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VIROU PASSEIO: UM PAÍS QUE EM DEZ ANOS AINDA NÃO SE RECUPEROU DO 7 X 1




Se existe algo que une (ou unia) a tão diversificada população brasileira é (ou era) a seleção. Acontece que o impacto civilizatório do 7x1, que completou 10 anos em 8 de julho, permanece sentido até hoje.


Sinto como se aquele ar de incredulidade e apatia dos atletas emanasse das televisões, caísse sobre a gente e não tivesse saído mais. De 2014 para cá, presenciamos quase sem nenhuma capacidade de reação: golpe parlamentar, teto de gastos, orçamento secreto, um imbecil fascistoide democraticamente eleito e um retorno do petismo totalmente capitulado pela sanha neoliberal.


É claro que a inexistência do 7x1 não afetaria (ou afetaria?) o rumo da história. Mas me parece que o vexame contribuiu para essa baixa estima danada entre a gente que fez a direta se radicalizar, a esquerda dormir no ponto, o país se estagnar e, em muitos pontos, piorar em qualidade de vida nos últimos 10 anos.


Pensando em retrospectiva em todos os desmontes sociais da década, a narração “lá vem mais um… virou passeio…lá vem eles de novo, olha só que absurdo” me soa profética, quase apocalíptica. Várias conquistas tiradas em um piscar de olhos e uma falta de perspectiva absurda perante o futuro.


E junto ao rebaixamento do Brasil como nação que pleiteava ser grande, uma cisão tremenda do senso de identidade nacional. Querendo ou não, o futebol é como que o único elemento histórico de coesão e orgulho do brasileiro. A gente nunca teve muitos motivos para se orgulhar perante o mundo (não por não sermos foda, mas falo de conquistas e reconhecimento), a não ser os poucos anos de Senna e o futebol. O esporte mais popular do mundo e nós pentacampeões, com Pelé, Garrincha, Zico, Ronaldo Fenômeno e tantos mais.


Por hora, existe um vácuo dessa tal identidade nacional que não me parece que será novamente preenchido pelo futebol, pelo menos não tão cedo. Também não sei se virá outro elemento cultural no lugar, já que tudo permanece tão polarizado.


Mas todo esse movimento de fragmentação não é necessariamente ruim. Sabemos como elementos unificadores também podem servir a movimentos nefastos, como a consolidação da Ditadura pós AI 5 impulsionada pelo tricampeonato de 70. Hoje em dia, é super positiva a politização com o “menino” Ney, e talvez se ele entregasse na seleção tudo o que se espera dele, seria mais difícil problematizar as atitudes do jogador como pessoa.


Por isso que não é a polarização em si mesma o problema, mas a dificuldade de lutar em um ambiente polarizado. É como se a esquerda permanecesse atordoada e chorosa como David Luiz – ou mesmo morta, como meu colega Carlos Cardoso trouxe nesse texto do Soteprososa. Já a direta são os alemães tocando e fazendo um gol atrás do outro, mas sem tirar o pé por vontade própria, só dando pequenos recuos com a reação popular, como no caso da PL 1904/24. 


Melhor é a gente admitir: o país do futebol ruiu, a democracia burguesa está ruindo. Vini JR. não vai resgatar a seleção, governo Lula não vai unir e reconstruir novamente o Brasil. A direita está dando respostas (terríveis, mentirosas, mas dando respostas) ao vácuo de orgulho do brasileiro consigo mesmo, enquanto a esquerda no poder tenta o mesmo esquema de conciliação de classes que já ruiu anteriormente e promete crescer com arcabouço fiscal, sem enfrentar a autonomia do Banco Central e seguindo as antigas cartilhas neoliberais de sempre.


Se o país se fragmentou e polarizou tudo, que a gente assuma nosso lado e comece a construir uma perspectiva de futuro. Nisso, o 7x1 pode servir não mais como metáfora de nossa derrota política, mas como um sintoma do quão errado estamos investindo nosso horizonte ao tentar resgatar modelos caducados. O país do futebol e o país de todos virou um mito. A direta está super decidida em nos transformar na nação do pasto, da bala e da bíblia. E qual o país que nós queremos ser?


FONTE DA IMAGEM:



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Achei perspicaz sua avaliação do 7x1 juntando a ideia da situação que vivemos atualmente. Cabe a nós cidadãos lutar dia após dia pela reversão deste quadro tão nefasto que se pinta sobre a vida brasileira. Temos poderes de pesos e contra-pesos que as vezes nos deixam tristes com as decisões. Acredito no potencial da nova geração, partindo do ponto que nos como progenitores devemos incentiva-los a praticar o bem, respeitando o próximo e também a prática esportiva, porque somente o poder público não parece bastante para colhermos medalhas no futuro e títulos mundiais. Queria ver um novo Pelé ou Senna. Por mim basta 7x 1 nunca mais!

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Obrigado pelo comentário. Tb torço por novos Senas e Peles, mas para além do esporte, e que a gente com menos talento seja aquele volante raçudo e esforçado

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Felipe, primeiro, muito obrigada pela partilha da sua escrita!! Ela é incrivelmente instigante. E como segundo ponto, comento que sim, a coisa está desmotivante. O esporte era para ser o nosso circo para esquecermos pelo menos um pouco de quão duro, frio e cuspido está o nosso pão, mas nem ele está salvando. Não sou muito fã de futebol, mas sei o quão ele é significante pro Brasil enquanto nação. E saber, por exemplo, que teremos uma seleção aquecedora de almas e peitos brasileiros não se encontrará nas Olimpíadas, seleção essa que trazia uma esperança de 11 medalhistas de ouro, é bem frustrante. Independente da minha relação com o futebol, meu coração se aqueceria com cada medalha brilhando alí. Porém,…

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Gratidão pela leitura e comentário, Carol. Acho q a gente como brasileiro deve buscar novos signos de identidade e orgulho nacional. Essa seleção há tempos deixou de ter a cara de povo para virar o estandarte da CBF e sua máfia... Não lamente pela falta da seleção nas olimpíadas, tem o time das mulheres, Raissa Leal, Beatriz Ferreira (baiana!) e mais um monte de gente foda pra gente torcer :)

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carlosobsbahia
carlosobsbahia
há 4 dias

De fato,Felipe,há uma correspondência sim entre a goleada e acontecimentos posteriores que nos deixaram incrédulos. Sem falar que a própria seleção perdeu a identificação com a torcida brasileira. Eu mesmo,que sempre acompanhei futebol,desconheço boa parte da atual seleção.

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Os caras saem daqui com 20, 18 anos... Não tem como acompanhar meamo

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