Sociedade e robótica: o que tem a ver com você?



Por *Marcos Antônio Marques Lima


Você já se perguntou como essa crescente convivência com computadores, robôs e inteligência artificial está mudando a forma como interagimos e nos percebemos no mundo? Afinal, o quanto a robótica poderá mudar nossas interações? Qual é a visão da relação sujeito-máquina em pesquisas recentes?


As ciências sociais nos mostram que todas as sociedades estão sempre em processo de construção, reprodução e transformação. Assumindo este fato, somos capazes de perceber e aceitar que mesmo as coisas mais tradicionais podem mudar porque a vida é um fluxo constante. A crescente presença da robótica em nossas vidas está transformando o nexo social, trazendo-nos muitas mudanças, pois contribui cada vez mais para o intenso processo de globalização, por meio da popularização das inovações tecnológicas informacionais.


A cientista da computação e robótica norte americana Maja Matarić comentou que devemos entender a robótica como um campo de pesquisa e estudo sobre robôs, entendendo como eles interagem, sentem e agem no mundo físico, pois leva em conta a definição ampla e atual de que os robôs não estão apenas realizando tarefas automatizadas, estão também percebendo o ambiente, tomando decisões, atingindo metas, ou seja, ganhando mais autonomia do que a referência ultrapassada que tínhamos sobre robôs. A origem da palavra "robô" faz referência ao trabalho forçado e automatizado, mas isso só faz sentido se considerarmos os primeiros robôs da história, pois hoje a realidade tem sido diferente.


A dificuldade com a definição de robótica existe porque o campo está em constante atualização, devido ao grande investimento do mercado capitalista e, por isso, temos novidades nesse campo diariamente. Com o aumento da informação e autonomia da robótica, cresce a consciência da necessidade de pesquisas multidisciplinares, não envolvendo apenas a robótica (mecânica, eletrônica e computação). A construção de robôs socialmente inteligentes revela a necessidade de pesquisas também nas áreas de humanidades, como Sociologia, Antropologia, Filosofia, Psicologia e assim por diante.


A interação de pessoas, que não são da área de TI, ou seja, vistas como “leigas”, com as tecnologias da informação, em larga escala, tem chamado bastante atenção e, em alguns casos, até causado preocupação. Por meio de um mouse, um teclado, um toque na tela de um tablet ou celular, estamos nos comunicando cada vez mais através de máquinas e/ou nos comunicando com as próprias máquinas. Isso nos traz reflexões sobre a relação do sujeito com as máquinas e ao mesmo tempo nos lembra das promessas de que em um futuro próximo estaremos convivendo com robôs, em larga escala, o que será uma grande transformação em nossas relações, pelo menos a expectativa é essa.

No campo de trabalho, já temos vários robôs trabalhando, principalmente em linhas de montagem. No entanto, neste caso e em outros semelhantes, como robôs criados para realizar monitoramento aéreo ou realizar um procedimento cirúrgico, esses robôs estão sendo controlados por humanos habilitados para essa função. A grande promessa do futuro é diferente desses exemplos, a promessa são robôs com autonomia para sentir, decidir e agir no mundo físico.

Quando falamos da “relação sujeito-máquina”, estamos falando de uma prática reflexiva, nossa reflexão sobre essa nova relação entre seres humanos e máquinas cada vez mais comum na sociedade. A qualidade dessa interação afeta a agenda de pesquisa multidisciplinar. As discussões sobre o desenvolvimento autônomo de robôs, que não exigem que humanos executem determinadas funções, são as questões que mais chamam a atenção dos pesquisadores.


No mundo, até agora, o robô mais vendido e popular é o Roomba, é um aspirador de pó inteligente, que faz o reconhecimento do local e vai, sozinho, fazendo seu trabalho. Quando dizemos que este é o robô mais popular e, ao mesmo tempo, muitos de nós temos que pesquisar na internet para descobrir o que é, é porque não podemos esquecer a realidade altamente desigual em que vivemos, que nos alerta para não generalizar.


Este exemplo do aspirador de pó inteligente serve para nos mostrar que, de fato, essas novas tecnologias são realmente voltadas para a realização de atividades práticas, laborais, como a atividade doméstica. É claro que este aspirador de pó não resolverá todo um problema de cuidado doméstico, não é uma relação causal em que a presença de tal robô eliminará a necessidade de trabalho humano, mas é algo que devemos levar em consideração na reflexão e que, inclusive, tem causado preocupação entre pesquisadores sobre desigualdades e desemprego estrutural. Outra atividade, por exemplo, como dirigir, acaba sendo suprimida por outro tipo de robô, como carros autônomos, o que já é uma realidade, embora ainda restrita às elites econômicas.


A história nos mostra que não devemos pensar que essa realidade, de popularização, está muito distante de nós. Em 1980 tivemos a inclusão dos computadores em nossa vida. Em 1990 também temos uma novidade muito promissora, a World Wide Web, e essas duas novidades, hoje, são bastante comuns e acessíveis em nossa realidade. A perspectiva é que em 2030, robôs estejam circulando, com suas diferentes funcionalidades, com mais frequência entre nós.


