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POR QUE DEVEMOS LUTAR PELA REVOGAÇÃO DO NOVO ENSINO MÉDIO?




*Jessika Alves


O novo ensino médio nasce morto, iniciado no governo Temer, executado no governo Bolsonaro, propõe-se a mudar os currículos para uma nova juventude. Como resultado, facilita o sucateamento da educação e aumenta as desigualdades. No entanto, é incapaz de tocar no âmago da problemática do Brasil no quesito à educação. O novo ensino médio mal consegue sair dos documentos oficiais, é improvável que cause revoluções no nosso ensino.


Nem Paulo Freire, que alfabetizou trabalhadores em cerca de 40 dias, ou mesmo Anísio Teixeira que idealizou a educação integral no Brasil, grandes pensadores, lograram o título da “nova alfabetização” ou do “novo ensino integral”(1). Ambos foram muito mais revolucionários para a educação brasileira, mas a ditadura os perseguiu e tentou silenciá-los. Já para esse projeto de ensino médio que, de novo não tem nada, há toda uma organização midiática enganosa, que envolve inclusive a compra da Nova Escola pela Fundação Lemman (2).


A verdade é que não podemos falar em novidades sem reformas estruturais no pensar a educação do Brasil. O primeiro ponto chave da educação é que ela não começa na escola, isso mesmo! A educação é uma política que deve ser iniciada nos primeiros dias de vida, ainda na maternidade, em que os cuidados médicos e os exames de possíveis necessidades especiais devem estar acessíveis de forma gratuita para toda população.


Em uma pesquisa realizada por uma equipe de especialistas na área da saúde mental, foi retratado que existe uma série procedimentos capazes de auxiliar crianças na manutenção da sua saúde mental desde o nascimento. Os especialistas afirmam que o monitoramento da criança e da família pelo sistema de saúde é essencial no desenvolvimento saudável da criança (3). Isso está longe de acontecer no nosso país, na qual boa parte das crianças com necessidades especiais não possuem diagnóstico, ou pelo menos são diagnosticadas incorretamente, iniciando sua vida escolar de forma traumática.

O estado é ineficaz neste sentido, mas o mal rendimento é sempre culpa da escola e do corpo docente.


Outro ponto chave é a questão do mercado de trabalho que também traumatiza pessoas. Há cada vez mais exigências sobre pais e mães com um salário cada vez mais defasado em relação aos custos básicos de sobrevivência. Isso resulta em famílias desconectadas, pois pais sobrecarregados de trabalho dificilmente podem gozar do direito básico da criação dos seus filhos. Hoje muitas mulheres não são incluídas em carreiras de liderança ou certas profissões, pois engravidam. Ou seja, os pais e as mães não têm o direito da paternidade e da maternidade garantidos pelo Estado, pelo menos na prática isso não acontece. Pais frustrados e superexplorados pelo sistema esbravejam sua raiva na escola contra os professores pelo rendimento baixo ou insatisfatório de seus filhos.


Afinal, não devemos culpar o sistema, devemos culpar os professores.


Na adolescência o que mais quer um jovem é sonhar, mudar e se rebelar contra a realidade dada. Jovens querem música, cultura, amor e pensar novas realidades. Mas quais novas realidades são possíveis no Brasil? Não podemos ser artistas, artistas morrem de fome. Não podemos ser professores. Professores ganham pouco. Não podemos ser cientistas, cientistas não possuem carreiras regulamentadas no Brasil. A única coisa que podemos para agradar nossas famílias é encarar as carreiras super concorridas para ganhar dinheiro. Trabalhar para ganhar o mínimo, viver para pagar as contas. Explorar e ser explorado. Apenas os mesmos sons das culturas de massa, apenas as mesmas danças que viralizam no algoritmo. Apenas o mesmo mundinho machista, fascista e homofóbico dos nossos pais. Viver no Brasil virou super desinteressante para a juventude que quer mudar o que está posto.


Mas o desinteressante não é o sistema que nos impede de sonhar, mas os professores que não sabem ser 4.0.


A educação é uma política que começa na maternidade, continua no bem estar da casa, nas ruas e nas praças, nos projetos de cidades e reverbera na escola. Hoje em muitos interiores do Brasil, a escola é apenas um oásis de esperança em um entorno totalmente caótico e dominado. É impossível cobrar resultados incríveis no Ideb, na ausência de ações afirmativas de cultura, esporte, música, teatro, instituições de pesquisa e oferta de bons empregos. Hoje o que oferecemos aos nossos jovens é álcool, drogas, uma internet sem legislação e um mercado de trabalho sufocante. Mas exigimos da escola - que abrange poucos metros quadrados de uma cidade - que se produzam grandes gênios.

