O veganismo é para todos?Observações


Segundo reportagem do jornal O Estado de São Paulo, já passam de cinco milhões o número de adeptos do veganismo – prática que consiste em não consumir de modo algum qualquer produto de origem animal. Não apenas ingerir: não se adquire nada que advenha de algum mamífero, ave, peixe, ou qualquer outra espécie. Com isso, aumenta também os estabelecimentos que servem um cardápio variado para atender esse público crescente, pois especialistas e pesquisadores já supõem que seja uma tendência gradativa.


Sabemos que se alimentar de vegetais e tubérculos sai mais barato que consumir carnes em geral. Porém, há um outro lado a se observar. Em um artigo publicado num site voltado para os adeptos do veganismo, constatou-se que 90% dos restaurantes de Brasília que atendem esse público estão situados no Plano Piloto, considerada área nobre da capital federal. Isso demonstra que os consumidores vegans estariam no topo da camada social, mais precisamente nas elites e classes médias altas. E o valor das mercadorias oferecidas não devem ser acessíveis a maioria dos habitantes e trabalhadores de lá. Isso já cria a situação a ser discutida aqui: o veganismo como uma questão de estrato social.

Apesar de não ter encontrado nas minhas pesquisas nenhum estudo que pudesse fazer uma relação estatística direta entre consumidores com alta remuneração salarial e práticas veganas, é possível sugerir que os indivíduos que seguem essa filosofia realizam atividades intelectuais, burocráticas ou artísticas. E, convenhamos, será difícil essa prática se espalhar em outros estamentos sociais.


Vejamos. Uma pessoa pobre ou que vive financeiramente regrada se alimenta do que estiver a seu alcance. Daí já podemos inferir que alimentação saudável é algo em segundo, terceiro ou quarto plano. Alimentos processados (salsicha, mortadela, nuggets,etc.) acabam participando ativamente da dieta de grande parte da população por questões de economia. E os problemas de saúde só se estabelecem e crescem. Mas poderíamos pensar “ora, verduras e legumes podem ser plantados em roças e quintais. Hortas comunitárias resolveriam o problema para essa população”. É mesmo? Simples assim né? Aí entro na segunda parte do artigo.


É fácil convencer operários da construção civil, empregadas domésticas, carregadores de caminhão, funcionários da indústria pesada, estivadores, boias-frias e outros empregados que ganham o pão de cada dia exercendo trabalho braçal a uma dieta leguminosa e coloridinha? Nem respondo que não. Melhor capitar o histórico cultural da alimentação na vida de nossos antepassados e ver que o imbróglio é real. Nossa herança gastronômica tem forte presença étnica, tanto de indígenas, portugueses, e sobretudo africanos. Comer não era apenas uma necessidade fisiológica, mas muitas vezes um ato cerimonial voltado para ritos, crenças e comemorações familiares, comunitárias e cívicas. Comer está ligado ao conviver e ao regozijo por meio da fartura. Não podemos, portanto, centralizar o discurso apenas nos quesitos nutricionais e nutritivos.


Retornando ao nosso cruel dia-a-dia estafante, uma equipe de pedreiros comer uma feijoada completa, com osso de patinho, fato, e o escambau, ou feirantes se alimentarem de uma volumosa rabada ou um mocotó delirante não é apenas estar com uma dieta desregulada e altamente calórica que lhe será prejudicial por prazer e gulodice. Aquela comida oferece a energia necessária para encarar a utilização da força para concretizar tarefas que exigem músculos e velocidade. Tem “sustança” nos pratos consumidos. Idiossincr