A GHOST HISTORY: A FILOSOFIA COMO VIDA ALÉM DA VIDA. PARTE II


Cá estamos nós continuando a aventura de resenhar uma obra tão rica quanto A Ghost Story; sim, falo nós, e isto porque, à parte qualquer clichê, de fato vocês me inspiram, à medida que aceitam entrar nessa viagem comigo através da leitura atenta de cada passagem ou do simples despertar da vontade de ver o longa-metragem a partir do desnudar deste humilde texto. Sigamos, então!


Após buscar tocar a vida e tentar outros relacionamentos – todos frustrados –, M enfim decide sair daquela casa, o que é por natureza o método mais óbvio para se tentar esquecer as fortes lembranças vividas com alguém num lugar específico. Mas antes de deixar aquele lar, dois pontos importantes merecem ser aqui destacados. O primeiro é a queda de um livro de Virginia Woolf da estante da sala – na verdade foi o espírito de C quem o jogou abaixo, num ataque de ciúmes em decorrência de ter observado os vários relacionamentos vividos pela amada após tê-la deixado viúva.


As frases que M lê no livro, após pegá-lo do chão, inspiram-na a sair de casa e a deixar em seu lugar no passado o que viveu, experimentou e construiu com seu falecido marido. Ela então escreve um bilhetinho com uma das frases do livro de Woolf e põe numa fresta na madeira da parede da sala. C passa a tentar retirar esse bilhetinho durante todos os dias que se passam após a saída de M daquela casa. Nessa passagem, Lowery brinca mais uma vez com a relação material-imaterial, ao nos apresentar um espírito que, mesmo estando no plano pós-material, não consegue retirar um pequeno pedaço de papel de uma fresta, o que de imediato nos sugere que seu apego à carnalidade é tão profundo a ponto de, mesmo sendo um ente espiritual, permanecer capaz de sofrer certas limitações físicas típicas do mundo terreno.


Os dias se seguem sem que C consiga retirar o bilhete. E logo outra família passa a morar na casa, aparentemente uma família de origem imigrante, posto se comunicar em espanhol. Revoltado devido à chegada de novos moradores, C logo começa a amedrontar o casal de filhos da aparentemente mãe solteira que nitidamente batalha para dar uma criação decente aos seus pimpolhos. Nesta passagem é interessante notarmos a profunda humanidade dos personagens de Lowery, indivíduos suscetíveis a momentos de fúria, ciúmes, egoísmo, rancor, o que é flagrante nessa atitude de C, um músico sofisticado e marido amoroso que opta por apavorar duas criancinhas e sua mãe somente pelo fato de se achar dono e parte daquele lugar, por não admitir, mesmo noutro plano, dividi-lo com ninguém.


Outra passagem importante do filme em que a Filosofia é tratada de modo mais direto ocorre quando, já após a mãe com as duas crianças terem mudado daquele lar em decorrência das ações de C voltadas a assombrá-los, uma turma de jovens trava uma conversa em meio a uma festa promovida pelos novos moradores (não fica claro quem são estes últimos). No bate-papo que se dá numa mesa, regado a bebidas e música dançante, como uma boa festa deve ser, um dos participantes expõe seu ponto de vista sobre a finitude e a efemeridade da vida humana em comparação à grandeza e às dimensões cósmicas de tempo e espaço. C observa toda a conversa e, ao final, a iluminação da lâmpada que está acima da mesa começa a tremular, sugerindo alguma espécie de excitação concordante do espírito protagonista com o desfecho da conversa.


Os novos moradores também vão embora, e após a passagem de mais dias, C, enfim, consegue retirar o bilhetinho deixado na parede por M. Entretanto, no momento em que isso ocorre, a parede frontal da casa, construída em madeira, uma tradição em muitos lugares dos Estados Unidos, cai na sala diante de uma observação atônita de C – é impressionante como, mesmo através de uma atuação debaixo de um lençol, um ator é capaz de expressar tamanha genialidade, ou seja, mesmo sem expor a face é possível demonstrar um talento diferenciado. Por essas e outras, considero o talento de Casey superior ao de seu irmão Ben, tendo sido o seu Oscar como ator principal por Manchester à Beira-Mar, em 2016, mais que justo.


