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RELAÇÃO É TROCA, NÃO DOAÇÃO



Uma das coisas que aprendi após viver relacionamentos abusivos foi que a dinâmica mais saudável para qualquer relação é ser sustentada pela troca, e não pela doação.


Eu sempre me doei muito. Eu sempre recebi pouco.


Achava que isso fazia parte da minha personalidade. Colocava a culpa no signo, na cultura, na minha criação. Justificava de toda forma meu "jeito de ser" e até o encarava como "meu maior defeito". Via essa minha propensão de sempre fazer mais como parte da minha enorme carência emocional. Essa conclusão foi construída especialmente pelas vozes dos meus namorados ressoando na minha cabeça. Toda vez que lhes cobrei mais reciprocidade, ouvia que pedia demais, o que me fazia pensar que eu precisava refrear esse meu jeito. Deveria me importar menos, presentear menos, me declarar menos, me empolgar menos.


E quem ditaria o que seria “de menos”? Claro, os meus parceiros. A proporção certa sobre demonstrar carinho e afeição, sem parecer desesperada, deveria ser proporcional a linha-limite deles de fazer o mesmo. Vamos a uma historinha de um ex. Aniversário de um ano de namoro. Recebemos de presente da tia dele a estadia no quarto da pousada que ela trabalhava, em uma ilha maravilhosa. Quando a noite chegou, estávamos aconchegados na cama e resolvi dar meu presente. Um CD com músicas variadas do Chico Buarque que baixei na internet. A capa do CD eu mesma fiz, com colagem e tinta. Acompanhado o presente, uma carta simples e afetuosa sobre a celebração. Vi os olhos dele brilharem com aquele singelo mimo. Não consegui conter minha alegria em vê-lo feliz. De repente, sua expressão muda e ele sussurra: “Eu não tenho presente”. Não esperava por isso, mas também não queria cobrar algo que deveria ser dado de coração. Aquele CD já estava pronto há um mês, quando começamos a planejar sobre o primeiro aniversário de namoro. Ele disse que nem lembrou de comprar ou fazer algo, achou que o presente da tia era suficiente. “Precisava de mais?”, disse, buscando minha confirmação.


De início, fingi não me importar (como sempre fazia) e isso o deixou super tranquilo. Ele mudou rapidamente de assunto e deixou o CD na gaveta ao lado da cama. Era questão de tempo até eu ter uma crise de choro e ele, assustado, questionar porque uma coisa tão pequena me deixava tão mal. Pediu mil desculpas, disse que faria melhor em outro momento, que não levava jeito para essas coisas, que eu era a primeira namorada e que estava aprendendo a levar a sério essas datas. Esse foi um ciclo que se repetiu por diversas vezes e, ainda que fosse sinalizado que a pessoa não mudaria, eu me auto-enganava, usando desculpas, para meu lado e para o dele: eu, a “apegada demais”, ele, o “tranquilão e atrapalhado”. Meus olhos só abrem após a separação, quando me dei conta de que eu era o único aspecto na sua vida onde ele não se dedicava. Ele era um ótimo aluno na faculdade, um responsável funcionário no trabalho, um amigo fiel e um filho que queria dar o melhor à sua família. Lembro que ele sempre dizia: “O tempo que a gente passa junto já é suficiente para mim”. Será mesmo?


Acho que aí é que se depositam as nossas perguntas sobre se a troca precisa entrar na proporção nossa, ou na deles. Eu escolhia a proporção dos tais e sempre me sentia insatisfeita. Achava pouco, desmedido, incompatível ao que parecia ser uma relação que nutria afeição e amor. Mas, não encontrava coragem para encarar isso e me desligar dessa pessoa. Mesmo quando isso acontecia, descobria que o próximo também estava no mesmo patamar. Veja o que meu último namorado fez no nosso primeiro ano de namoro: era uma relação à distância e, mesmo sem grana, fizemos esforços para passarmos o dia juntos na minha cidade. No meio da estadia, ele foi chamado, como músico, para participar (de graça) de um evento especial. Empolgado, ele aceitou. Eu? Desmoronei… Ele não comprou presentes para celebrar, alegando que teve gastos na viagem. A boba aqui passou meses reunindo os emails que trocamos nesse tempo de distância e os imprimiu, criando um livro dessas mensagens.


