67 (six-seven): A trend terror momentânea das escolas
- Autor(a) Convidado
- há 3 dias
- 5 min de leitura

*Naiara Siqueira Silva
Há um fenômeno infanto juvenil advindo da internet e das redes socais que adentrou as escolas com tudo: o “six-seven” (67). Os alunos, ao ouvirem esses dois números sequenciais, em língua inglesa, entram em alvoroço, repetem-nos sem parar e fazem com as mãos gestos imitando uma gangorra. O que intriga nós professores é compreender que piada é aquela.
Sabe aquela gana de professor de criança/adolescente em compreender as tendências da geração, justamente para conseguir adentrar os gostos dela? Pois bem, a atual geração de
Ao pesquisar pela internet de onde vem o “six-seven”, foi possível identificar diversas “raízes”, mas nada que se justifique. Há influenciadores que dizem que está vinculado com uma música chamada “Doot Doot” do rapper norte americano Skrilla em que ele repete “six seven” de maneira frenética e ritmada. Já há outros influenciadores que atribuem ao rapper norte americano Schiller e a uma música sua intitulada “Dut Duty 67”. Há, também, quem atribua à altura do jogador de basquete LaMelo Ball da NBA, que tem 6 pés e 7 polegadas de altura (1,98 cm). Na junção desses eventos aleatórios, há um garoto que virou a cara do meme, ao publicar um vídeo em que ele olha para a câmera e berra “six seven”.
É possível compreender que não há necessidade de encontrarmos a origem do “six seven”, pois como levantamos acima, não deve haver. Mas há, sim, a necessidade de buscar compreender como esses dois números estão gerando tantos rebuliços em uma geração inteira. E, além disso, percebemos como isso adentrou na escola e como nós, professores, somos capazes de compreender essa trend.
Durante as pesquisas sobre a origem do meme, um novo termo me foi apresentado: “brain rot”, ou em língua portuguesa cérebro pobre, cérebro queimado ou apodrecimento cerebral. Segundo o Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o termo “brain rot” é denominado como o processo de deterioração do estado mental ou intelectual pelo consumo excessivo de conteúdo online. Isso porque as redes sociais se utilizam de uma técnica intitulada “infinite scroll”, rolagem infinita em língua portuguesa, que recomenda vídeos e postagens relacionadas ao algoritmo do usuário de maneira contínua, para mantê-lo engajado e sem descanso neural. Essa estimulação libera dopamina, o neurotransmissor relacionado ao prazer. Ao estar em constante estímulo, as redes sociais intencionalmente mostram aos seus usuários a seguinte mensagem: “Olha, se prepare! Algo relacionado a você e que você gosta muito virá por aí! Fique esperto!” Então, o cérebro fica na busca constante de compensação e prazer. Praticamente como o cérebro de uma pessoa adicta. Porém curtos e de pouco ou quase nenhum rigor estético e de conteúdo, são introjetados na barra de rolagem dos usuários e consumidos sem nenhum filtro ou discernimento.
Da mesma maneira que o uso excessivo de drogas ilícitas causa danos irreversíveis para o cérebro, é possível prever alguns problemas neurais advindos dessa interação com o mundo digital e as redes sociais.
Por isso, o trocadilho “six-seven” é considerado uma “brain rot word”, uma palavra cérebro podre, termo criado para descrever gírias que surgem de forma espontânea nas redes sociais e são repetidas, sem sentido ou lógica alguma, até se tornarem populares. Quer um exemplo conhecido? “Bora Bill!” Lembram? Foi um vídeo aleatório veiculado nas redes sociais que tinha esse jargão e que “infernizou” nossas vidas tempos atrás. Pois bem, o fenômeno do “brain rot word” já aconteceu antes e como é possível imaginar, continuará a acontecer.
Aqui é importante compreender o papel do humor e que a atribuição de sentido às nossas relações sociais e interações com o mundo balizam nossa construção de identidade. Dito isso, não há necessidade de tudo estar engajado em alguma causa social ou política partidária, mesmo compreendendo que tudo neste mundo é político. Inclusive o humor.
