neoliberal, esse “sentir”, esse “querer”, e esse “ser”, sempre se apresentam como a única matriz de referência. Esse “Eu Soberano”, como diria a psicanalista Elisabeth Roudinesco, substitui todas as formas mais coletivas de convivência, se concentrando apenas nas minhas demandas e na minha própria identidade. Se antes o superego dizia “não”, em uma postura claramente repressiva, como foi óbvio nas décadas de 60, 70 e 80, hoje o imperativo é outro: “goze, mostre, seja!!!”.


Quando o assunto é arte, e em especial a comédia, tudo é mesmo permitido? Eu acredito que não. Sem dúvida, eu não tenho uma resposta aqui no bolso, muito menos um imperativo categórico conveniente aguardando nos bastidores. O que defendo nessas linhas não é um critério, ou um julgamento ético sobre o que aconteceu entre Will Smith e Chris Rock, mas a necessidade de trazer esses debates a público. A saída neoliberal, que sempre foi privatizar tudo, inclusive debates como religião, moda, humor, conhecimento, etc, apenas tira de nós a responsabilidade de estabelecer critérios coletivos. A privatização dos debates, e do próprio humor, é conveniente porque joga no terreno do indivíduo a responsabilidade de fazer ou não fazer algo, implodindo a esfera pública por completo. Afinal, quem quer correr o risco de propor alguma coisa, de sugerir um caminho, de arriscar soluções? Neoliberais, sejam de esquerda ou de direita, gostam de sair pela tangente, ao mesmo tempo que se apresentam como espertos e críticos. Desconstroem instituições, mostram suas falhas, relativizam suas fronteiras, mas nunca colocam nada no lugar, nem mesmo um frágil substituto, restringindo o mundo inteiro às singularidades dos corpos, percepções, experiências, etc.


Quando se trata do humor, assim como qualquer tema humano, é preciso sim trazer esses tópicos à tona, é preciso sim propor critérios coletivos de convivência, assim como fronteiras do que pode ser tolerado ou não. Não adianta deixar que os comediantes façam o que quiserem, embora não seja óbvio onde exatamente a linha deve ser traçada. O que importa é não privatizar os debates e a própria democracia. É preciso fugir da sedução conveniente do novo clima neoliberal que se instala, seja esse neoliberalismo de esquerda ou de direita. Mesmo sendo arriscado propor alternativas, já que alguém sempre vai te odiar, ainda assim é nosso compromisso enquanto pensadores, enquanto criaturas que não apenas apontam dedos, em um gesto ressentido qualquer, mas também estabelecem caminhos. Não adianta frases mágicas como: "cada um é, ou faz, o que achar melhor e tudo bem"!!!. Não adianta privatizar debates como religião, arte, ciência, política, etc. Não adianta dizer: "instituições são produtos históricos, hipócritas, frágeis, logo a única coisa real é o meu ego soberano", principalmente porque esse mesmo EGO é também datado e não uma verdade absoluta nas profundezas do mundo.


Referência da imagem:


https://www.diariodocentrodomundo.com.br/813397-2/

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