UMA CARTA DE AMOR À UFBA E À CIÊNCIA!!!





Muitos pensam que a capacidade crítica e reflexiva, assim como a postura de acolher a contingência, o outro e o debate, é alguma energia interna e bem intencionada de pessoas com mente aberta, como defendem os liberais, sejam de direita ou esquerda. O que eles não percebem é o quanto a capacidade de reflexão e diálogo é um fenômeno externo, presente no próprio mundo, produzido apenas graças a um espaço de resistências, encontros e até frustrações, a exemplo da esfera acadêmica e científica. Ela impede que eu e minhas preciosas ideias saiam do controle, em um delírio narcisista perigoso, e se apoderem do mundo e das próprias circunstâncias. Nós cientistas somos críticos não por mérito, por inteligência, muito menos por razões éticas, mas porque o mundo não nos deixa em paz, porque enfrentamos a resistência dos nossos pares, assim como de outras circunstâncias pelo caminho, como bancas, congressos e comitês, ou seja, uma série de elementos que apontam os nossos erros e nos forçam a ir além.


Se eu quiser um artigo publicado, não basta apenas "querer", não basta apenas “postar”, como acontece no narcisismo das redes sociais, já que o mundo não é uma simples extensão do meu desejo. Ainda que não queira, eu devo seguir necessariamente um circuito longo, cansativo e frustrante de avaliações, críticas e análises. Muitos de meus artigos publicados, por exemplo, levaram mais de um ano antes da publicação ser feita e avaliada pelos pareceristas. Da mesma forma, meu diploma de mestrado e doutorado não foram entregues no ritmo da minha demanda, mas conforme a temporalidade do campo científico, além das decisões de uma banca especializada. Em outras palavras, se o pensamento é deixado de forma espontânea, sem restrições, a não ser em um fluxo descontrolado da minha própria vontade, com apenas um EU SOBERANO de fundo, a paranoia é o único destino, afinal todos amam a conveniência, o tão famoso viés de confirmação. Ninguém vai comprometer, por livre e espontânea escolha, suas próprias convicções, principalmente quando elas estruturam nosso mundo. Isso significa que nenhum indivíduo é, de fato, crítico, muito menos confiável, mas sim a rede institucional que torna a ciência um espaço sério de investigação e diálogos.

Já que não passo pela análise dos pares, já que não encontro resistências pelo caminho, o mundo se apresenta como um prolongamento das minhas cadeias de significantes, despencando em um claro perfil paranoico. O principal problema de fundamentalistas, sejam eles políticos ou religiosos, não é epistêmico (falta de conhecimento) ou ético (falta de caráter), mas estético, entendido aqui como a impossibilidade de se afetar com um mundo pulsante. Eles são capturados pelas próprias especulações, presos pela própria linguagem, escravos dos próprios ruídos que saem de suas bocas. Essas figuras, portanto, além de um grande perigo ao espaço democrático, são também um reflexo de todos aqueles que não acolhem o campo científico, ou até mesmo zombam de sua "lentidão" e "formalidade", cobrando quase sempre "urgência, "pressa", como se as ciências fossem um tipo de fastfood qualquer. Embora não seja neutra, embora tenha como propósito atender as pessoas e outras instituições, a ciência tem sua própria temporalidade, com regras específicas, com um ritmo próprio. Ritmo esse que não se dissolve no pragmatismo da vida cotidiana ou nas fronteiras de um ego guloso.


Observem, mais uma vez, que o problema de um paranoico não é simplesmente de caráter, como também não é um simples detalhe epistêmico, mas a mera existência em um mundo sem objetividade, como diria Latour, ou seja, um espaço onde os objetos não objetam, não resistem, não escapam. Todos nós somos vítimas de uma estrutura de linguagem paranoica se não encontramos obstáculos, se não encontramos o OUTRO concreto diante de nós. O falibilismo de Popper é uma ficção, ao menos da forma liberal como foi pensada. A estrutura falibilista não está na teoria, muito menos nos indivíduos que a manipula, mas no campo de relações, na resistência exercida por um outro que me ultrapassa, que resiste aos golpes do meu desejo. Sem essa característica, não apenas o pensamento científico não existe, mas o próprio campo democrático desaparece por completo. O outro é sempre a condição da minha criticidade e não o meu próprio eu enquanto núcleo incrível e super legal. Esse outro concreto, transbordante, resistente, é o ponto de partida do meu próprio pensamento. Na verdade, o meu pensamento é o próprio outro. Graças aos meus pares, às revisões, aos congressos, graças aos inúmeros circuitos que filtram, controlam e limitam nosso narciso, somos capazes de fazer ciência e produzir uma linguagem séria.


O falibilismo deve ser pensado não de forma epistemológica, como uma característica interna de teorias, como imaginava Popper, mas uma matriz institucional, presente na dinâmica interna dos próprios circuitos acadêmicos. Um paranoico falha não porque é burro, não porque é mal, mas porque não participa de um espaço de resistências em um mundo que transborda, presos em suas próprias bolhas, incapazes de se afetar com a realidade ao redor. Ele constrói com as próprias mãos aquilo que Dostoiévski tanto odiava, tanto temia; ele produz verdadeiros palácios de cristal, enormes fortalezas tão perfeitas, tão sólidas, tão autosuficientes, que nada pode entrar, nem mesmo o próprio mundo. O narcisismo da paranoia é evidente quando percebemos que a realidade deixa de ser o que é e passa a se transformar em uma mera extensão de minhas demandas, preferências e até mesmo frustrações.


Como ficou claro ao longo desse ensaio, o propósito não é oferecer o autor dessas páginas como uma criatura especial que acolhe contingências sem medo, enquanto todos os outros permanecem trancafiados em uma gaiola paranoica. O objetivo, ao contrário, é mostrar que a solução do problema não se encontra em simples indivíduos, como defende a esquerda liberal com seus critérios epistêmicos e éticos, mas em uma rede complexa de humanos e não humanos. A saída, portanto, é sempre coletiva, jamais dispersa e atomizada. Em outras palavras, precisamos menos de pessoas com mente aberta e mais de atmosferas complexas, descentradas e plurais. Por esse motivo, a ciência e os espaços universitários precisam ser celebrados e defendidos a qualquer preço. Eles são a garantia da minha humildade, a única chance de respiro em um mundo repleto de conveniências, assim como de um ego também conveniente. Sem a ciência, sem as universidades, estamos soltos à deriva nas redes sociais, ao sabor de algoritmos narcisistas que me fazem acreditar na minha onipotência e onisciência, que apenas reforçam a ficção de um EU SOBERANO.





Referência da imagem:

https://aloalobahia.com/notas/ufba-figura-na-lista-das-melhores-universidades-do-mundo-vem-saber

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