Mas a culpa é dos professores que não se adequam à nova juventude.


A nós professores sobra essa difícil tarefa de carregar a responsabilidade de um Estado inconsequente com bem estar humano. Um trabalho de contenção de danos, diga-se de passagem. Uma reforma educacional no Brasil é urgente e estrutural e vai para além dos muros da escola.

Esse é um debate sobre valorização.


Hoje temos duas realidades no ensino básico brasileiro, o público e o particular. O ensino público estadual segue a lei do piso direcionada pelo MEC, o professor recebe por suas formações apenas após o estágio probatório, recebe pelo descanso remunerado e auxílio alimentação. Hoje o piso desses profissionais é um pouco mais de 4 mil reais bruto, com o desconto do imposto de renda, um professor 40h em início de carreira recebe menos de 4 mil reais mensais.


Nas prefeituras são terras ninguém, existem professores sem plano de cargo e carreira, existem aqueles que ganham bem acima do piso, existem os explorados e perseguidos, um balaio bem complicado que varia de região para região. Nas escolas particulares, o extremo do neoliberalismo. Professor recebe por hora aula trabalhada, e pelo AC- a atividade complementar que mal dá tempo para planejar uma aula. Alimentação – algumas escolas dão, outras não. Horas trabalhadas em casa – não são remuneradas. Cobranças de planejamentos diários e mensais não remunerados e uma eterna sensação de dívida e de que se pode ser demitido a qualquer momento. Em uma breve pesquisa entre amigos, descobri que existem professores recebendo cerca de 15 reais a hora aula em escolas particulares em Salvador.


O sindicato existe para os professores das públicas, os colegas das escolas particulares precisam se matar em vários empregos. Existem ainda os colegas que levam a jornada de 60 horas e mesclam concurso com escola particular para completar a renda e ir levando. Mas quando o estudante não passa no ENEM, ou não rende Ideb, o problema é dos professores que só pensam no dinheiro.


É nesse cenário que é proposto o Novo Ensino Médio – aquele super capaz de acabar com todos os problemas de educação do país. Mas deixa eu contar uma coisa para vocês: a única coisa que muda no novo ensino médio é currículo - os conteúdos vistos na escola. O novo ensino médio não garante direitos trabalhistas para professores, o novo ensino médio não exige das editoras que produzam livros em braile, ou em audiodescrição para melhorar a inclusão escolar. O novo ensino médio não institui a instalação de internet banda larga nas escolas. O novo ensino médio não torna o mercado de trabalho mais inclusivo para as diversidades brasileiras. O novo ensino médio apenas pega trechos bonitinhos de pensadores que todos nós estudamos nas disciplinas de licenciatura – para deixar o documento chique – no final reduz tudo isso a habilidades e competências que cada estudante tem que ter e adiciona os itinerários formativos.


O novo ensino médio nos enganou completamente. Os “coachs educacionais” (socorro, Jesus!) defensores da base fizeram professores acreditar que não eram bons o suficiente. O bom é ser docente 4.0, super tecnológico, capaz de lidar com a nova geração que acha as nossas aulas bem desinteressantes. No final, nos jogaram uma série de livros inúteis que misturam conteúdos rasos sem nenhuma contextualização. Nós temos que preparar o material adaptado, caçar material de base, lidar com todas as problemáticas biopsicossociais presentes numa escola, se reclamar, pode dar adeus! Como eu já ouvi de alguns palestrantes especialistas no novo ensino médio nos instruindo sobre o jeito “Disney” de educar- sorrir para as oportunidades- que às vezes pode ser dirigir uber, ou ser entregador de ifood.


O ensino médio e seus famosos itinerários formativos obrigatórios reduziu o currículo a uma base comum entre as escolas do Brasil. Muitos dizem que a base é só o pão, e cada escola deve dar o recheio. O problema é que jogar o recheio sob responsabilidade das instituições, estados e municípios é apenas um prato cheio para cravar a desigualdade educativa no Brasil- cada um faz de um jeito. Escolas de ricos estão dando os melhores recheios possíveis, à custa da exploração do trabalhador da educação. Escolas das classes médias fazem o que dá, daquele jeito. As escolas públicas são reféns da burocracia estatal, e nessa burocracia sempre tem uma empresa privada tirando a sua ponta.


Não há nada de novo nesse front do novo ensino médio, nada além de desigualdades educativas e exploração da força de trabalho e concentração de lucro nas mesmas empresas de sempre. As pessoas me dizem, e é verdade, que esse novo sistema tem base na educação da Finlândia – considerada uma das melhores do mundo. No entanto, o que não falam para a gente é que na Finlândia é proibido ter escola particular, não existe prova de avaliação nacional e as salas comportam até 30 alunos. Além disso, o novo ensino médio, apesar de copiar superficialmente elementos da Finlândia, busca integrar jovens para a lógica mercadológica, o que não acontece no sistema Finlandês que valoriza as individualidades (4).


