QUATRO MOTIVOS MUITO RUINS PARA SE DEFENDER A CIÊNCIA




“Fatos não existem”, “tudo é uma construção social”, “ciência é ideologia”, “a história é escrita pelos vencedores”, “verdade é poder”, “tudo é uma luta política” ... essas foram frases de muito sucesso no passado, principalmente como reflexo de Maio de 68 e suas lutas identitárias, mas hoje elas despertam em nós um certo tipo de alerta, uma sensação de que algo foi longe demais. A defesa do campo científico aparece como um tipo de resposta a esse vácuo criado nessas últimas décadas, desse problema produzido por nossa democracia liberal. Em um mundo esvaziado de critérios sólidos e coletivos, navegando apenas ao sabor de indivíduos soltos em contratos provisórios, a defesa da ciência como instituição é necessária, talvez até mesmo inescapável.


Como já deve ter ficado claro aos meus leitores, ao menos quando se olha de perto a linha de raciocínio de muitos dos meus ensaios, não basta apenas a defesa de um tema ou argumento, muito menos uma pauta política qualquer, mas também as motivações de fundo que justificam essa mesma defesa. De um jeito bem kantiano, isso significa que é possível fazer a coisa certa pelo motivo errado. Em outras palavras, podemos encontrar pelo caminho uma incompatibilidade entre o objeto defendido e suas possíveis justificativas de fundo. Quando mergulhamos de cabeça nas águas científicas, em seu verdadeiro oceano de experiências, algo parecido acontece. Embora precise ser defendida, isso não significa uma abertura a qualquer justificativa disponível, já que muitas delas são vagas, dispersas e até conservadoras. Sem um fundamento adequado, claro, consistente, a defesa da ciência apenas intensifica o clima individualista e caótico que atravessa as democracias liberais.


Sem dúvida, muitos por aí defendem a ciência nos quatro cantos da internet, principalmente em tempos de negacionismo e crises dos mais variados tipos, mas eu tenho minhas suspeitas de que boa parte dos seus defensores não compreendem muito bem as premissas em jogo. Existem quatro formas muito problemáticas de defender a ciência, justificativas não apenas superficiais, mas até mesmo perigosas.

1) O motivo político: “C-i-ê-n-c-i-a” virou apenas um significante que incomoda, um tipo de arma retórica contra aqueles desprezados por nós. Por esse motivo, a defesa do campo científico se apresenta como apenas um gesto ressentido, de pura reação a algo desagradável, nesse caso, os bolsonaristas no Brasil ou os trumpistas nos Estados Unidos. Não existe aqui um acolhimento do espaço científico enquanto tal, mas apenas uma instrumentalização provisória, nada mais do que um uso bélico.


2) O motivo simbólico: Como já deve ter ficado claro, não apenas produtos tem preços em prateleiras, mas até palavras carregam esse tipo de contorno, ao menos quando consideramos o mercado de bens simbólicos, como diria Bourdieu. A defesa da ciência, nesse cenário, é apenas uma reprodução de certas expectativas políticas, um acolhimento das regras internas que atravessam o mercado de esquerda. Isso significa que quanto mais acumulo certos termos, conceitos ou ideias, mais reconhecimento tenho como resultado, mais me sinto acolhido por um grupo qualquer. A ciência, portanto, se torna apenas um significante que desperta reações de aprovação, um elo que me conecta a outros de forma conveniente e eficaz.


3) O motivo iluminista: Seus defensores são os mais curiosos, talvez por conta do retorno histórico que fazem, chegando até mesmo a defender um iluminismo bem superficial, quase vulgar. Eles apostam na ciência como a emissária da verdade, de uma simples arma contra a barbárie de pessoas irracionais e bizarras. A ciência aqui é apresentada como uma vitrine de fatos estáveis no mundo, nada mais do que um gesto descritivo e resignado. Na tentativa de evitar o relativismo da esfera pública, seguimos até o polo oposto, em um resgate clássico e ingênuo do modelo científico.


4) O motivo pragmático: A ciência aqui é válida porque oferece ferramentas no combate de problemas práticos. Ou seja, o campo científico deve ser defendido porque costura dilemas concretos, de maneira geral reforçando as expectativas do senso comum. Se isso for verdade, como ficam posturas como o darwinismo, o copernicanismo, a hermenêutica da suspeita nas humanas, e muitas outras abordagens científicas que são inconvenientes, ácidas e quase impossíveis de satisfazer a sede pragmática da vida cotidiana?


Nenhum desses motivos reflete o real perfil do campo científico, muito menos sua importância no cenário contemporâneo. Como consequência disso, surge uma pergunta meio óbvia: se as justificativas disponíveis nesse ensaio são insuficientes, ou até problemáticas, o que, de fato, deve ser defendido? Defender a ciência significa o reconhecimento de toda uma rede de relações que atravessa o campo científico, todo um fluxo concreto de experiências, como análise de pareceristas, revisões, bancas e todo um circuito complexo e lento de encontros. A ciência é um processo longo, denso e até mesmo frustrante, um espaço onde meu narciso é colocado contra parede, indo até o limite do tolerável. O espaço científico, como diria Latour, é o berço da objetividade, ou seja, de um mundo que objeta, que resiste, ao mesmo tempo que demanda de nós um gesto negociante, até mesmo artístico. Em outras palavras, a ciência deve ser defendida não porque incomoda bolsonaristas, ou me traz reconhecimento, ou se apresenta como algo conveniente, muito menos porque é a emissária de uma verdade fixa e inabalável, mas sim por causa de sua rede complexa e longa de encontros, testes, críticas, revisões e debates. Fazer ciência, diria Stengers, é um trabalho lento, coletivo, arriscado, mas extremamente necessário em um mundo de fast foods, de um pragmatismo perigo e de uma imprudência preocupante.



Referências:

https://assets.change.org/photos/8/pn/cx/tppNCXcRmWbEYlx-800x450-noPad.jpg?1534370866



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