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QUANDO A MORTE É ENGRAÇADA? A CIÊNCIA DOS CORPOS MATÁVEIS, MORRÍVEIS E RISÍVEIS




Depois de quase quinze dias, ainda comentamos sobre o caso do submergível que transportava bilionários em uma excursão aos destroços do Titanic. Se você não é um bilionário, ou não conhece um de perto, percebeu também a quantidade de memes e piadas em torno do acontecido. Mas é óbvio que podemos rir dessa tragédia, certo? Afinal, são só bilionários. Parece que o riso aqui é muito bem justificado, quase óbvio. Mas será mesmo? Venha comigo explorar um pouco os contornos dessa tanatologia, dessa ciência da morte. Por que alguns corpos merecem morrer, enquanto outros não? Por que alguns pedaços de carbono ganham a insígnia de vida e outros de morte? Seria algum problema de caráter, algum tipo de falta de conhecimento? Infelizmente, não é tão simples assim. Antes de qualquer análise mais profunda, vamos “mergulhar” em alguns exemplos:


a) Roberto foi agredido com chutes e socos por um grupo de ladrões em Salvador e teve seu celular roubado. Em uma entrevista no programa Jornal da Manhã, ele responde: “bandido bom é bandido morto. Eu quero que essas dis$#@% vão tudo pra o inferno”

b) Paulo gosta muito de churrasco e não entende como alguém consegue ser vegano. Em uma entrevista, ele responde: “Eu não tenho problema nenhum que vacas e frangos morram. Carne é algo saboroso e importante na dieta de qualquer um”

c) Tereza é de uma classe social baixa e assistiu o caso do acidente com o submergível, que levava os bilionários. Em uma entrevista, ela responde: “bilionário precisa mesmo morrer. Tudo idiota, cruel e sanguessuga”

d) Antônio de esquerda (de direita) assistiu em sua televisão um caso de um bolsonarista (lulista) que morreu depois de um acidente. Quando perguntado sobre o acontecido, Antônio respondeu: “menos uma praga no mundo”.


A tanatologia é a ciência da morte, já que esse fenômeno no universo humano não é apenas um dado orgânico inevitável, como acontece com um sagui, mas também um conjunto de rituais e valores. A morte, da mesma forma que a vida, é um processo cultural, um fluxo de signos que passeia por esse fenômeno aparentemente biológico. O corpo morrível ou matável vai além de simples pedaços de carbono em decomposição, entrando em um reino muito específico da nossa espécie, uma esfera que precisa ser analisada com cuidado, talvez por um cientista social curioso com as humanices dos humanos.


Não sei você leitor, mas o que realmente me surpreendeu no caso do submergível, não foi a tragédia em si, ou as análises em artigos e ensaios dispersas na internet, mas a quantidade de memes e piadas feitas em torno da morte daquelas pessoas. É curioso, e até mesmo natural, o quanto nossa ética é seletiva. Ela nunca se estende ao infinito, mas a um conjunto limitado de corpos próximos, aqueles que mais compartilham do nosso suor, sangue e toque. Por exemplo, eu como carne, mas não comeria um cão ou gato. Por que? Simples... porque esses dois corpos são mais próximos a mim, atravessam o meu campo de experiência, estruturam o meu mundo subjetivo. Na medida em que corpos se distanciam desse espaço fenomenológico (experiencial), mais se tornam “matérias descartáveis” ou até “risíveis”. Por isso a necropolítica de Mbembe, filósofo camaronês discípulo de Foucault, faz todo o sentido e é de extrema relevância. Muitos interpretam que o problema da necropolítica é o racismo, mas, na verdade, ele é apenas um efeito e não uma causa explicativa. O centro da necropolítica é o que chamei de “seletividade ética”, uma prática que estabelece hierarquias de corpos por conta de um certo tipo de proximidade fenomenológica. Como corpos pretos são mais distantes do universo da branquitude, como participam de circuitos muitas vezes opostos, logo a conexão ética se torna frágil, fazendo daquele corpo um pedaço de matéria matável, morrível ou risível. Seguindo a mesma lógica de funcionamento, eu não tenho remorso nenhum em matar um porco, um boi ou um frango, mas choro diante de um cachorrinho que teve sua pata quebrada. O mesmo se aplica a indivíduos do outro espectro político. Se eu for de esquerda, um bolsonarista é alguém distante da minha realidade, dos meus circuitos de troca simbólicos, como diria Bourdieu, por isso é um corpo matável, morrível ou risível. Por outro lado, se eu for um evangélico reacionário, um militante lulista pode ser alguém descartável aos meus olhos.


Você já deve ter percebido que esse não é um texto crítico aos memes feitos aos bilionários, ou ao riso seletivo, ou "gelado", como diria Nietzsche em seu "Assim Falou o Zaratustra", mas um ensaio que reconhece o caráter inevitável dessa seletividade. Não é apenas a esquerda, a direita ou o centro... são todos os indivíduos que criam hierarquias éticas, tudo isso de forma bem sutil em suas cabeças. No topo, estão aqueles (humanos e não humanos) que devem ser preservados de agressões e até da morte, mas na base temos corpos (humanos ou não-humanos) matáveis, morríveis ou risíveis, aqueles distantes de mim e dos meus circuitos de conversas e de outras interações. Existiria alguma fuga dessa seletividade? Eu acho que não, mas e você leitor? O que acha?


REREFÊNCIA DA IMAGEM:


https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2023/06/22/interna_internacional,1510805/submarino-desaparecido-intrigada-web-compartilha-memes.shtml





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