O humor precisa estar, também, no espaço do respiro, das sutilezas da vida, das impressões ímpares sobre as relações e das coisas “non sense”, ou seja, desprovidas de sentido. Nós achamos graça em coisas sem sentido, vide os anos a fio em que passava Vídeo Cassetadas na televisão aberta. Não há sentido em dar risada em ver alguém caindo, por exemplo, mas há o riso. Ou até mesmo esta piada: “Sabe por que a bicicleta não dá risada? Porque ela não tem graxa!” Parece besta essa piada, mas ela é provida de um jogo de palavras: graxa e graça. É boba e pífia, mas tem algum jogo semântico sendo posto aí. Exige da pessoa que a ouve fazer algum movimento neural para o entendimento e assim decidir se dará ou não risada.
Já a trend do “six-seven”, além de desprovida de um jogo semântico, é desprovida de graça, é desprovida de senso artístico estético, é completamente esvaziada de sentido. Não há espaço algum para elaborações posteriores. Honestamente, não há sentido de ser.
A escolha desse fenômeno momentâneo (esperamos) como temática principal deste texto não se deu pelo fenômeno em si, porque há várias trends na internet que extrapolam os espaços virtuais, como vimos acima. A intenção primordial dessa escolha é como ela se coloca dentro da instituição escolar e demonstra o abismo entre o conteúdo programático dos componentes curriculares e a vida cotidiana dos alunos.
É preciso compreender o papel de vanguarda, por natureza, da instituição escolar. Vanguarda porque ela acolhe as novas gerações, o novo respiro das inovações, as novas tendências de comportamento, de namoro, de relacionamento, de vestimenta, de gírias, de gostos e desgostos, praticamente como uma passarela de desfile de moda de Milão, como a Bienal de Artes de São Paulo ou como a Bienal de Veneza de Arquitetura. É preciso valorizar esse espírito da escola, espaço onde as tendências de uma nova onda devem ser vistas, implantadas, debatidas e consolidadas. Há algo de especial em acolher a infância e a juventude, há algo que precisa ser ensinado.
Porém, há uma incongruência sendo posta, o mesmo local de vanguarda é também o local que castra e pune, e é orientado pelas disciplinas ou componentes curriculares rígidos, pelas regras e combinados, geralmente feitos de cima para baixo com pouca ou nenhuma participação dos alunos, pelos horários e rotina fechados, ou seja, por diversos fatores institucionais.
A escola não dialoga com o mundo virtual - ela o reprime veementemente. Isso porque ela enxerga no ambiente virtual uma concorrência a sua hegemonia do saber, que anteriormente estava toda alocada dentro de si. Pois bem, não só repeli-lo colocou a escola distantes dos temas da vida dos alunos, como os alunos - sem um pingo de misericórdia - enfiaram goela abaixo todas as suas demandas de fora da escola para dentro dela. O fenômeno do “six-seven” é evidência disto.
Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé.
Agora a pergunta que nos resta: Quem educa/ensina quem? Se partimos do pressuposto tradicional, o professor é o detentor do conhecimento e transfere ao aluno de maneira passiva. Mas nós sabemos que não é assim que as coisas acontecem, os alunos são detentores de saberes prévios, gostos, vivências e contradições. Essa mistura toda compõe cada um dos sujeitos dentro da sala de aula (crianças e adultos). Mas não. Como os agentes sociais da instituição escolar e do mundo fora dela, crianças e adolescentes são desprovidos de espaços de escolha e escuta. Toda a energia da geração é apagada, é cooptada pelas Big Techs, pelos conglomerados educacionais pautados em meritocracia e desempenho, ou seja, pelos adultos.
Portanto, se há alunos viciados em celular e redes sociais, há adultos que compram esses dispositivos. Se há alunos que não entregam o dever de casa, há adultos com problemas de gestão de tempo no seio familiar. Se há alunos com distúrbios alimentares, há adultos que negligenciam questões de auto imagem distorcidas. Então, seguindo esta lógica, se há alunos com cérebros sendo atrofiados por uso excessivo de telas, há adultos que os deixam, ou pior, que lucram com isso.
________________________________________________________________
Naiara Siqueira Silva (@nanananasiqueira) também conhecida como Naná Siqueira é Mestre em Linguística Aplicada, socióloga e educadora. Tem interesse em Educação, Cultura, Línguas e Linguagens. Monitora do Portal Soteroprosa, esse é seu primeiro texto publicado aqui.
REFERÊNCIAS:
