Ser ou não ser, "não foi a intenção"

*Por Camila Giulia


Quantas vezes ao falarmos sobre uma dor causada pelo outro ao outro ouvimos de imediato que "não foi a intenção"? Quantas vezes também já respondemos da mesma forma?


É importante lembrar que ser ou não ser a intenção não "rebobina" a vida. A título de ilustração, por exemplo: homicídio culposo ainda é homicídio.


E vocês poderiam me perguntar: Ah, Camila, então o arrependimento não conta?

Claro que conta, mas o arrependimento são outros quinhentos. Quando a gente se arrepende a gente tem a possibilidade de pedir desculpas. Quando a primeira coisa que fazemos ao ouvir "doeu" é responder "foi sem querer", talvez estejamos mais ocupados em nos justificar. Pra quem sentiu a dor, é bacana saber que não foi a intenção, mas ouvir um pedido de perdão... não sei... parece falar mais alto no peito.


Se eu te falo que você me magoou, eu vou traduzir em palavras, nem sempre as melhores pra você ou até pra mim, que podem estar carregadas de medo, insegurança, até mesmo raiva, mas certamente dirigidas de um lugar vulnerável, como chegou em mim. É aquela velha história: de onde estou eu vejo o número 9. De frente a mim você vê um 6. O que você falou ou fez pode ter evocado em mim, conscientemente ou não, outras tantas situações difíceis que passaram ou que ao menos pareciam ter passado.


Nem sempre é fácil falar onde dói e expor todas as lembranças que vieram junto. Não temos como saber também o momento ideal (se é que há - suspeito inclusive que não).


O que eu quero dizer com tudo isso é que, de maneira geral, falar onde dói me parece indicar vulnerabilidade e se mostrar vulnerável tantas vezes ecoa como um ato de coragem. Da mesma forma que se entender enquanto pessoa falha, errante, e pedir desculpas antes de qualquer justificativa exige uma nudez revestida de coragem e ao mesmo tempo imensa vulnerabilidade ao admitirmos.


Se eu te magoei e você importa pra mim eu me frustro, eu te frustro, eu me decepciono e posso te decepcionar também. Mas toda vez que existir vulnerabilidade com acolhimento e coragem, a relação tem uma grande chance de não se perder e quem sabe nós, eternos errantes que somos possamos nos reencontrar.


* Comediante, palhaça e psicóloga. instagram: @oicamilagiulia


Fonte da imagem: https://tercerangel.org/pt-br/como-se-livrar-da-culpa-e-transforma-la-em-acao-reparadora/

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