Talvez, o dia do divórcio mereça ser brindado!

* Por Sara Santa Rosa


Da minha janela, eu vejo Dona Amor, uma jovem criada por uma família tradicional e religiosa, inteligente, linda, viajada, que já sabia o nome dos seus filhos desde pequenina. Uma moça muito bem relacionada e cheia de pretendentes.


Escolhe um.


Casa-se.


Se entrega às suas aspirações mais juvenis sobre o relacionamento com aquele que seria o seu melhor amigo, amante, com quem realizaria todas as fantasias sensuais e sexuais que sempre povoaram a sua mente - um bocadinho sagrada e um bocadinho profana; com quem faria as viagens mais radiantes, dividiria a alegria da maternidade, viveria os perrengues da vida a dois e os resolveria com uma boa conversa coroada por um sexo de reconciliação delicadamente selvagem.


Dona Amor escolheu Seu Sem Noção.


Seu Sem Noção conheceu Dona Amor em um campo verdejante e frondoso onde ocorria um piquenique. Seu Sem Noção observou Dona Amor de longe e se encantou pelas suas conquistas, sua beleza exterior, sua origem familiar, pelos seus modos, que ilustravam uma moça recatada e milimetricamente feita para a realização do que se chama por aí de “bom casamento”.


Seu Sem Noção, então, galanteou Dona Amor, fez o seu coração queimar de paixão e o seu corpo arder em uníssono. A sua mente? Ah, a sua mente estava em um carnaval de sentimentos...


O esperado dia chegou. Casaram-se. Tornaram-se pais. Viverem as viagens e os desejos mais profanos de Dona Amor foram saciados...


Dona Amor, porém, sentia-se só em cada uma das experiências compartilhadas com vocês, meus girassóis, e ela estava certa em suas dúvidas, inseguranças e angústia, pois Seu Sem Noção estava apenas personificando a ideia de uma esposa perfeita nela. Ele não sentia o coração palpitar, as pupilas dilatar, os olhos desviarem vergonhosamente dos da sua amada quando os encontrava no meio da multidão.


Seu Sem Noção não sentia o receio gostoso e bobo de demonstrar as suas emoções em uma conversa, nunca experimentando, então, o êxtase causado pela reciprocidade afetiva. Dona Amor era somente um troféu para Seu Sem Noção exibir nas reuniões profissionais, nos encontros casuais com amigos e em qualquer oportunidade possível de provar o seu “bom casamento” à sociedade.


Dona Amor, como flor que era, foi murchando, murchando, murchando até morrer por dentro, até ter uma alma sepulcral e mau cheirosa. Ela foi perdendo o sorriso doce e encantador, os seus olhos vivos e alegres. Dona Amor afundou-se na lama das convenções sociais, do medo da opinião alheia e resolveu continuar desempenhando o seu papel de dama o quanto suportasse.


Anos se passaram. Os filhos cresceram. Dona Amor estava sendo profundamente desrespeitada enquanto mulher por Seu Sem Noção. A dor já era demasiadamente doída e refletia o armário de remédios que precisava tomar para controlar as suas emoções, bem como os perfumes caros que precisava borrifar em si para tentar esconder o mau cheiro que exalava de si por causa de uma depressão profunda.


Dona Amor resolve, finalmente, reunir forças, coragem e dar um basta nessa situação horripilante. Ela pede o divórcio, o qual, meus girassóis, nada mais é do que a confirmação de uma relação já falida, mau cheirosa e que tem um raio de alcance para machucar digno de Oscar.


Dona Amor se divorcia e experimenta um misto de medo e liberdade, de alegria e choro. Vai se desconstruindo e reconstruindo. Não encontra mais a menina que outrora escolheu amar Seu Sem Noção, mas a mulher forjada pela dor. O seu maior critério passou a ser, portanto, verificar se o brilho nos olhos de um novo pretendente estava no mesmo compasso que o seu, se as pernas dele balançavam pelas mesmas razões que as suas.


Dona Amor merecia viver o dia da finalização de uma relação tóxica, meus girassóis. Ela merecia entrar na sala de audiência para assinar a sentença e o alívio provocado pela leveza no dedo anelar da mão esquerda e na alma, que poderia se tornar novamente um lugar com cheirinho de alfazema.


O ritual do divórcio pode ou não ser bastante doloroso. Isso depende muito da rede de apoio que a pessoa tem e da leveza ou não que ela transmite. Não é fácil ter o padrão de vida diminuído por causa de um pacto antenupcial mal elaborado, discutir a guarda dos filhos, a pensão alimentícia dos pequenos e onde eles vão passar as datas comemorativas.


Muitas vezes, outras Dona Amor também são vítimas de violência física doméstica. São alienadas por outros Seu Sem Noção na vida dos filhos, que as enxergam como “o problema”, a “fraca”...


São tantas variáveis, meus girassóis, tantas dores profundas que a nossa ou as nossas Dona Amor carregam que nos faltariam linhas para tanta história. Por isso, eu vos peço que se vocês são uma Dona Amor, tenham coragem de serem felizes outra vez e se vocês conhecem uma Dona Amor ajude-a no caminho para esse bálsamo mais do que merecido que pode ser o divórcio.


Lembrem-se, meus girassóis, casar bem é casar principalmente por amor. Outras questões também são necessárias no processo de escolha, mas jamais devem principiar a lista de alguém. Casar bem também é fazer um bom pacto antenupcial para escolher cautelosamente o regime de bens do matrimônio, porque embora o vazio momentâneo e natural não possam ser evitados diante de um divórcio, a queda brusca no padrão de vida pode sim.


Cuidem-se!


*Advogada, pós graduada em Direito Processual Civil e mestranda em Direito.


Link da imagem: https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2019/12/10/historia-de-um-casamento-esmiuca-todos-os-lados-de-um-divorcio-g1-ja-viu.ghtml

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