A PATOLOGIA DA BOA INTENÇÃO: Quando a resistência se torna narcisismo




Em nosso mundo binário, onde a matemática se limita ao jogo simplificado entre 0 e 1, sem nada mais complexo do que isso, ou você respeita alguém (0) ou não respeita (1), simples assim. Existem duas opções óbvias e transparentes, além de disponíveis, ao menos quando se é alguém de bom coração Mas e se a coisa for mais sutil do que isso? Seria possível um tipo de desrespeito respeitoso? No ensaio de hoje vamos cruzar as fronteiras da conveniência, saindo um pouco daquilo que a maioria quer ouvir, ao mesmo tempo que arriscando um mergulho em águas nada cristalinas. Antes de qualquer salto precipitado em argumentos e teorias, vamos a uma pequena história recente, um episódio que marcou minha última semana e que precisa sair logo do meu corpo, caso contrário posso ter indigestão.


Uma bela manhã de sexta-feira, quando surfava inocentemente pelo Facebook, observando as postagens da minha rede de AMIGOS, quase sempre cheias de sorrisos retocados de boa intenção, memes e mensagens de autoajuda, sem querer tropecei em uma postagem curiosa de um professor da minha universidade (vou chamar aqui de Túlio). Naquele dia específico, Túlio desabafou sobre os problemas do governo Bolsonaro, além de sugerir a existência de um perigo grave nos bastidores, um risco dentro da própria democracia (postura essa que sempre teve ao longo dos anos, ao menos desde o começo de sua carreira). De repente, no meio de uma enxurrada de joinhas, corações e frases de incentivo, um aluno aparece na caixa de comentários, perde a paciência e deixa escorrer seu veneno ressentido por entre os dedos. Como resposta a esse exagero, quase uma agressão, Túlio, bastante ofendido, foi bem simples e direto ao reagir ao veneno daquele estudante. Ele basicamente escreveu que jamais abaixaria a cabeça ao fascismo de alguns alunos e que sempre iria continuar na luta, porque é essa sua meta de vida. Depois desse episódio polêmico, e que durou algumas outras trocas de farpa entre Túlio e o aluno, eu conversei com alguns colegas sobre o que tinha acontecido. Assim como eu, eles concordaram que a postura do estudante foi desrespeitosa, além de um gesto desnecessário e violento. Mas ao mesmo tempo senti algo estranho, como se alguma informação faltasse nessa história, tendo um tipo de mancha no canto despercebido de tanta polêmica. Alguma coisa começou a cheirar mal nesse cenário dramático, o que de forma nenhuma altera o fato básico de que a postura do aluno foi desrespeitosa, agressiva e desnecessária. Mas e desde quando fatos explicam alguma coisa?


Ao observar o padrão de comportamento de Túlio, e das postagens que normalmente fazia ao longo dos anos, eu percebi algo mais, algo além de uma simples linha ingênua entre respeito e desrespeito. Eu percebi que o comentário desrespeitoso do aluno acabou reforçando o argumento inicial do professor, como se a atitude do estudante já tivesse sido prevista por Túlio antes mesmo dela surgir, quase como se fosse um gesto dialético onde a tese já contém dentro de si a antítese. Em outras palavras, a postagem de Túlio foi elaborada como uma forma de provocação, e ao mesmo tempo uma armadilha. Ao ser pego pela armadilha, o aluno desrespeitoso, de forma indireta, não percebeu que fez uma homenagem ao professor, já que o desrespeito se transformou numa espécie de incentivo da postagem original. Ou seja, o aluno fez de si mesmo uma extensão dos argumentos do professor, servindo como um pretexto. Como resultado, postagem e crítica desrespeitosa se tornam uma única entidade, não sendo simples opostos.