As eleições de Saturnália


"Ave, Caesar! Io, Saturnalia!", quadro de Sir Lawrence Alma-Tadema, 1880.

Datado por volta do último século antes de Cristo, o Festival de Saturnália era uma comemoração romana em homenagem ao deus Saturno (ou Cronos para os gregos), que servia para celebrar o fim da colheita. Além dos sacrifícios feitos, banquetes ofertados e presentes trocados, a característica distintiva deste festival era – além do período em que patrícios e escravos ficavam em pé de igualdade – o arredamento temporário das leis em Roma.


Com isso, além da quebra temporária da hierarquia social, o fechamento de tribunais e proibição da aplicação da justiça, todos os crimes eram permitidos, inclusive os assassinatos. A primeira lembrança que esse festival me remete é ao famoso estado de natureza, que concebido pelo filósofo e matemático – que segundo um saudoso professor, deveria ter sua obra magna, O Leviatã, lida de joelhos e sua imagem carregada em um andor – Thomas Hobbes (1588-1679), nada mais seria uma situação hipotética, onde a única instância recursal para qualquer um seria a sua própria força. Para quem não é do ramo, basta pensar quando teve greve da polícia militar.


Com efeito, a segunda lembrança – infelizmente mais recente – é a das eleições deste ano. Óbvio que chega a ser injusto com o pleito eleitoral, principalmente porque o cardápio de absurdos que nos tem enjoado – quando menos, enojado – não é de agora. Não esqueço a definição procedimental de democracia, que a define basicamente como uma competição livre das elites políticas pelo voto, igualmente livre, do eleitor. E quando se trata de competição pelo poder, ninguém entra para perder. Mas como nos alerta o poeta romano, est modus in rebus – há um limite nas coisas.


O agora eleito presidente, Jair Bolsonaro, vem nos agraciando com um sortilégio de ofensas, como fez na sessão de admissibilidade do processo de afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff, em que saudou a memória do coronel Brilhante Ustra, eminente torturador nos idos da ditadura militar. Nas eleições, não faltaram frases e declarações odientas, tratando