Você nomeia o outro a partir da sua própria bolha?



Uma vez alguém disse que eu era arisca, mas que entendia meu jeito, porque todas as pessoas do Subúrbio são assim.


Era uma graduação de Humanas, com pessoas descoladas, desconstruidonas e que discutiam Hobsbawm, Braudel, Walter Benjamim, Beauvoir e a arte de Caravaggio enquanto bebiam Cravinho e cerveja. Foi ali, nos corredores encharcados de eurocentrismo da universidade que encontrei pessoas definindo indivíduos de uma localidade, como uma massa uniforme e homogênea. Isso era dito de forma tão natural que nem percebiam o parentesco desse discurso com o: “Na favela só tem bandido”. Foi assim também, que a Europa ensinou o mundo a enxergar a África.


E por falar em África, muita gente ainda acha que se trata de um país, assim como olham pra todo o Subúrbio Ferroviário de Salvador como um bairro. Lembrei-me de Chimamanda Ngozi falando sobre o perigo da história única:


“Todas essas histórias me fazem quem eu sou. Mas insistir só nas histórias negativas é simplificar minha experiência e não olhar para as muitas outras histórias que me formaram.

A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história.”


A escritora também aborda a questão da história única encontrar seu alicerce nas estruturas de poder e explica que “poder é a habilidade não apenas de contar a história de outra pessoa, mas de fazer que ela seja sua história definitiva.”


Com isso, não nego os diversos problemas enfrentados pelos bairros que compõem o Subúrbio Ferroviário e a violência pode estar entre eles. Mas essa, não é sua única historia e não define seus moradores é apenas o recorte que os jornais fazem para alimentar a audiência.


Agora, com as páginas nas redes sociais especializadas nas belezas dos cantos de cá, ficou na moda passear por essas bandas. Tem pessoas de áreas centrais da cidade que comem no Pirão do Renato, no Boca de Galinha, freqüentam Neinha ou a Cabana do Camarão, pegam um barco em São Tomé de Paripe e desembarcam em Itamoabo, para curtir a Ilha de Maré, mas não saem de suas bolhas. Alguns têm monografias, dissertações e todas as respostas sobre nós, mas sem nós.


Ah, Ilha de Maré tem Praia Grande, Santana… Quilombos sobre o Mar. Mas é a Praia das Neves que é escolhida para ficar bonita no feed.



Fonte


Chimamanda Ngozi Adichie: O perigo da história única, disponível em:

https://www.ted.com/talks/chimamanda_ngozi_adichie_the_danger_of_a_single_story/transcript?language=pt

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