Talvez, no futuro, os robôs representem o que a Internet representa para nós hoje. Sem dúvida, o maior impacto cultural que temos até agora é representado pelo advento da internet, que reduz drasticamente o tempo e o espaço e representa uma verdadeira revolução na comunicação. A internet, juntamente com as redes sociais virtuais, mudaram e ampliaram as possibilidades do comércio eletrônico e das organizações empresariais. Em relação à produção, além da demanda crescente, a internet tem sido um espaço de trabalho, mudando o cotidiano das pessoas que agora têm que lidar com esse novo ambiente de trabalho e que não precisam se deslocar para ter um grande encontro com pessoas de outro país, por exemplo.


As diversas mudanças culturais trazidas pelas redes sociais virtuais em nossas vidas, em todos os setores, revelam e deixam expectativas sobre o quanto a realidade mudará quando tivermos mais robôs circulando entre nós. Se as redes sociais virtuais tiraram a necessidade de ter contato físico para se comunicar, voz e vídeo, instantaneamente, podemos dizer que os robôs vão tirar a necessidade de realizar tarefas comuns? Até que ponto?


Em nossa sociedade ocidental, tendemos a olhar a realidade como termos antitéticos, como esquerda-direita, público-privado, romântico-clássico e também homem-máquina. Acontece que nem sempre podemos defender com firmeza essas barreiras. A construção de um ciborgue, por exemplo, que é a junção de humanos e máquinas, não se trata apenas de ficção. Se pensarmos em pessoas que usam próteses, como um braço mecânico, por exemplo, é algo que não imaginávamos há 100 anos e hoje é uma realidade. Assim, existem vários outros exemplos na história, inclusive o caso do marca-passo, usado há muito tempo. Esses exemplos servem para mostrar que a relação "homem-máquina" existe há muito tempo na história, por isso devemos ter cuidado com essa exclusividade que às vezes é veiculada por algumas descrições da indústria 4.0 e sociedade 5.0. Como diz o pesquisador Hari Kunzru: a diferença é que agora temos a informação presente nessas máquinas.


Outra coisa que devemos levar em conta é nossa dependência cognitiva dessas tecnologias que já temos acesso e das tecnologias que possivelmente teremos acesso num futuro próximo. A nossa sociedade está pronta para lidar com a maior presença de robôs? Longe de ter reflexões fatalistas, mas essas novas tecnologias trazem soluções há muito tempo aguardadas por nós. Se formos pensar em uma maior popularização, podemos imaginar que será uma situação parecida com o que acontece hoje com as redes sociais virtuais, em que algumas pessoas, diariamente, passam até 6 horas por dia utilizando seus recursos, seja para lazer ou trabalho. Isso deve nos preocupar ou não?


Esse tipo de reflexão, para muitas pessoas despertada apenas pelo advento das tecnologias inteligentes e também alimentada por filmes que trazem robôs sofisticados que representam a imagem humana, acabou trazendo uma crítica sobre nós mesmos, nos fazendo pensar sobre o que é a humanidade? onde começa e termina o humano? A verdade é que já fazemos transformações em nossos corpos, o mundo social que criamos não foi dado, foi criado por nós, então qual seria a definição de um ser humano “puro”? Ainda existe? Não estamos fazendo mudanças em nossos corpos há algum tempo? usando acessórios para representar a melhor versão de nós mesmos? então onde está o limite do que é humano? Essa discussão, como vocês podem ver, foi feita pela pesquisadora Donna Haraway, em 1985, um “Manifesto Ciborgue”, que deu origem a uma linha de pesquisa chamada Antropologia Ciborgue.


Perceba como essas transformações tecnológicas vêm provocando debates consistentes há muito tempo. Espero que este texto tenha despertado sua curiosidade para aprofundar esse assunto e perceber que ele não está tão distante de nós nem é uma promessa ilusória. Os estudos de humanidades sobre sociedade e robótica já trouxeram reflexões importantes sobre nossa própria existência e até contribuíram para a construção de robôs socialmente inteligentes, além, é claro, de nossas famosas críticas sobre os prós e contras do objeto.


*Marcos Antônio Marques Lima

Bacharel em Ciências Sociais

Universidade Federal do Piauí (UFPI)

CV: http://lattes.cnpq.br/8583230916817216 Linkedin: www.linkedin.com/in/marcosantoniomarques


Link da imagem: Referência da imagem: https://tecnico.ulisboa.pt/pt/eventos/webinar-robotica-e-inteligencia-artificial-na-sociedade-impactos-e-desafios/



Referências:


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A IMAGEM DO CIBORGUE NA ESTÉTICA ACELERACIONISTA. DasQuestões, Vol. 12, n.1, junho de 2021, p.138-162. Disponível em: <https://periodicos.unb.br/index.php/dasquestoes/article/view/32749/30087>. Acesso em: 13/02/2022.

BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. 2. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2001.


KUNZRU, Hari. Genealogia do Ciborgue. In: TADEU, Tomaz (Org.). Antropologia do Ciborgue: as Vertigens do Pós-Humano. Trad. Tomaz Tadeu. 2 ed., 2 reimp. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016a, p. 119 - 126.


MATARIC, Maja J; FERASOLI FILHO, Humberto; SILVA, José Reinaldo; ALVES, Silas Franco dos Reis. Introdução à robótica. [S.l: s.n.], 2014.


VAZQUEZ, A. S. Filosofia da Práxis. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1977.

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