Raio X do resultado à prefeitura de Salvador


Bruno Reis foi eleito prefeito da capital baiana com 779,408 (64,20%) de votos válidos. Resultado esperado diante das pesquisas prévias. Margem expressiva que lhe deu o maior percentual de votos nas capitais. Sua vitória não foi novidade. Seu padrinho é forte.


O candidato eleito, aposta do atual prefeito ACM Neto, teve apoio da máquina governista. E isso pesa bastante. Inegável também que o prefeito e líder do DEM fez uma boa gestão durante o longo período de mandato. Este ano conduziu com muita cautela, inteligência e expertise o pandemônio da covid 19. Foi o maior desafio de sua carreira. Optou pelo isolamento e a gradual abertura. Desagradou muita gente, sim. Mas bateu de frente. Durante o período, houve manifestações de pessoas que se sentiram muito prejudicadas. Mas Neto estava todos dias falando com o cidadão nas redes sociais e com a imprensa, explicitando a necessidade de impedir o alastramento da contaminação e, consequentemente, a diminuição de óbitos. Também, em várias oportunidades, atacou a desastrosa condução e comportamento de Bolsonaro e sua trupe frente ao desleixo e insensibilidade no combate à pandemia. Mostrou ser uma liderança que baseia suas ações no contexto, não em fraseologias livrescas ou em arroubos autoritários. É um político moderno. Um grande articulador. Uma direita moderada.


O DEM teve apoio do PDT, partido identificado mais à centro-esquerda. Um alinhamento pragmático. A vice de Bruno Reis foi Ana Paula Matos, que comandava a secretaria municipal de Promoção Social e Combate à Pobreza (Sempre). Bruno foi deputado por duas vezes. Tem percurso na política. Já foi secretário. Foi convidado para ser vice-prefeito de Salvador em 2016. Ambos são amigos de longa data, desde a graduação em Direito. Também são professores.


Bruno não é uma liderança. Mas tem conhecimento sobre Salvador e entende de política. Devido ao capital político e social de Neto terá a chance de comandar uma das principais cidades do Brasil.


Major Denice, a candidata do PT, foi aposta arriscada do governador Rui Costa. A postulante não tem trajetória política. Sempre foi policial. Ocupava um posto importante na Polícia Militar: liderou a Ronda Maria da Penha, um programa de combate à violência doméstica. Sem dúvida venceu muitas barreiras dentro da polícia, por ser mulher e negra.

Escolher Denice pareceu uma estratégia interesse para aproximar o PT da pauta da segurança pública, bandeira sempre aliada mais à direita. O objetivo era acercar o partido de um eleitorado mais conservador, de um cidadão médio preocupado com questões cotidianas, e, sem dúvida, a violência urbana é umas delas. Eis a manobra de escolher a militar, que também vem de origem humilde. Para muitos foi um desvio ou traição ideológica. Poderia ter escolhido a socióloga Vilma Reis, ativista de direitos humanos de longa data, ou mesmo o ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, também sociólogo, e com trajetória política em secretárias de cultura em São Paulo e Belo Horizonte. Mas Rui optou pelo pragmatismo, à revelia de seus correligionários.


A petista alcançou 18,86% dos votos. Mostrou-se uma candidata moderada, respeitosa e com linguagem popular. Mas, particularmente, não sou favorável a militares na política. Não importa o aspecto ideológico. Lugar de militar é em outro lugar. Tenho problemas com outsiders.


Acredito que a renovação da política deve se dar dentro da própria política, com histórico de indivíduos dedicados e treinados. E, no Brasil, há uma onda de “estrangeiros políticos”: artista, empresário, jogador, pastor, militar, jornalista sem nenhuma trajetória. Isso enfraquece, sim, a democracia representativa. Sem quadros mais profissionais, com baixo conhecimento dos meandros do jogo político, o risco de eleger incompetentes aumenta demais. Não é uma regra, mas ainda prefiro o velho caminho tradicional mais sólido, de renovação via partidos ou movimentos sociais.


