POR QUE MARXISTAS ESTÃO ODIANDO O FILME "DON'T LOOK UP"?



“Iai, já olhou o céu hoje?”... Essa frase tão simples, quase um comentário romântico de alguma novela adocicada, recebeu um sentido especial nas últimas semanas, depois do lançamento do filme “Don’t look up”, do diretor Adam Mckay, sendo uma figura não tão conhecida, mas ainda assim marcante. Mckay foi o maestro por trás da obra “O âncora”, um dos filmes de comédia mais criativos e engraçados que já vi, se não o melhor. Desde 2004 o seu estilo é claramente original, extremo e com vários traços de um humor mais sombrio, característica essa que pode causar indigestão em alguns estômagos despreparados. Se você espera piadas clássicas, como escorregões em casca de banana, ou algum homem vestido de mulher falando alguma coisa desconexa, provavelmente não vai gostar do estilo desse diretor norte-americano. Com o filme “Não olhe para cima” (don’t look up), liberado pela Netflix em 09 de dezembro aqui no Brasil, o diretor continua na mesma trilha de um humor satírico, inteligente e criativo. Como o próprio Mckay deixou claro em muitas de suas entrevistas, o filme é uma óbvia metáfora das catástrofes naturais que atravessam a humanidade nos últimos tempos, embora também se encaixe com o cenário da COVID-19 e de tudo relacionado que ocorreu nesses dois últimos anos. Apesar de um filme divertido, inteligente e até mesmo necessário nos dias de hoje, eu discordo da interpretação mais generalizada daqueles que enxergam “don’t look up” como uma obra progressista. Na verdade, existem vários traços conservadores passeando pelo enredo, como tentei descrever logo abaixo, principalmente porque Mckay e todo seu elenco hollywoodiano, com destaque aqui a Leonardo DiCaprio e Meryl Streep, fazem parte daquilo que chamo de esquerda liberal. Seguindo interpretações marxistas, assim como análises específicas sobre o filme que encontrei ao longo da web, duas características definem esse traço conservador no enredo, apesar de sua máscara de progressismo:


1) O Problema Sugerido: A metáfora do meteoro não se encaixou muito bem com o debate proposto, ao menos quando se pensa nos detalhes e nas suas implicações. O meteoro, no filme, é apresentado como um corpo estranho que brota do nada e se aproxima do planeta Terra em uma rota inevitável de colisão. Essa “rocha alienígena”, de pura indiferença, surge de um jeito quase metafísico, de repente, não trazendo nenhuma influência direta dos humanos e de suas crenças e escolhas... ele simplesmente aparece das profundezas distantes do universo!!! Isso significa que ao invés de tratar o problema como algo estrutural, como resultado direto de nossas escolhas econômicas e de nossos estilos de vida, fundamentando até mesmo o menor dos nossos gestos, o filme simplifica muito o debate, quase sempre moralizando o problema, como é de se esperar dos membros da esquerda liberal. Problemas complexos, estruturais, se transformam em problemas de caráter e de todo um teatro ético de fundo.


O inimigo do filme não é visto como algo de ontológico, como a própria estrutura da realidade e seus níveis de convivência, mas é identificado, convenientemente, com várias figuras bizarras, quase sempre representações do partido republicano, e seus canais de informação preferidos, como a FOX NEWS. Por esse motivo, o compromisso do filme nunca foi pensar sobre os riscos de uma crise ambiental, assim como a complexidade dos seus bastidores, muito menos sugerir uma mudança drástica em nosso modelo econômico, mas sim um pretexto que apenas reforça as velhas críticas aos membros do partido republicano e seus defensores, nada mais do que uma extensão daquilo que os The Late Shows já fazem desde a campanha de Trump em 2016. O filme em muitos momentos parece apenas um episódio expandido de programas como os de Steven Colbert, James Corden, Trevor Noah ou John Oliver. Ao invés do humor como forma de reflexão, como uma mola propulsora de alternativas e novos horizontes, o riso se torna apenas um pretexto ressentido para ridicularizar opiniões, escolhas ou valores que não gostamos. Por mais divertido que seja ver os reacionários caricaturados ao extremo (e é muito divertido, tenho que admitir!!!), quando pensamos de forma mais científica, por outro lado, esse riso acaba sendo estéril, vazio e desnecessariamente agressivo.


Seria mais ou menos como produzir um filme sobre racismo e esquecer de seus aspectos estruturais, apenas se concentrando nos comportamentos dispersos e particulares de certas figuras bizarras. Embora existam também negacionistas raciais, ou seja, aqueles que negam a existência das desigualdades de raça, além de figuras bizarras e perigosas, ainda assim eles não podem ser vistos como a origem do problema, mas apenas como agravadores de algo muito mais profundo, envolvendo todos nós. Da mesma forma que o racismo, o tema ambiental não pode ser visto como um simples problema de caráter, mas algo que estrutura nossa vida cotidiana, nossas escolhas, assim como a própria matriz de nossa identidade. Não apenas vivemos em um mundo de completa exploração, indignados com a bizarrice do OUTRO, mas extraímos dessa mesma exploração todas as comodidades e conveniências que compõem nosso dia a dia. “Já tomou sua coquinha gelada hoje?”


2) A Solução Proposta: Na tentativa de resolver o problema, ou seja, o meteoro, a solução sugerida pelo filme também é simplificada e conservadora, já que se apresenta como uma saída rápida, simples e indolor (o lançamento de um foguete para interceptar o meteoro). Como é possível perceber, a realidade não é alterada, muito menos o modelo econômico nos bastidores. A solução se torna apenas um exercício pontual e bem intencionado de figuras que “querem olhar para cima” (“just look up”, como a própria Ariana Grande repete várias vezes nos instantes finais do filme, em sua excelente performance musical). Da mesma forma que o “problema”, a “solução” também é moralizada, simplificando sua complexidade, assim como retirando do horizonte debates estruturais mais profundos. Em outras palavras, a mudança é mais dolorosa, complexa e prolongada do que mostra o filme. Não envolve apenas um simples gesto esclarecido de figuras super legais, mas uma “prática” que pode até mesmo comprometer os limites da nossa própria identidade. Estamos realmente dispostos a uma mudança ontológica, uma transformação que pode chacoalhar as mais sólidas de nossas conveniências? Essa é uma pergunta que o filme não responde em nenhum instante, já que se deixa levar por um espírito satírico exagerado, um ressentimento fora de controle, perdendo de vista até mesmo os valores e a própria mensagem que inicialmente defendia.


O filme “não olhe para cima” (don’t look up), ao menos esteticamente falando, é uma ótima comédia satírica, como é esperado de diretores como Adam Mckay. Embora muito longo, e com cenas desnecessárias que poderiam ser removidas facilmente sem comprometer o fluxo da narrativa, o filme entrega o que prometeu, fazendo dele um dos trabalhos mais interessantes de Mckay. Apesar de trazer consigo as digitais de um diretor intenso, engraçado e muitas vezes até selvagem, o filme, ao menos do ponto de vista político, não pode ser considerado como simplesmente progressista, já que o esquerdismo adotado é representativo de um modelo norte-americano muito específico, chamado aqui de liberal. As pautas desse tipo de esquerda são muito interessantes, mas a longo prazo retiram do cenário debates estruturais complexos, moralizando o debate de forma conveniente.


Referências:

https://pubimg.band.uol.com.br/files/0559d1a7672197931eed.png


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