Se você tem fantasmas...



Formada em 2008, a banda sueca Ghost divide opiniões, se destacando pela sonoridade vintage e pelo visual polêmico. E bota polêmico nisso. A banda é bastante teatral e se apresenta como uma espécie de clero satânico. Isso pode te fazer nem cogitar escutar a obra do grupo. No entanto, tem muito mais por trás da imagem macabra. Nesse texto, irei comentar sobre o Ghost e, como bônus, irei falar como eles me ajudam a lidar com o meu Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Até pouco tempo atrás, a verdadeira identidade dos membros do Ghost era um mistério. Só sabíamos que a banda foi liderada pelo Papa Emeritus I, Papa Emeritus II, Papa Emeritus III e Cardinal Copia, que, mais tarde, foi promovido a Papa Emeritus IV. Acontece que, a pessoa por trás de todos eles, é a mesma: Tobias Forge, músico sueco com passagem por algumas bandas de menor expressão. Aliado aos papas macabros, temos os Nameless Ghouls como músicos de apoio, que são músicos contratados, passando, inclusive, por algumas trocas de intérpretes. No entanto, sempre permanecem com o mesmo nome de acordo com o instrumento que toca. Primeiro, vamos falar além da parte musical. A genialidade começa com o fato de Forge ter criado uma história fictícia para a banda, que é um espetáculo à parte. Você começa a ver os vídeos lançados e acompanhar os membros como se acompanhasse uma série de televisão. E é aí que a verdadeira mensagem do Ghost se torna mais evidente. O que parece ser um conto macabro, na verdade, é carregado de bastante humor, que vai de sátiras até situações cômicas dos pseudo bastidores da banda.


A comédia segue até os palcos, onde os integrantes se mostram bem leves e brincalhões consigo mesmos. Fora dos personagens, o Tobias Forge mostra alguém bem diferente do Papa Emeritus. Um jovem pai de família brincalhão com as câmeras e apaixonado por sua obra, que veio aos 45 minutos do segundo tempo, já que ele havia, praticamente, deixado de lado o sonho da fama.

Falando sobre a parte musical, o Ghost é, de fato, um show. Inspirados em bandas dos anos 60 e 70, a sonoridade lembra a de um álbum feito pelos melhores amigos do Black Sabbath. Com muita classe, as melodias misturam o som que seus pais e avós curtiam com o que você ouve de mais atual do rock, com o heavy metal se encontrando com o rock alternativo na medida certa.


As letras, no entanto, possuem um tema mais polêmico. Praticamente todas elas passam o que parece ser um culto ao satanismo. No entanto, Tobias Forge lembra que as músicas não são tão rasas assim. Fala mais sobre a humanidade em si. E, de fato, se você tira um tempo para interpretar as músicas, acaba com temas e ideias muito interessantes para discutir que passam longe da religião. Agora chegou a parte do bônus. Como você pôde perceber, sou um fã da banda. Mas nem sempre foi assim. Sou de uma família bastante religiosa. Cresci ouvindo sobre castigos divinos. Logo, esse tema ganhou um espaço no meu Transtorno Obsessivo Compulsivo. Na verdade, se tornou um dos motivos mais fortes para minhas crises do T.O.C.


Praticamente, sempre que via a banda, sentia os pensamentos ficando mais pesados. Meu terapeuta decidiu usar o meu próprio veneno para me curar. Começou a escutar junto comigo músicas da banda, me mostrando o outro lado deles. O outro lado do meu medo. O lado onde eu tenho liberdade para analisar, interpretar e descobrir as verdadeiras mensagens nas coisas. Tobias Forge sempre diz que os shows do Ghost são feitos para você se divertir. Independentemente de sua crença, personalidade, gostos... você pode ter um momento voltado para a leveza e diversão. E, para mim, isso é o Ghost. É a banda que me lembra que a vida pode ser mais do que apenas viver. Que você pode encontrar algo bom em situações ruins. Que você é livre e, não é o que uma ideologia diz que vai ditar quem você é ou deixa de ser.


O Ghost é um remédio para os momentos nos quais você acha que nada de bom vai acontecer. Para quando suas obsessões tomarem conta do seu dia. O próprio Tobias lembra que ele não é satanista. É apenas um músico que pensa fora da caixa e decidiu usar um tema mais polêmico para sua banda. E nos ajuda a lembrar que, se você tem fantasmas, tudo bem. Todos temos. E, mesmo que pareça que não temos nada de bom, temos tudo.


Imagem de capa: Instagram oficial @thebandghost

21 visualizações0 comentário