POR QUE AS COISAS SÃO FEITAS PARA NÃO DURAR?





*Por Marianna Farias



Ontem uma amiga me falou que vai comprar outro celular.


Eu lhe perguntei: Outro? Mas, já?!


E ela me respondeu: Sim, este que eu tenho comprei há dois anos. Era moda na época, o mais avançado: com 3 câmeras traseiras, borda infinita, design único e ainda vinha com três novas opções de cores, vermelho, azul escuro e lilás! Olha que avanço! Não resisti, comprei o lilás, que é uma cor que combina comigo, está na minha cartela de cores e, claro, vi na internet que é uma cor que traz dinheiro! Então, eu o dividi em 12x, porque mesmo com meu emprego, não conseguiria pagá-lo à vista. Mas o problema é que há um mês o bendito do celular começou a dar pane. Levei na assistência técnica e lá me disseram que só o valor do conserto era mais da metade do que eu paguei no celular. Ô raiva que me deu! Mal tinha acabado de quitar o celular e ele já me vem com essa...


- Mas será que não vale a pena o conserto? Pois, veja, os celulares estão caríssimos atualmente... esse que você tem, hoje em dia, deve estar custando os olhos da cara!


- O rapaz me disse que não valia a pena consertar, amiga. Ele me aconselhou a comprar um novo mesmo, até porque, desse meu já tem uma versão bem mais avançada... E bem que veio a calhar, porque eu mereço, sabe? Não nego que já estava de olho em um celular novo há umas semanas rsrsrs Trabalho tanto, passo 2h na condução, levo desaforo para casa e ainda tô cuidando de meus sobrinhos, como te falei. Eu mereço ser mais feliz, mereço esse novo celular!


- Ah, compreendo, mas quais são os avanços deste novo celular que você está pensando em comprar? Ele é mais potente, a bateria dura mais?


- Olha, amiga, a tela desse novo é mais alongada, sabe? Na propaganda, o fabricante disse que é apenas 1cm de diferença com relação ao anterior, mas eu o vi pessoalmente e, nossa! É bem mais de 1cm. Eu peguei no celular e vi a tela bem mais retangular, o design mais fino, mais chique! Me senti até uma mulher mais poderosa, empoderada que fala, né? E elegante!


- Ah, então os avanços são somente estéticos? E justificam o valor estar mais de mil reais mais caro?


- Claro, amiga! Além do mais, todo pessoal famoso do TikTok e do Insta está usando esse celular. E, pasme, agora vem com mais opções de cores! Eu tinha o lilás, né, mas não sei, hoje em dia já me parece uma cor meio batida. Eu gostei mesmo é dessa nova cor que lançaram, VERDE! Mas o vendedor me disse que para adquirir com essa cor, lançamento 2023, ainda preciso pagar um valor a mais de apenas R$ 99,99.


- Amiga, pensa bem. Esse pessoal famoso deve estar nadando em rios de dinheiro, né? E pagar 100 reais a mais apenas para garantir que o celular seja verde pode ser uma roubada, não acha?


- Lá vem você frustrando a minha compra. Primeiro, que não é 100 reais. É R$99,99. 1 centavo faz diferença, viu? Já conferi isso nos canais de investimento do YouTube. E ninguém precisa saber que estou sem dinheiro! Até porque quando o pessoal lá da rua me ver com o celular, vão todos morrer de inveja! Garanto até que no meu trabalho vão me respeitar mais. E, outra: verde é uma cor que combina comigo e esse ano vi no texto de uma Influencer do Insta que eu sigo, que o VERDE é a nova cor da prosperidade!


- Mas amiga, o texto dessa mulher não era uma parceria com essa empresa? Lembro que você me enviou, é um texto de publi pensada justamente para a venda desse celular verde que você quer comprar.


- Não importa, amiga. Ela é especialista em cores, com ela que fiz o curso de coloração pessoal, lembra? Foi o olho da cara também, mais de 3 mil reais rsrsrs e ainda estou pagando até hoje. Mas, enfim, eu confio nela: se ela diz que Verde é a nova cor da prosperidade e também usa esse celular, eu também vou usar! Quem sabe um dia eu serei que nem ela? Depois até vou aproveitar o cupom dela para fazer a minha harmonização facial. Serei mais feliz, sabe, amiga? Você me imagina assim: corpinho fitness (porque você sabe, mesmo muito cansada, eu vou malhar), rostinho de celebridade e com o celular mais avançado do momento, lançamento 2023? Ah, amiga! Pode se preparar que esse ano, eu mudo de vida!


