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UM BARRIL DE PÓLVORA CHAMADO “FRUSTRAÇÃO MASCULINA”



Um coach de masculinidades ameaça de morte uma comediante que fez um brincadeira com suas falas. Dois homens perdem uma aposta e provocam uma chacina com a morte de 7 pessoas, incluindo uma criança de 12 anos que estava acompanhada do pai. Dois casos diferentes, mas que revelam uma problemática que está por todos os lados, causa estragos estrondosos e que ainda não está sendo tratada com a devida preocupação: a frustração masculina.


Frustrar-se é um sentimento humano inevitável e pouco desejado. Demanda alguma inteligência emocional lidar com o que sobra dentro de nós depois de uma situação de frustração de desejos e expectativas. Algumas pessoas respondem com tristeza e muitas lágrimas, outras se isolam e silenciam e, outras mais, explodem usando a violência, em todas as suas possibilidades, para desvelar em alguém seu sentimento angustiante.


Diante de tudo isso, estamos há muito tempo percebendo e destacando que a frustração masculina é um mecanismo de poder dentro do sistema de desigualdade de gênero e do construto do patriarcado. Os relatos de violência doméstica reúnem inúmeras situações que ressaltam homens machucando e violentando corpos femininos por conta de um dia ruim no trabalho, um comentário que lhe incomodou ou uma piada feita na hora errada. Na extensão desse quadro de violência acontecem os feminicídios, ou a morte de mulheres pelas mãos de homens por conta do ódio ao gênero feminino.


Quando se está na condição de expressar-se como mulher, social ou politicamente, é inevitável acompanhar os casos que muitas delas passam, talvez para entender a gravidade do que estamos vivendo ou em busca de respostas à opressão contínua. Em uma dessas análises, descobri o caso de um homem que simplesmente esfaqueou sua companheira por que ela deu risada em um momento de intimidade dos dois. Para ficar mais claro, o homem broxou, a mulher riu, ele a matou. Não era um assassino em série, um bandido da favela ou uma pessoa com problemas mentais. Apenas um ser humano que viveu uma terrível sensação de frustração relacionada à questão simbólica de seu falo e sua autoestima como homem. E ele decidiu matar. Simplesmente matar.


O caso da comediante, atriz e roteirista Lívia La Gatto, que foi ameaçada, também transparece uma ideia semelhante. A pessoa ridicularizada em questão foi o coach Thiago Schutz, dedicado à temática Redpill, uma linha de pensamento conservadora que identifica homens como personas de melhor capacidade que as mulheres, que não podem ser submetidos a elas e aos seus discursos de empoderamento:


“RedPill não é somente um movimento e uma comunidade que prega uma espécie de ‘uso instrumental do sexo feminino’ por parte dos homens, isto é, ‘usar a mulher apenas para suprir suas necessidades seuxais sem qualquer tipo de compromisso’, dado que para essa comunidade boa parte das mulheres assemelha-se à prostituição, restando poucas mulheres ‘dignas’ e valorosas: é um movimento que visa minar o feminismo e as conquistas das mulheres, visa condenar seu comportamento independente, e, além disso, visa manter viva uma concepção de masculinidade e de relacionamento que, em muitas situações, não são mais condizentes com a realidade hoje.”

Os cortes das falas desse profissional se espalharam na internet e viraram motivos de chacota em todos os cantos. Mas, de repente, quando uma mulher comediante entra na brincadeira, a frustração desse homem extrapola seus limites e ele solta a frase: “Você tem 24 horas para retirar seu conteúdo sobre mim. Depois disso processo ou bala. Você escolhe.”


De acordo com o que pesquisei até então, não houve qualquer ameaça dele para outras pessoas que também fizeram piadas a respeito do seu material. Ele escolheu especificamente essa mulher para lançar seu ódio com tons claros de violência física. Era apenas uma piada, igual a tantas outras que a internet perpetua. Somente o trabalho da comediante de pegar um assunto do momento e fazer graça, sendo ela, especialmente e particularmente, contra o discurso propagado pelo coach. O que, na atitude dela, era tão grave ao ponto de merecer uma “bala”?


E, finalmente, a terrível chacina que aconteceu em Sinop, Mato Grosso e deixou sete pessoas mortas, incluindo uma criança. O que mais me assusta nesse caso é como esses homens estavam em um ambiente de entretenimento, usando as apostas como uma forma clássica de competição masculina, porém, ao perderem dinheiro e também serem alvo de piadas das pessoas que acompanhavam o jogo, eles voltam para casa, preparam armamentos e retornam para matar esses indivíduos. Eles pedem para as pessoas se alinharem de costas na parede e matam, uma a uma. A criança tenta fugir e um deles a acerta nas costas. Depois dos assassinatos, foi muito fácil identificar os dois sujeitos, que eram conhecidos na cidade e não tinham um passado de crimes - mas eram colecionadores fervorosos de armas…


Esses casos, infelizmente, não são isolados. Os dados e estatísticas estão aí revelando a presença masculina predominante em casos violentos semelhantes, especialmente naqueles relacionados a corpos femininos. Um breve exemplo: segundo a pesquisadora Lourdes Bandeira, professora do departamento de Sociologia da UnB (Universidade de Brasília), metade dos feminicídios do Brasil são cometidos por parceiros ou ex-parceiros que não aceitam o pedido de separação da vítima.A cultura de misoginia e masculinidade tóxica criou um ambiente propício para que indivíduos simples e comuns não consigam lidar com sentimentos humanos mais básicos como a frustração.


Diante disso, eu endosso o coro da psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello que está promovendo uma campanha para que a misoginia vire crime no Brasil. Ela diz:


“A misoginia é tão entranhada na nossa cultura que ela é tida como ‘aceitável’, passível de ser relevada. Ela está presente na esfera pública e privada e ocorre desde ‘piadas’ nada engraçadas (sexismo recreativo, parafraseando Adilson Moreira) à misoginia política e nos ambientes de trabalho! Além de ser extremamente comum na internet!!! Passou da hora de a misoginia ser CRIMINALIZADA, assim como o racismo, a homofobia e a transfobia. Por que será que isso até hoje não aconteceu???? Somos 53% da população!!!! Movimentos masculinistas misóginos devem ser combatidos como discurso de ódio às mulheres! Assim como a misoginia que faz parte do cotidiano de todas nós!!! Vamos puxar esse movimento???”

Para o bem de todos, homens e mulheres, pois todos são vítimas nesse cenário, puxe essa conversa com pessoas da sua famílias, conhecidos, colegas de trabalho e amigos. No lugar de ficarmos escandalizados a cada nova notícia terrível sobre o assunto, vamos resolver o problema em sua raiz.


Para quem quiser contribuir para a campanha contra misoginia que trago no texto, assine a petição abaixo feita pala Valeska Zanello:



FONTE:









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