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QUANDO A VIDA NÃO IMITA A ARTE – barbárie no Festival de Verão de Salvador


A gente cansa de ver histórias de pessoas negras sendo agredidas por forças de segurança ou passando constrangimentos em shoppings, hotéis, aeroportos e espaços majoritariamente ocupados por brancos. No Festival de Verão de Salvador, a brutalidade do racismo estrutural se repetiu e mostrou o abismo que a sociedade se encontra entre valorizar a cultura negra e de fato promover a garantia de direitos.


Minutos após Ilê Aye e Margareth Menezes, convidadas por Daniela Mercury, expressarem no palco toda a luta e riqueza cultural da negritude, o publicitário Roberto Junior é brutalmente espancado por 6 seguranças da Prestserv, no camarote da Smirnoff Ice. Os seguranças acusaram o jovem de estar furtando celulares e o agrediram sem nenhuma prova da acusação, com várias testemunhas no local. O jovem poderia estar morto se outras pessoas não intervissem.


Casos como esse não são novidade, mas o que mais me chocou foi estar presente no Festival de Verão e ver essa brutalidade acontecer em um evento centrado na valorização da cultura negra. Enquanto assista Margareth Menezes com Ilê Aye, fiquei maravilhado em testemunhar a culminância de toda uma luta ali na minha frente, celebrada no palco junto a dezenas de milhares de pessoas que pagaram para ver esses artistas. No projeto colonialista português, não era para nada disso estar acontecendo. Em um país que aboliu a escravidão há menos de 150 anos sem nenhuma contrapartida, sem indenização, sem reforma agrária, sem nada, ver a negritude celebrada em um dos festivais mais importantes do país foi uma experiência incrível. Mas a realidade logo se apresenta demonstrando o longo caminho que ainda precisamos percorrer pela igualdade racial.


A impressão que dá é que todo esse movimento de valorização cultural da negritude promovido pelo Estado e pelas iniciativas privadas não passam de oportunidade de negócios. Depois de séculos de luta, negros estão fazendo dinheiro e dando dinheiro, mas quando o bicho pega, o que a gente vê são as famosas notas de repúdio e aquela cobertura meia boca de sempre da grande mídia. Quando é para lucrar: a arte negra no palco. Quando é para combater um flagrante explícito de racismo: estamos apurando o caso.


Muita gente questiona, como o teórico e militante comunista Jones Manoel em seu vídeo O falso debate brasileiro sobre identitarismo, o tanto que a luta anti-racista dentro dessa perspectiva liberal é capaz de transformar a realidade do povo negro. Representatividade nas artes, na mídia, no congresso e demais espaços de poder são muito importantes, mas isso por si só não significa o enfrentamento ao racismo. A representativa acrítica, no máximo, mostra que um não branco também pode ascender socialmente, mas isso é paradigma liberal na veia: a vitória do indivíduo que “chega lá”. Mas para a imensa maioria quem não chega, o tratamento desumano de sempre.


E o tempo todo a sociedade vem mostrando que essa lógica liberal de melhorar as condições de vida individualmente não representa garantia nenhuma para o povo preto. Roberto Junior foi agredido em um CAMAROTE, com várias pessoas testemunhando, na capital afro, em uma noite que teve Ilê Aye, Mano Brown, Margareth Menezes, Seu Jorge… Se em espaços pagos no contexto de celebração da cultura negra o negro não está protegido do racismo estrutural, estará onde?


O que há de positivo nessa história, como sempre, é a mobilização das pessoas em torno do caso. O absurdo está repercutindo e muita gente está se prontificando para exigir justiça a Roberto. Que venha uma apuração rigorosa, punições aos envolvidos, indenização digna e a revisão de toda a lógica operacional das forças de segurança em grandes eventos, que nunca deixaram de ver o preto como um inimigo.


A história continua o seu curso, e se as manifestações culturais da negritude saíram da ilegalidade para o mainstream ao longo de um século, a luta permanece para que a igualdade racial transcenda os palcos e penetre a vida em todos os espaços.



Foto de capa: registro fotográfico da vítima após a agressão, publicado nas redes sociais, Instragram e X (ex-twitter); @robertojuniorba.


2 Comments

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O que acontece muito por aqui é a polícia atender a demanda dos brancos! Há vários casos aqui. Privilegiados sempre foram oficiais da PM,é só apontar o dedo pra um desavisado que eles descem a lenha!!

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foda, Carlos, não foi por isso acaso a agressão ter acontecido bem em um camarote.

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