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POR QUE EXISTE TRANS-GÊNERO, MAS NÃO TRANS-RAÇA?






Na sua mais recente campanha pelo território baiano, ACM neto fez um comentário curioso, chocante, bombástico. Em uma das suas entrevistas à TV Bahia, o candidato do União Brasil se “autodeclarou” negro (pardo). Como era de se esperar, a internet foi inundada de tweets, memes e críticas. Quem não lembra do famoso “ACM negão”, um tipo de protesto bem humorado, com direito até a música? Mas qual a origem dessa revolta, dessas piadas e de todo um mal-estar em torno de ACM? Simples... não importa a autodefinição de ACM neto, não importa como ele se enxerga, já que existe lá fora relações estruturais onde ele não participa. “Ser negro”, da mesma forma que ser “proletário”, não é um simples gesto de autoafirmação, mas um lugar ocupado em uma certa estrutura de jogo. Isso significa que ACM neto, estruturalmente falando, não é negro, independente da forma como ele se identifica ou percebe a si mesmo. Ainda que ele “se sinta negro”, ainda que isso seja verdade, e não apenas uma jogada de marketing, não interessa, porque o parâmetro não é subjetivo.


Agora imagine o seguinte cenário: Bárbara, uma mulher cis, defensora de um feminismo marxista, diz que Josefa, uma mulher trans, não é uma mulher de verdade, porque ela não ocupa estruturalmente a posição de mulher. Por exemplo, ela não é assediada em público, não recebe menores salários, não é vítima de estupro, não é vista como fraca, passiva, não atravessa por certas constrangimentos biológico-sociais (amamentação, menstruação), etc, etc. Ou seja, Josefa, estruturalmente falando, é um homem, sendo tratada como homem pelos espaços por onde circula. Observe aqui a diferença radical de critérios. O “ser trans” envolve um gesto basicamente subjetivo, de auto-identificação, enquanto o “ser negro” segue por outro caminho, mais objetivo, estrutural. Por esse motivo, expressões como “trans-negro” não fazem sentido, como alguns gostam de fazer piada, descrevendo muitas vezes um branco que “nasceu no corpo errado”. Essas piadas não conseguem compreender a diferença dos grupos identitários, como se eles fossem grandes pacotes homogêneos, o que não é o caso. O movimento negro, da mesma forma que o marxismo, ainda trabalha com critérios objetivos, estruturais, enquanto o movimento trans, por outro lado, segue por vias mais subjetivas, de uma pura auto-identificação. Uma mulher trans é mulher não porque passa por “circuitos de mulher”, em um mundo estruturalmente patriarcal, mas por conta de um gesto autoimposto, íntimo, o que chamei de subjetivo.


O propósito desse curto ensaio não é estabelecer qual das lutas progressistas é a mais importante, muito menos definir qual a mais eficaz, mas apenas deixar claro que os movimentos identitários são complexos. Em outras palavras, suas referências teóricas e práticas podem ser não apenas diferentes entre si, mas até contraditórias. As lutas, como diria Foucault, trazem frentes de batalha diversas. O termo “minoria”, portanto, é uma abstração, jamais descrevendo grupos reais, concretos. Além disso, expressões como “trans-raça”, ou até trans-espécie, não fazem sentido, já que desconsideram as particularidades das lutas progressistas, excluindo completamente suas formas singulares de atuação.


REFERÊNCIA DA IMAGEM:

https://www.youtube.com/watch?v=_BKfsKMpHZQ


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