TEMOS DE RECONHECER A NOSSA BARBÁRIE!


“O exemplo é a escola da humanidade e só nela os homens poderão aprender” (Edmund Burke).

No meu último texto deste ano, resolvi problematizar a seguinte questão, muito discutida em 2020: é correto destruir estátuas, mudar histórias, impedir venda de livros, trocar nomes de ruas e instituições a favor de adequá-las à contemporaneidade? É válido, em nome da moral e da lei presente, modificar, destruir ou esconder coisas do passado consideradas nefastas aos olhos atuais?


De uns anos para cá, fatos que simbolizaram, outrora, racismo, sexismo, machismo, etnocentrismo, xenofobia, autoritarismo praticados a torto e a direita - a nível coletivo ou individual - têm sofrido tentativas de amnesia compulsória. Para quê? Poupar a geração atual das máculas que nossos antepassados deixaram, o que consideramos hoje como obscurantistas, desprezíveis e repugnantes. Queremos a todo custo retirar o nome de pessoas que autorizaram, em falas e atos, a perseguição a outros humanos devido ao sexo, gênero, cor, religião, nacionalidade, etnia, política, ideologia.


Almejamos igualdade, liberdade, fraternidade, por isso não queremos que as crianças e jovens tenham como referência - direta ou indiretamente - exemplos tão hostis à convivência e respeito às diferenças e aos valores plurais. Não desejamos guardar na memória social aqueles que se empenharam em proliferar todo tipo de sofrimento que abominamos, seja a nível físico, mental, emocional, espiritual. Ansiamos apagar ou alterar a crueldade. Por isso, a opinião pública tem aceitado e pressionado governos e instituições a refazer a História de acordo com os valores do presente, ao que consideramos o modo adequado de civilidade, correspondente a uma convivência realmente pacífica e inclusiva.


Mas será que estamos no caminho certo? Já me apresso dizendo que não. Não devemos eliminar o nosso passado. Não necessitamos mudar ou maquiar as barbaridades cometidas. Não devemos esconder das crianças e jovens o que somos capazes de fazer: perseguir pessoas por causa da cor de pele, da opção religiosa, da cultura, do gênero. Não podemos ocultar, mudar ou destruir o que a sociedade e os indivíduos fizeram, o que hoje consideramos imoral e criminoso.


Meus caros, seres humanos são extremamente capazes de atos realmente nobres, de ajudar e doar-se à outras pessoas, de coisas exuberantes; mas também são capazes de escravizar, matar crianças e adultos devido à opção sexual; levar pessoas ao campo de concentração e extermínio por causa de opção política ou por traços biológicos. Pessoas são capazes de escrever livros pregando a violência, a revolução e todo tipo de genocídio. Sim, humanos podem escrever histórias que justifiquem a subordinação de um sexo por outro, de uma suposta raça por outra, de uma classe social por outra, de uma cultura por outra. Realmente somos capazes de tudo isto, mas não devemos escondê-las. Temos obrigação moral de mostrar o que somos capazes de fazer por fanatismo, usura, poder, ideologia.


Devemos ensinar as crianças e jovens o que não fazer, o que não repetir. Precisamos olhar o presente e aprender com o passado. O exemplo é a maneira correta de ensinar. Não devemos esconder, mudar ou apagar o mal que fizemos aos outros. Devemos, sim, tirar lições sobre isso.


Não podemos fazer crer que só fizemos e fazemos coisas boas. Temos de mostrar as práticas dantescas, a sombra que acompanhou a humanidade por milênios; pessoas, culturas e instituições que massacraram pessoas e povos. Necessitamos encontrar formas de manter essa memória viva, mesmo que dolorosa, repugnante, para não corrermos o risco de repeti-las. Sendo bastante categórico: alterar o passado para adequação do presente, ou dos valores aceitáveis do presente, é um prejuízo e um caminho muito perigoso, beirando ao extremismo praticado por governos semi-totalitários e totalitários.


Há, sim, maneiras de apontar a bestialidade feita pelos nossos ancestrais, fazendo reflexões críticas adequadas à contemporaneidade, nos mais variados registros material e imaterial que nos foi legado. É possível escrever e explicar a todos, com pouca maturidade moral e intelectual, sobre o que não devemos mais fazer, sobre como devemos ter senso crítico. As instituições, educadores, comunidade e pais têm esse papel de extrema responsabilidade. Melhor assim, pois preservamos aquilo que fizemos, evitando repeti-las, com seriedade e contundência exemplar, a fim de que qualquer indivíduo possa compreender, da criança ao adulto, a conduta correta na vida em comum


Por fim, leitorxs, temos ciência e maturidade de que podemos ser melhores; podemos elevar a convivência, construir uma sociedade mais justa, respeitosa e tolerante à todas formas de vida; mas o caminho para isso não é apagando ou mudando o passado, negando fatos, rescrevendo a história falsamente. Podemos ser melhores reconhecendo as nossas nódoas, as manchas tristes e fúnebres, as sombras que atravessaram e ainda atravessam a nossa existência individual e coletiva.


A humanidade não se restringe ao hoje, mas também aos que morreram e os que ainda virão. Como disse um homem sábio:


"Aprenda do ontem, viva para o hoje e tenha esperança no amanhã. O importante é jamais parar de questionar" (Albert Einstein).

Link da imagem: https://blogdaboitempo.com.br/2011/10/31/barbarie-social-e-devir-humano-dos-homens/

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