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VINI JÚNIOR É MUITO GRANDE!






O que vem ocorrendo com o jogador brasileiro, Vinícius Júnior, atleta do maior clube de futebol do mundo, o Real Madrid, na Espanha, é um racismo que escancara um duplo comportamento: a ação explícita, um tipo de comportamento abertamente visível, e uma ação implícita, naturalizada, de um tipo de racismo subjetivo, sutil. Na verdade, há um racismo estrutural que molda a subjetividade do povo espanhol. Mas, diferente do Brasil, a Espanha, isolada politicamente e socialmente do mundo, no período do franquismo, de 1939 a 1975, numa ditadura de matriz fascista, não discutiu abertamente o problema do racismo cotidiano, seja nos grupos de extrema direita, ou em pessoas desvinculadas de organizações ideológicas, e muito menos em suas instituições, a exemplo da imprensa tradicional e do Parlamento. O caso é muito sério.


Eles colocam a culpa dos atos racistas, dos torcedores espanhóis, no jeito provocador de jogar, porém ofensivo, e comemorar do atacante brasileiro. Ou seja, Vinícius Júnior é visto como um esportista incentivador automático da manifestação racista. Colocam, portanto, a culpa na vítima. Mas isso é falso. Ninguém vira racista de uma hora para outra só porque não gosta de ver dribles e comemorações dançantes de gols. Não insultem nossa inteligência! O racismo já está impregnado na pessoa que grita “mono”, “negro de mierda”. Sempre esteve lá. Outra constatação, a imprensa equiparou a provocação de Vini ao clube do Valencia, a respeito de uma possível queda à segunda divisão, com o racismo correspondente da torcida. Ou seja, ofender a dignidade da pessoa humana, sua honra e sua integridade moral equivale a uma provocação desportiva. Esse é o buraco em que a cultura espanhola está metida!


O atacante brasileiro está mostrando para os espanhóis, numa espécie de autoanálise coletiva, bem ao estilo psicanalítico, e aos olhos do mundo, a urgência de encarar o problema social, pois ele é real e cruel.


Quais serão os meios eficazes de combater isso? A questão foi para o campo diplomático, pois até o presidente do Brasil se manifestou na reunião do G7, obrigando as autoridades espanholas, como o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, a se pronunciar mundialmente. Ou seja, virou um caso político entre países. Santander e Puma, patrocinadores de La Liga, tiveram também que se pronunciar contra o racismo. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, igualmente foi incitado a falar e externar medidas duras. E o Real Madrid (até que enfim?) entrou com ação frente ao Ministério Público da Espanha, e tem dito não mais admitir atitudes racistas contra jogadores do seu clube nos estádios de futebol. E, também, já se fala de tipificar especificamente o racismo no código penal no país, já existente em outras Nações.


Por que o mundo já não é mais como antes? Porque vivemos em plena Era da globalização, da tecnologia digital e da força das vozes dos que sempre foram subordinados e invisibilizados pelos padrões dominantes de Poder. As situações vividas aqui ou acolá não ficam mais localizadas: tem repercussão global. E, mesmo sendo um país muito racista, o Brasil e suas personalidades, ativistas e movimentos sociais foram muito importantes ao mobilizar as redes e cobrar das autoridades competentes do país europeu medidas enérgicas.


Não tem jeito: o Espírito da Época – Zeitgeist - é a transparência. A pessoa não mais consegue disfarçar seu preconceito e todas as suas discriminações latentes: racial, sexual, étnico, gênero. Tudo que estava no subsolo não consegue mais ficar por lá: é estimulado a aparecer. E, muito do que estava lá escondido é podre, asqueroso, vil. E essa é a novidade deste século.


As últimas notícias é de que anularam o cartão vermelho que Vini tomou durante a partida, algo realmente inédito; multaram o clube de Valencia em 45 mil euros (pena leve) e um dos setores do Estádio de Mestalla, denominado Mario Kempes, será fechado por cinco jogos. Houve algum avanço.

Vinícius Júnior é muito grande, não porque é só um craque de futebol – certamente a maior joia da equipe de Madri-, mas porque, saiba ele ou não, já entrou para a História como alguém que apontou e colocou uma grande parte da sociedade espanhola na frente do espelho e no divã coletivo. E conseguiu colocar medo num país que, não sejamos ingênuos, vive muito do turismo e de uma boa imagem para o planeta, e não quer ser associado a uma Nação conivente e abraçada com a imundice e a aberração imoral do racismo.




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