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TIO PAULO: O VILIPÊNDIO AOS MORTOS E VIVOS NO TRIBUNAL DA INTERNET


Poderia ser mais um episódio do Black Mirror, mas a história do tio Paulo e todas suas camadas do grotesco são um retrato real de nossos tempos. O vídeo da sobrinha, Erika, tentando pedir o empréstimo de seu tio morto é tenebroso, mas o que seguiu depois não deixa de ser menos terrível.


Chacotas, piadas, memes, vilipêndios diários ao cadáver do senhor Paulo Roberto Braga. Se foi aterrador a dessensibilidade de Erika de Souza Vieira Nunes, a sensibilidade geral não foi muito diferente. Entramos na onda de tratar como piada o corpo de um idoso que faleceu subitamente sem atentar para a dignidade que todo ser humano merece. Um corpo sem vida de um famoso ou de um parente não é risível, mas se tornou com o anônimo senhor de Bangu.


Mas pior que o vilipêndio ao cadáver é o vilipêndio ao corpo vivo da sobrinha. O vídeo, sim, é chocante, dá raiva, dá a entender que foi premeditado, que Erika tentou usar o corpo do tio para conseguir dinheiro. Acontece que existe uma coisa no direito chamada presunção de inocência. Esquece. 


Com um vídeo de 1 minuto e 18 segundos, Erika foi julgada pelo tribunal da internet sem direito à defesa. Criou-se a figura da mulher monstro, a estelionatária, a desvairada psicopata presa preventivamente para aplacar a ira do coliseu.


Mas eis que, 5 dias depois do incidente, pudemos conhecer a história do ponto de vista das vítimas:


“É a que mais protegia ele”

Na reportagem do Fantástico do último domingo, ouvimos os relatos da família de Erika. Muitas coisas importantes foram contadas. Tio Paulo morou com Erika e mais 3 sobrinhos por 15 anos. Ele, sem filhos, sem esposa, sem contato com os irmãos, tinha na casa da sobrinha a única ligação familiar. 


Com problemas com álcool, a saúde do tio Paulo estava bastante debilitada e segundo a tia Ana Fátima, Erika era quem mais cuidava e protegia ele. O quarto do tio Paulo era no andar de cima, mas ele já não andava direito e queria criar um cômodo mais confortável na garagem, embaixo, onde passou a ficar de forma improvisada nos últimos meses.


Apesar do estado de saúde, tio Paulo estava lúcido, cuidava do próprio dinheiro e partiu dele a vontade de solicitar o empréstimo de R$17 mil para reformar o cômodo. A obra estava orçada e seria feita pelo ex-marido de Erika. O empréstimo já estava aprovado e precisava da assinatura do Paulo, que saiu vivo de casa, chegou no shopping provavelmente vivo (segundo relatos do Uber) e morreu provavelmente antes de entrar na agência bancária. 


Um dos filhos, Lucas Nunes dos Santos, contou que Erika sofre de transtornos psiquiátricos, com dois laudos pedindo internamento, toma remédios controlados e, segundo ele, é provável que não tenha se dado conta que o tio estava morto. 


“Eu gostaria que as pessoas fossem mais sensíveis com o que estamos vivendo. Estamos enfrentando a perda de nosso tio e esse grande mal-entendido com nossa mãe”.


Erika foi presa em flagrante ainda na agência bancária e permanece presa preventivamente, em um caso evidente de ativismo judicial. Em entrevista ao programa O Povo New, o advogado especializado em direitos humanos Rodrigo Mondego explica que a prisão preventiva de Érika não possui fundamentos legais, tendo em vista que os requisitos para esse tipo de prisão não se aplicam. Disse o advogado: 


“A gente observa que as autoridades estão mais preocupadas em dar uma resposta à opinião pública que chegar à verdade dos fatos”.


Camadas sobre camadas de bizarrice

Não sei dizer o que é pior nessa história toda. As piadas com o cadáver do tio Paulo, um idoso precisando ser cuidado por uma mulher com transtornos psiquiátricos, a criação midiática da mulher monstro sem nenhuma investigação, um empréstimo consignado de R$17 mil que seria pago com R$35 mil ou uma prisão preventiva sem fundamentos enquanto os bilionários da maior fraude financeira do país e o motorista do Porsche permanecem soltos.


Enfim, um puro suco de Brasil, de sociedade do espetáculo, da distopia neoliberal. 


Mas, claro, posso estar errado e Erika ser realmente essa psicopata como tanta gente vem dizendo. Aí é com o direito. Permaneço adepto dos palavrões “justiça” e “direitos humanos” por um motivo muito simples: a qualquer momento pode ser eu, você, alguém que amamos, caindo no tribunal da internet. E não é mais necessário nem saber se a pessoa é pecadora para começarem a atirar as primeiras pedras.



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4 Comments

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O que tenho lido é que Erika está sendo acusada de tentativa de golpe (o senhor teria falecido duas horas antes de entrar no banco) e vilipendio de cadáver. O fato dela ter transtornos é novidade. A exposição do tio Paulo é a pior parte.

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Eu tenho uma visão talvez polêmica sobre os julgamentos da internet. Acho que toda vez que levantamos críticas sobre o comportamento das pessoas nesse espaço quase sem forma q é a internet, damos mais poder a ideia de que um local formado por mentes aleatórias tem propriedade para dar uma opinião. Posso ser meio ingênua, mas acho que ser indiferente as movimentos de internet e colocar energia em validar os lugares de real debate, sem a aura classicista que eles normalmente têm, seria uma forma possível de mudar esse poder do mundo dos "comentários da internet".

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Não entendi a resposta. Meu comentário não foi sobre vc, mas sobre esse ambiente de comentários da internet. Só quis trazer a discussão sobre possibilidades de lidar com isso.

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