Entre a saída de M da casa e a destruição desta e da casa vizinha por tratores, C entra em contato com o espírito de uma mulher, que também aparece a quem vê o filme sob um lençol. Como C, ela vive presa à casa ao lado, aparentemente abandonada. Os dois se olham, mas nunca se aproximam, até o momento da derrubada das casas, no qual, próximo a C, o espírito da moça finalmente opta por abandonar o plano terreno, o que é sinalizado pelo esvaziamento e consequente queda do lençol. Mas ele, ao contrário, teima em permanecer sobre os escombros. Então passa a ver uma construção de um grande prédio empresarial ali no mesmo local em que se encontravam os escombros da casa onde vivera e da qual teimava em não se afastar, sinalizando o futuro literalmente sobre os escombros do passado. C não suporta viver onde para ele deixara de ser um lugar para se tornar lembranças e infinita melancolia, afinal, em seu modo de enxergar as coisas, ele era parte daquele ambiente ao ser parte daquela casa, e se ela não mais existia, era hora de ele morrer pela segunda vez. E tentou tal proeza ao se lançar do alto do empresarial, agora já plenamente construído e funcionando.


Ao tocar o chão, após se lançar do edifício que no futuro toma o lugar de sua antiga morada, C levanta e percebe que permanece no mesmo local, mas séculos atrás, bem antes da construção da casa pela qual nutria tanto apego. Numa campina, observa uma família de colonos aventureiros ao lado de sua charrete, ao fixarem local de estadia e prepararem o alimento. Dias depois, percebe cânticos indígenas se distanciando do local e os corpos do pai e de uma das filhas mortos com flechas cravadas. Esse é um momento em que o diretor novamente explora a complexidade dos sentimentos de quem vê sua obra: somos capazes de sentir compaixão não somente pela filhinha de uns quatro anos de idade morta pelos índios, mas também pelo pai, mesmo sabendo que este é parte empreendedora da missão brutal de imposição física e cultural de um processo civilizatório sobre os nativos.


Nesse vai e vem do tempo, que na verdade é apresentado de modo muito interessante por Lowery, ao utilizar cadência, aceleração, ida ao passado e ao futuro como num fluxo contingente de múltiplos sentidos a extrapolarem as mediações de nossas percepções mais imediatas, apresenta-se ao público, através de recurso fantasmagórico visualmente caricato, não só o para além da vida carnal, mas, e por que não, o para além do bem e do mal. E é neste sentido que se dá a passagem em que, aborrecido e sentado ao banco do piano que tanto amava e que recebera ao comprarem a casa, C estapeia uma parte do instrumento, acima das teclas, e então voltamos a uma das primeiras cenas do filme, em que o casal sai para olhar que barulho era aquele, sem, no entanto, chegar a conclusão alguma. Ele se viu e viu sua amada juntos, no máximo ponto de referência quântica da película, em que uma consciência se aproxima dela mesma fora das amarras físicas do corpo, enquanto este mesmo corpo limita a percepção dessa consciência acerca de sua replicação para além da matéria.


O filme chega ao seu final – não é o tipo de obra que caberia o termo final, já que fala da existência para além da finitude terrena, mas, na falta de outro... – com C lendo o bilhete, desta vez sem uma parede caindo na sala a atrapalhá-lo, e aceitando deixar esse mundo, após finalizar a leitura, com seu lençol esvaziando e indo ao chão daquela casa já abandonada, e que já não havia sido vendida a uma grande construtora, como na outra passagem, em mais uma sacada do diretor em termos de reforçar a lógica quântica das múltiplas realidades e universos paralelos. A direção demonstrou muito domínio sobre a mensagem filosófica do filme, do início ao fim.


É uma obra bastante original, é uma das opiniões inevitáveis ao se observar o letreiro final subindo. E se há uma comparação adequada entre este filme independente genial e outro de viés comercial, por óbvio a primeira e mais evidente é com Ghost, o clássico do início dos anos 1990, filme em que o diretor Jerry Zucker também foi muito seguro quanto ao seu encaminhamento, sem querer aqui entrar no mérito sobre se essa é apenas uma obra água com açúcar ou uma interessante trama. Zucker foi eficiente naquilo a que se propôs, e isso é inegável.


A meu ver, a diferença mais óbvia entre Ghost e A Ghost Story é de cunho moral. No clássico estrelado por Patrick Swayze e Demi Moore nós temos personagens do bem vivendo o amor perfeito e separados pela maldade de um assassino frio e cruel, enquanto na obra de David Lowery, o que vemos é o acaso cumprindo sua função de frieza e indiferença e tirando a vida de um dos protagonistas, que insiste em permanecer por aqui em espírito não para se vingar de alguém, pois não há como se vingar de tão poderoso imponderável, mas antes para tentar continuar experimentando um pertencimento que só existia enquanto falsa sensação, uma ilusão repetidamente desmentida pela grandeza e a falta de teleologia do cosmos, algo impresso em cada passagem do longa e sobre o qual somente a Filosofia é capaz de versar com propriedade.


E onde houver a Filosofia, ela sempre nos será uma excelente companhia, vocês não acham?



Link da imagem: https://www.techenet.com/2017/11/cinema-casa-a-ghost-story-david-lowery/


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