Não, a minha amiga não mudará de vida comprando esse celular. Ela não será mais amada, mais desejada, mais bonita, mais inteligente, nem será como a Influencer Fitness, que dedica o seu dia a malhar mais de 4h, tem patrocínio de procedimentos estéticos e não precisa trabalhar tanto quanto ela, e muito menos será como a Influencer Burguesa que desfila o celular nas redes antissociais e nem sabe o que é andar de ônibus no Brasil. Pelo contrário: nesse caminho, mesmo conseguindo atingir todas essas coisas materiais, minha amiga continuará com os mesmos anseios, com as mesmas inseguranças e desejando avidamente por ser notada. Até porque, em 2023, será lançado o celular de 2024. E será lançada também uma nova moda, uma nova justificativa de compra para que milhares de pessoas desejem tê-la para satisfazerem as suas necessidades emocionais mais básicas.


Pode ser algo difícil de ler, mas fácil de constatar na realidade. Essa indústria do consumo coloca na nossa cabeça, por meio das propagandas publicitárias (as famosas publisDeus! Como eu odeio esse nome), por meio dos anúncios e de toda rede de marketing, que tudo quisermos SER terá de ser por intermédio do que pudermos TER.


Nessa inequação, se eu quiser SER desejada pelo boy, eu precisarei TER aquela lingerie que, na promoção, está custando apenas 299,90 reais. Se minha amiga quiser SER aceita em um grupo que só liga para status social (um grupo que, diga-se de passagem, é melhor passar longe), ela precisará TER o celular do momento. E assim por diante. O tempo todo, eu, você e minha amiga, somos ensinados que precisamos dispor de objetos materiais para curarmos nossas necessidades mais básicas: de sermos amados, desejados, de encontrarmos a felicidade.


Repara se você já não escutou essas frases: Se o homem não tem um carro bonito, como vai arranjar mulher? Se a mulher não estiver depilada, com roupas novas e unhas pintadas, como vai encontrar um bom marido que a deseje? Ah, mas você vai sair desse jeito? Com essa roupa ultrapassada que ninguém mais usa, com esse celular velho que nem tira foto boa e sem nenhuma maquiagem? Você precisa se atualizar! Olha essa nova cirurgia que promete te deixar com o nariz empinado, o olhar mais puxado, tipo aquele Foxy eyes, sem bochecha (sim, tipo a bichectomia) e ainda por cima, com o brinde de ter um cabelo alisado? Olha, você está com uns quilinhos a mais, hein! Bora acordar às 03h30 da manhã e malhar às 04h (já que precisa bater o ponto às 07h), porque com Foco, Força e Fé você consegue tudo! Afinal, todo o seu sucesso depende de você!


Pois é, meu amigo, minha amiga. Eu já ouvi frases desse tipo tantas vezes, que me sinto até enojada quando vejo alguém as repetindo por aí. Mudam as estações, as décadas, os séculos e a necessidade de aparentar algo bom, bonito e sofisticado, aos moldes dos padrões estéticos atuais, só aumenta. E aliar isso a obsolescência programada faz com que as indústrias de bens de consumam enriqueçam muito! Muito mesmo, mais do que você possa imaginar.


A palavra obsolescência vem de tornar algo obsoleto, que não funcione mais. Ou seja, os celulares, como objetos produzidos pela indústria de bens semiduráveis, são programados para serem obsoletos em um determinado período, isto é, terem a sua vida útil reduzida para que você, consumidor, tenha de comprar mais. E isso acontece com outros objetos, como as lâmpadas, tão essenciais em nossas casas, mas que também são programadas para queimarem após um certo número de usos.


Mas você sabia que, no caso da lâmpada, no ano de 1901 foi inventada uma que ainda dura acesa? É o caso da “Centennial Bulb”, que fica em um quartel de bombeiros nos Estados Unidos e ficou apagada apenas por 20 minutos em mais de 120 anos acesa[1]. Mas por que então as lâmpadas que compramos para as nossas casas não duram tanto tempo quanto essa? Simplesmente, porque ela nunca mais foi produzida, afinal não é rentável para os acionistas e donos de indústrias venderem um objeto de consumo tão durável: eles não iriam ganhar tanto dinheiro se eu e você consumíssemos apenas 3 ou 4 lâmpadas ao longo da nossa vida inteira. Eles querem que compremos mais, que os produtos sejam descartáveis mesmo e dane-se o que acontece com eles depois...