Mais uma situação que parecia dizer que eu era “a emocionada” e precisava baixar a bola na hora de celebrar dias especiais, ou sequer viver eles. Foi estudando as questões de gênero que entendi porque minha forma de demonstrar afeição era pouco considerada. A causa estava na dinâmica estabelecida pela constituição social do homem e da mulher. Para eles, cabe receber. Para elas, cabe doar. Valeska Zanello, em seus estudos sobre gênero, aponta que o modelo de amor que conhecemos é fruto do amor burguês e romântico, cuja a moral defende


“a monogamia e a dedicação intensa para elas; enquanto para eles, permite a poligamia e o baixo investimento” (p. 82)

Como um jogo, um lado se dispõe e o outro se contrapõe levando a


“estratégias que foram passadas de mães para filhas, sobretudo para lidar com a sobrevivência e a falta de compromisso emocional masculina” (p.83)

Essa é uma boa deixa para eu contar a vocês a história de “amor” de mainha e painho. Ela conta que o conheceu no bairro, que ele era mais velho e parecia uma boa pessoa. Como uma figura boêmia, sempre andava pelas ruas perigosas da cidade e, em uma dessas, ele foi preso, acusado de matar uma prostituta. Mainha disse que ele era inocente e quando viu no jornal a notícia da sua prisão disse para si mesma: “Eu vou libertar ele”. Com as poucas condições que tinha, ela arranjou um advogado que a ajudou a defender painho. Ele saiu de lá muito sensibilizado pelo gesto de mainha e dali nasceu o namoro que levou a gravidez do meu irmão. Por diversas vezes, a questionei o porquê tamanha dedicação a um conhecido. Ela disse que não sabia porque fez aquilo, que apenas sentiu que era o certo a ser feito. Esse homem, a quem ela se sacrificou, já era pai de três filhos e com ela fez mais três e, repetindo o padrão, abandonou-a com as crianças pequenas, sem qualquer apoio financeiro.


Acho que aí enxergamos o histórico que me acompanha e com certeza, muitas outras mulheres no mundo. Enormes sacrifícios a homens. Pouca consideração da parte deles. Relação de doação e não de troca. Nessa dinâmica, alguém precisa tirar o que tem para dar, enquanto o outro espera receber. É claro que, aquele que perde, uma hora ou outra, pode se cansar ou não ter mais o que oferecer com tamanha entrega. Aí aparecem as compensações, aquelas que nutrem o desnutrido de afeição. Para as mulheres, esse posto de reposição normalmente é a maternidade, lugar onde lhe é autorizado receber afeição e reconhecimento. Ela pode não ter força emocional, prazer na vida, ímpeto de alegria, mas tem o título de "mãe", a coroa da vida social feminina. Ela cumpriu o papel para qual foi feita. Seu útero deixou o fruto esperado.

Diante de tudo isso, é necessário um árduo trabalho de ressignificação sobre amor, culpa e prazer até que uma mulher entenda a importância dela encontrar reciprocidade digna e com paridade na relação conjugal, especialmente com um homem. Mais ainda, precisa de uma reconstrução sobre a centralidade das relações amorosas na sua vida. Quanto mais uma sujeita se coloca no centro da sua existência, mais ela será vista como “egoísta”, “seca”, "degradável" e essa resposta de repulsa afeta sua autoestima e necessidade por pertencimento, puxando de novo para novas relações desiguais, onde ela sempre sairá mais faminta do que entrou. Mas, esse tipo de relação não é a única opção disponível. É o que mais tem? Sim. Ainda assim, o sabor da vida é diferente quando a gente dá espaço para o valor próprio e a construção de relações onde a troca é o que dita a rotina de afeição - e não a doação, o sacrifício e a dor constantes.


FONTE:


ZANELLO, Valeska. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Editora Appris, 2020.




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