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UM TUPINAMBÁ NO IMPÉRIO DO MEIO: A VIAGEM DE JERÔNIMO RODRIGUES À CHINA




O ano de 2023 começou intenso para o governador recém eleito Jerônimo Rodrigues (PT). Vitorioso nas eleições majoritárias de 2022 ao derrotar ACM Neto (União Brasil), Jerônimo conseguiu, para além do próprio cargo de governador de estado, se projetar como uma liderança política competitiva e até independente (reeditando, guardadas as proporções, a história de Rui Costa (PT) na sucessão à Jacques Wagner (PT) nas eleições de 2014). Não esquecendo, como é evidente, do peso de Lula (PT) na região nordeste em relação às candidaturas aliadas, incluindo a Bahia. Chama a atenção, inclusive, o fato de que Jerônimo é o primeiro governador autodeclarado indígena a ser eleito: no caso dele, uma autodeclaração referente aos Tupinambás (povo indígena que habitava a Bahia no século XV-XVI).


Um elemento importante para esse fortalecimento da imagem do governador recém eleito, foi a decisão de escolher a China como a primeira viagem internacional oficial, aproveitando que o presidente Lula (PT) também faria uma visita oficial ao país asiático neste mesmo período (que acabou sendo postergada por questões médicas do presidente). Mesmo assim, o governador viajou à China com o objetivo de azeitar as relações econômicas e diplomáticas do estado baiano com o Império do Meio, especialmente para conseguir atrair mais investimentos chineses para o estado e buscar novos acordos de cooperação na área científica e tecnológica com empresas chinesas do ramo da tecnologia da informação e comunicação, como se revelou mais tarde pela visita de Jerônimo à Huawei.


Esse azeitamento das relações econômicas busca precisamente dar indícios mais concretos a respeito do andamento de dois projetos de grande porte executados no estado por empresas chinesas, a saber: Ponte Salvador-Itaparica (que faz parte do Sistema Viário Oeste - SVO) e o VLT do Subúrbio (A Ponte Salvador-Itaparica sob administração de um consórcio formado pelas chinesas China Railway 20th Bureau Group Corporation (CRCC20) e China Communications Construction Company (CCCC), e o VLT sob administração do consórcio Skyrail Bahia, que conta com a administração da chinesa BYD (Build Your Dreams)). Na ocasião, ambos os projetos foram objeto de pauta no encontro do governador baiano com todas essas empresas a fim de acelerar os trâmites burocráticos necessários à continuidade desses projetos, considerando que os investimentos chineses na América Latina (especialmente o Brasil) tendem a crescer, dado o cenário de tensão entre China X Estados Unidos e China X Europa, fazendo com que as empresas chinesas tenham mais dificuldades de investir nesses locais, e migrando para áreas mais atrativas.


O fato notório dessa missão baiana à China é também o tempo em que a comitiva permaneceu no país, considerando que o presidente Lula (PT) também tinha programado uma visita oficial ao país, após o adiamento. O pedido do governador Jerônimo à ALBA (Assembleia Legislativa da Bahia) para estender o período da viagem chamou a atenção não somente para os objetivos do governador (e de sua burocracia), mas também para a estratégia de negociação em bloco, envolvendo o governo estadual baiano e a União, especialmente no fechamento de acordos e parcerias. Isso não só reforça mais uma vez que a Bahia, em escala regional, é o principal parceiro da China, como também a continuidade das relações e da atuação do governo baiano em relação ao país asiático (com a diferença de que, agora, o governo dispõe de novas estruturas e ações para coordenar melhor a sua política com a China, ainda que isso esteja em caráter embrionário).


Diante disso tudo, a pergunta que fica é: o que será implementado e executado dentro dessa constelação de tratativas e de compromissos firmados na China? Essa é uma questão-chave. A outra é: o que a China trará de contribuição à industrialização baiana, dentro do desenvolvimento econômico? Será este um desenvolvimento de alta intensidade e projeção ou ficará apenas à reboque das necessidades dos capitais chineses? E uma última: qual será o papel das universidades públicas nesse processo? Serão apenas espectadoras passivas e confinadas à narrar descrições dos fenômenos desse campo, ou serão mobilizadas para intervir a favor de uma agenda econômica mais independente da Bahia?


A China, como bem trabalha Marcelo Gullo (2014), é um grande exemplo de insubordinação fundadora. Ela conseguiu, diante de diversos processos, reconstruir seu poder nacional. O Brasil, e em mais detalhe a própria Bahia, serão capazes de engendrar uma agenda econômica e política que também visam estabelecer as bases da construção de um poder autônomo? Essa é uma resposta indefinida, ainda que a própria China, guardadas as proporções particulares de seu processo histórico, aponte aspectos que possam indicar um caminho.


FONTE:


GULLO, Marcelo. A insubordinação fundadora: Breve história da construção do poder pelas nações. Florianópolis, Ed. Insular, 2014.


SOUZA, Cláudio André de. “Os 100 dias de governos Lula e Jerônimo Rodrigues”. A Tarde, 17/04/2023. Disponível em: <https://atarde.com.br/colunistas/conjunturapolitica/os-100-dias-dos-governos-de-lula-e-jeronimo-rodrigues-1226045>.

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carlosobsbahia
carlosobsbahia
06. 5. 2023

Bons questionamentos. A China será o parceiro principal em vários países. E cabe a nós o interesse em saber até onde essa parceria chegará

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