Pastor Sargento Isidorio obteve 5,33% dos votos. Sua estratégia de colocar a Bíblia debaixo do braço e fazer diminuir o preço do gás fracassou. Sua vice, Eleuza Coronel (PSD), também é mais uma tentativa de apelo a um tipo de ética militar contra a velha política. Combinação de dogmas religiosos e segurança.


As pesquisas sempre o colocavam beirando aos 5%. A sua campanha comoveu alguns religiosos, mas não impressionou a maioria da população. O candidato é deputado federal, tendo sido reeleito em 2018. Já trocou inúmeras vezes de partido. Nunca teve uma identificação partidária séria. Foi do PT, PSC, PDT. Está no Avante desde 2018. Tem projetos sociais que assegura a recuperação de dependentes químicos em condições de vulnerabilidade. Trabalho importante, sem dúvida.


Salvador é uma cidade plural e heterogênea. Se fosse candidato a vereador, certamente ganharia. Apesar de seu filho, Tancredo Isidorio, ter sido derrotado. Mas Isidorio pai já é deputado federal. Não iria se rebaixar. Penso que política não se governa com Deus ou na pregação de algum tipo moral universal. Isso é contrário à diversidade, tema tão caro aos valores do liberalismo democrático. Quem deseja ser uma liderança forte e longínqua, com senso de realidade e responsabilidade, capaz de influenciar os rumos de uma cidade ou um país, não pode se preocupar em buscar ou impor a salvação da alma. E não pode apegar-se à inflexibilidade para governar. O fim da política deve ser a política.


Olívia Santana, candidata do PC do B, alcançou apenas 4% dos votos. Ela tem trajetória na política. Já foi vereadora várias vezes; ocupou cargos de secretárias. É do ramo. Atualmente é deputada estadual. É a única mulher negra na assembleia baiana, historicamente máscula e branca. Um feito e tanto. Sua bandeira é principalmente sobre negritude e feminismo.


Mas por que Olivia não avançou? São muitas variáveis. Certamente não ter uma máquina partidária favorável é uma delas. Mas eu queria tocar na questão da pauta do empoderamento negro, no qual ela atuou fortemente. Por que uma população de maioria negra não escolheu uma candidata negra que apelou nessa direção?


Bem, para alcançar um cargo no executivo, Olivia teria que ser mais pragmática, e apontar sua voz para diversas outras frentes, que inclui economia, religião, segurança púbica. Questões mais gerais. Salvador não é uma cidade com uma população identificada como uma comunidade negra, com uma identidade forte contra o que se chama de “colonização do branco”. Não! O olhar não é por aí. Pessoas negras por aqui são muito diversas; não há uma identidade homogênea. E isso faz muita diferença quando você imprime um tipo de pauta política.


O mesmo acontece com a questão do feminismo. Muitas mulheres não têm esse esclarecimento e práxis de luta feminina contra a histórica dominação masculina, e a preponderância deles nos cargos políticos e em outras áreas. A escala de valores, de prioridade de negros e mulheres, é bastante complexa. E estar atento a isso é fundamental. É necessário ver melhores estratégias de campanha visando um próximo pleito, quem sabe como candidata à governadora. Menos ideologia e mais realismo político. Uma visão menos estreita da realidade poderá ajudá-la a ter voos maiores.


No âmbito nacional, o voto do eleitor foi uma resposta contra políticos aventureiros e/ou extremista que assolaram o país nos últimos anos. O eleitor preferiu apostar na previsibilidade e solidez da política costumeira, mais moderada. Partidos de direita e centro-direita sairam mais vitoriosos. A esquerda e centro-esquerda derrotadas. É bom ter essa leitura para 2022, ao menos nas grandes capitais.



Link da imagem: https://aloalobahia.com/notas/bruno-reis-e-eleito-prefeito-de-salvador


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