Uma coisa é você ensinar educação financeira para um país em que pouquíssimas pessoas passam fome. Uma coisa é ensinar empreendedorismo em um país em que há investimento e segurança para os pequenos empresários. Uma coisa é ensinar iniciação científica em uma escola onde todos têm internet, laboratório e sabem ler e calcular corretamente. No Brasil, temos desigualdades extremas, pessoas que vão para a escola em busca do lanche, alunos que trabalham de dia e estudam à noite. Temos estudantes que se auto mutilam silenciados no Brasil profundo, pois a comunidade não aceita a sua sexualidade.


No Brasil, também temos aqueles que moram na praia e chegam na escola de patinete eletrônico. Que estudam em escolas bilíngues e ganham de presente um intercâmbio para o Canadá. Que podem passar um ano inteiro em casa dedicando a vida a passar no concurso. Para essas duas realidades, não podemos segregar a educação. Não podemos segregar o Brasil. Não podemos ter professores ganhando o piso - que já é baixo- e outros que recebem 15 reais de hora aula. Essa é uma máquina de uma guerra civil. Nós queremos um Brasil em paz. Paz só faz com justiça social. Justiça social se faz também com educação.


Por isso, precisamos lutar por sindicatos unificados que garantam o piso para todos os professores. Precisamos de uma base igualitária que ajuste os currículos e forme a juventude com as mesmas condições e acesso às mesmas oportunidades. Precisamos de um país amigo da cultura, do esporte, da Ciência, onde valha à pena estudar pelo prazer e pela ideologia de viver bem, não apenas para ganhar dinheiro. Precisamos de acolhimento das múltiplas diversidades presentes na nossa população – não apenas jogar isso nas costas da escola.


O Brasil precisa deixar de ouvir os mercados, os grandes empresários. Eles adoeceram nosso povo e nossa juventude. O Brasil tem que ouvir seus professores, seu povo, seus estudantes. Não queremos pessoas competentes e habilidosas para um mercado vazio. Queremos cidadãos que saibam viver e construir cidadania. O mercado destruiu nossa economia, nossa saúde mental e agora quer privatizar e sitiar nossas escolas, disfarçando-se de “novo ensino”.

Por isso, é preciso revogar o “novo” ensino médio, estabelecer um piso nacional para todos os professores e caminhar na direção de uma educação pública e gratuita para todo mundo.


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Jessika Alves é Professora da rede estadual de ensino Bióloga e Doutora em Diversidade Animal pela UFBA. Instagram: @jessikacientista




Notas


(1) LANGARO, Camila Sandrin; DOS SANTOS LANGARO, Icaro. O método de alfabetização de Paulo Freire e os Direitos Humanos. Caderno Intersaberes, v. 10, n. 30, p. 39-47, 2021.

CAVALIERE, Ana Maria. Anísio Teixeira e a educação integral. Paidéia (Ribeirão Preto), v. 20, p. 249-259, 2010.

(2) PEREIRA, Jennifer Nascimento; EVANGELISTA, Olinda. Quando o capital educa o educador: BNCC, Nova Escola e Lemann. Movimento-revista de educação, n. 10, p. 65-90, 2019.

(3) Sadler, L. S., Slade, A., Close, N., Webb, D. L., Simpson, T., Fennie, K., & Mayes, L. C. (2013). Minding the baby: Enhancing reflectiveness to improve early health and relationship outcomes in an interdisciplinary home‐visiting program. Infant mental health journal, 34(5), 391-405.

(4) COTRIM-GUIMARÃES, Iza Manuella Aires; OUVERNEY-KING, Jamylle Rebouças. Por dentro do sistema educacional finlandês: elementos para se repensar o ensino médio integrado no Brasil. Ensino médio integrado no Brasil: fundamentos, práticas e desafios. Brasília: Ed. IFB, p. 54-70, 2017.

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3 Comments

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Muito bom todo o esclarecimento sobre o que significa esse "novo ensino médio". É frustrante perceber que não há comprometimento com o básico e já querem inventar novas ideias de outros países apenas para "inglês ver". Temos tantas linhas educacionais incríveis como a de Freire. Para q recorrer a modelos de realidades tão diferentes das nossas?

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carlosobsbahia
carlosobsbahia
Mar 24, 2023

Com informações como o texto do Currículo Nacional que argumentamos contra as leis mal impostas

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Alan Rangel
Alan Rangel
Mar 22, 2023

Muito bom

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