6 MANEIRAS DE DESCOBRIR SE O SEU VIZINHO É UM CONSPIRACIONISTA?




Quando você ouve a frase “teorias da conspiração”, o que passa pela sua cabeça? Provavelmente coisas como “terraplanismo”, “reptilianos”, “movimentos anti-vacina”, além de interpretações políticas bizarras, como o marxismo cultural criado pelo Olavo de Carvalho no Brasil ou pelo Jordan Peterson, nos EUA. Embora seja tentador seguir esse caminho previsível, é preciso deixar claro que existem, SIM, conspirações. A hipótese de uma conspiração operando por aí não é apenas plausível, como óbvia, pelo menos em um mundo tão competitivo como o nosso. Por exemplo, um juiz de futebol pode ter sido corrompido pelos interesses secretos de um grupo de empresários. Um canal de TV pode ser governado por um conjunto específico de sujeitos e ideias. Uma marca famosa pode ter interesses e estratégias ocultas nos bastidores de criação do seu produto. Por esse motivo, gostaria de sugerir nessas linhas uma rápida fronteira entre conspiração e conspiracionismo, já que considero os dois fenômenos diferentes, com características únicas. Esse segundo tipo, aquele com o famoso “ismo” no final, é o que normalmente brota do nosso imaginário, da nossa memória coletiva, trazendo sempre uma estrutura paranoica muito clara, além de escandalosa, como acontece com os vários casos sensacionalistas que invadem a mídia e as redes sociais. Mas como diferenciar? Como estabelecer um limite seguro entre essas duas manifestações tão parecidas? Qual a diferença entre o juiz subornado e os reptilianos no poder? Existem aqui seis características que separam simples conspirações de grandes teorias paranoicas sobre o mundo.


1) O Critério Metodológico: No conspiracionismo existe uma impossibilidade da teoria ser invalidada, ou seja, em termos popperianos, uma impossibilidade do falibilismo. Nesse sentido, críticas, resistências, e outras formas de obstáculos, apenas reforçam e reproduzem a estrutura conspiracionista de fundo. Ao contrário de argumentos normais, e cadeias explicativas cotidianas, essa modalidade paranoica é completamente circular, sempre retornando a um ponto originário de reforçamento de suas premissas. Em outras palavras, tudo reproduz seus alicerces, até mesmo críticas e contradições. Diante de um terraplanista, não adianta provar que a Terra é redonda, muito menos que existem métodos confiáveis testados e replicados. A sua simples acusação, até mesmo o menor gesto de suspeita, apenas confirma os alicerces da própria teoria, da mesma forma que na psicanálise a negação da existência do inconsciente pode ser interpretado como só um mecanismo de defesa que te afasta da verdade dolorosa do próprio inconsciente.


2) O Critério Psicológico: O conspiracionismo, diferente de simples explicações, oferece ao indivíduo uma identidade, não sendo apenas um estudo ou análise sobre um fenômeno, mas algo íntimo ou até existencial. Além disso, sempre carrega traços narcisistas de fundo, ao oferecer ao indivíduo um proposito, uma função, além de toda um campo de sentido confortável. O conspiracionismo, ao contrário de simples teorias conspiratórias, não se refere ao mundo externo, mas ao próprio sujeito que a manifesta, quase como uma extensão de suas frustrações, demandas e crises. Grosso modo, as teorias do conspiracionismo são subjetivas, apenas um prolongamento de um sujeito descentrado, muitas vezes implodido. O conspiracionismo usa o mundo apenas como pretexto para reforçar certos traços psicológicos, enquanto outros arranjos teóricos (e científicos) partem do mundo enquanto tal. Em outras palavras, o terraplanismo, por exemplo, não apenas diz respeito ao formato do planeta, enquanto um dado objetivo, mas se refere também, e principalmente, ao meu papel no universo, à relevância que eu adquiro em um mundo repleto de sentido, quase sempre com um tom religioso e criacionista nos bastidores.


3) O Critério Sociológico: O conspiracionismo, ao contrário de outras explicações, tem uma abrangência muito maior, envolvendo todo um sistema compreensivo e integrado sobre o mundo. Enquanto explicações científicas se limitam a um certo setor da realidade, o conspiracionismo é mais pretensioso, cobrindo cada centímetro do universo com uma estrutura hiper-racionalizada, onde contradições jamais entram, muito menos falhas ou silêncios. Isso significa que um defensor do marxismo cultural, como Olavo de Carvalho, por exemplo, não limita seu arranjo interpretativo apenas ao universo político, mas a todas as esferas imagináveis, como a científica, econômica, midiática, religiosa, etc. No final das contas, todo um sistema coerente é formado, pelo menos do ponto de vista do conspiracionismo.


4) O Critério Ético: Enquanto em explicações científicas existe muita mais uma descrição objetiva de fatos, dissecando seus elementos, formas e contornos, como acontece em análises históricas e sociológicas, o conspiracionismo, ao contrário, resgata muito mais uma narrativa moralizante, muitas vezes uma guerra épica entre as forças do mal e do bem. Tudo se encontra dentro de um tabuleiro de combate muito bem estabelecido, em que o próprio sujeito ocupa um papel indispensável, quase sempre visto por si mesmo como um “libertador de consciências”. Olavo de Carvalho e Jordan Peterson, em suas inúmeras palestras, e livros, sempre se apresentam como emancipadores, como criaturas esclarecidas e bem intencionadas que precisam salvar o mundo de uma decadência moral perigosa.



5) O Critério Estético: Existe todo um trabalho criativo, e constante, para preservar as crenças estabelecidas no conspiracionismo, um esforço difícil até mesmo de imaginar. Embora o “paranoico” não perceba, ele lança mão de todo um jogo performático, além de um investimento de energia cotidiano, constante, caso contrário seu mundo pode ser invadido por contradições, falhas e crises em geral. Isso significa que não são simples marionetes passivas apenas reproduzindo esquemas mentais, mas sujeitos criativos sempre em alerta e em intensa vigilância. Quanto mais pretensiosa é uma estrutura de linguagem, quanto mais abrangente suas fronteiras, mais investimento psíquico e social é solicitado, caso contrário sua estrutura ideológica é comprometida por um mundo que transborda e desafia a cada segundo. Por esse motivo, não sei se vocês já repararam, defensores do marxismo cultural sempre estão publicando coisas, sejam vídeos ou textos. Nunca param de justificar; na verdade, não podem parar. Estão sempre em alerta, em constante vigilância, afinal suas teorias são muito preciosas para ficarem por aí desprotegidas.


6) Critério Epistemológico: O conspiracionismo usa a estrutura epistêmica da ciência apenas como um pretexto que reforça uma cadeia predefinida de suposições. Como é evidente nos movimentos terraplanistas, além de muitos outros, eles apenas querem o manto científico, sua legitimidade, embora sem mergulhar de cabeça nesse universo de métodos, debates, publicações, falhas, revisões, etcs. Em termos latourianos, o conspiracionismo quer apenas o glamour científico, mas sem pagar o preço por isso, quase como uma pessoa que deseja um Rolex no braço, mas prefere comprar um falsificado. Ao fazer isso o sujeito comprova que a única coisa válida é a aparência e a legitimidade da marca (ROLEX), abrindo mão de todo custo envolvido, nesse caso, o real preço do produto. Em outras palavras, no conspiracionismo a ciência é apenas uma carcaça vazia que oferece amparo epistêmico aos sentimentos, atitudes e ideias que são mobilizadas.



Referência da Imagem:


https://www.bbc.com/portuguese/internacional-49287248

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