Figura 1GAZEBO/WIKIMEDIA COMMONS


Mas precisamos sim ligar para o que acontece depois que descartamos um objeto. Está vendo a foto abaixo?



Ela é uma imagem de Gana, um país do continente africano conhecido por ser um cemitério de eletrônicos, pois virou um depósito de lixo oriundo da Europa e da América do Norte (sim, esses continentes super desenvolvidos – mas às custas de quem?).


Segundo reportagem da ONU, a Parceria Global para Lixo Eletrônico, GESP, revelou que os volumes de lixo eletrônico estão aumentando globalmente, sendo somente em 2019 mais de 53,6 milhões de toneladas e apenas 17,4% dessa quantidade reciclada.[2] Além disso, cerca de 12,9 bilhões de mulheres trabalham no setor de coleta de lixo; grávidas correm risco de vida assim como os seus bebês (há grande incidência de natimortos) e a OMS diz que crianças de cinco anos que fazem a mesma atividade ficam expostas a produtos tóxicos como chumbo e mercúrio, tão como aquelas que simplesmente vivem no local, mas que ao comerem um simples ovo de galinha nativa, é capaz de absorver 220 vezes o limite diário para ingestão de dioxinas cloradas definido pela Autoridade Europeia de Segurança Alimentar.[3]


Ou seja, mesmo que não estejamos tentando sobreviver em Gana, tudo que escolhemos usar, vestir, consumir, além de não estar sendo feito para durar, contribui para o genocídio de uma população (sim, não há outra palavra: ou você acha que essas pessoas que vivem em locais desse tipo estão sendo estimuladas, cuidadas, incentivadas a terem longevidade?) e para os danos ao nosso planeta, que está longe de ser uma fonte inesgotável de matéria prima e ainda enfrenta uma crise climática gravíssima.


Mas é claro, importante frisar: não somos eu e você que produzimos enlouquecidamente esse tanto de produtos; não somos eu e você os donos dessas fábricas, dessas start-ups, dessas empresas de roupas, cosméticos e tecnologia que ainda crescem na atualidade às custas das vidas de tantas pessoas. Essas empresas, sim, que praticam o Greenwashing e não estão nem um pouco preocupadas com os efeitos danosos do sistema que elas próprias alimentam, são responsáveis diretamente pelo lixo que produzem, pelo estímulo à compra compulsória internalizada em suas propagandas e pela obsolescência programada de seus produtos.


O que eu e você precisamos ter atenção, na verdade, é em nosso poder de atuação contra esse sistema que, neste exato momento, está fazendo com que, dentre outros efeitos, milhares de seres humanos estejam vivendo em condições análogas à escravidão e à tentativa de sobrevivência. Não adianta somente curtimos uma publicação do Instagram de canudos de Inox ou torcer para que tudo isso um dia acabe, e por trás, fechar os olhos e apoiar compulsoriamente esse sistema de lucro desenfreado. Precisamos, eu e você, cada vez mais nos conscientizarmos do poder e do alcance de nossas próprias atitudes. Afinal, tudo que fazemos é político: o que comemos, vestimos e consumimos traduzem as nossas escolhas enquanto indivíduos dentro de uma sociedade. Assim, precisamos ter atenção com os nossos próprios desejos de consumo, pois não necessitamos de um celular verde para sermos aceitos e aceitas, amados e amadas, inteligentes, poderosos. Você não precisa mais alimentar e se sujeitar a esse sistema que tanto nos escraviza, pois ele já está sujeitando pessoas que, simplesmente, não tem a escolha que eu e você podemos fazer.


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* Professora de História da rede de ensino estadual da Bahia. Mestranda em História na UFBA.



Link da imagem principal: Imagem da capa: Fotografia de Antonie Repessé, fonte: https://www.antoinerepesse.com/


Notas

[1] https://www.bbc.com/portuguese/geral-44612144 [2] Vejam o Global e-waste monitor: https://www.itu.int/en/mediacentre/Pages/pr10-2020-global-ewaste-monitor.aspx [3] https://news.un.org/pt/story/2021/06/1753752

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