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A FESTA DE HERODES E A FESTA DE CRISTO




A história bíblica nos coloca diante de duas festas radicalmente distintas: a de Herodes e a de Cristo. A primeira, envolta em luxo, poder e violência, termina com a morte do profeta João Batista, degolado para satisfazer caprichos e alianças políticas. A segunda, celebrada no deserto, nasce da compaixão de Jesus que, diante da fome da multidão, reparte o pouco que havia e transforma escassez em abundância. De um lado, a festa da ostentação que se alimenta da injustiça; de outro, a festa da partilha que se realiza no amor. É nesse contraste que podemos compreender como certas celebrações políticas atuais, como a festa bolsonarista,, se aproximam muito mais do banquete de Herodes do que da mesa de Cristo.



"E chegando o dia oportuno, em que Herodes, no seu aniversário natalício, dava um banquete aos seus príncipes, tribunos e principais da Galileia, entrou a filha da mesma Herodíade e, dançando, agradou a Herodes e aos que estavam com ele à mesa; disse então o rei à jovem: Pede-me o que quiseres, e eu to darei. (...) E, saindo, disse à sua mãe: Que pedirei? E ela disse: A cabeça de João Batista." (Marcos 6:21-24)


"E, saindo Jesus, viu uma grande multidão, e, possuindo íntima compaixão deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor, começou a ensinar-lhes muitas coisas. (...) E tomando cinco pães e dois peixes, olhando para o céu, abençoou-os, partiu os pães, e deu-os aos discípulos, para que os pusessem diante deles; e repartiu os dois peixes por todos. E todos comeram, e ficaram fartos." (Marcos 6:34-42)



A festa de Herodes é banquete de ostentação e de morte. Herodes, embriagado de poder, transforma o corpo da jovem em espetáculo, a promessa em moeda, a justiça em ameaça. O banquete termina com a cabeça do profeta numa bandeja: a verdade degolada diante da conveniência política. A festa bolsonarista se inscreve nesse mesmo espírito herodiano. Nela se exaltam armas, se ridicularizam os pobres, se festeja o ódio como se fosse virtude, e se transformam líderes em ídolos sedentos de poder. Como no palácio de Herodes, não há pão multiplicado, mas privilégios concentrados; não há cuidado, mas violência travestida de celebração. É o banquete dos que riem enquanto muitos choram, dos que aplaudem a mentira enquanto a justiça é silenciada.


Em contraponto, a festa de Cristo nasce no deserto, onde a fome se encontra com a compaixão. O pouco se torna suficiente, e o suficiente se torna abundância. Aqui não se pede cabeças, mas se oferecem pães; não se distribui morte, mas se partilha vida. Todos se sentam juntos: mulheres, homens, crianças, pobres, famintos. Ninguém é excluído. Ninguém é esquecido.


Enquanto a festa de Herodes se ergue sobre a morte de um profeta, a festa de Cristo floresce no gesto simples de repartir. O verdadeiro milagre não é a multiplicação dos pães, mas a multiplicação do amor.  A festa de Herodes, ontem no palácio, hoje nas ruas vestidas de ódio, é um convite à ilusão do poder que devora, à embriaguez do mando que sufoca, à mentira que se impõe pela violência. É a celebração dos que se perdem em si mesmos, alimentando-se da morte dos outros.


Mas a festa de Cristo é outra: silenciosa, fraterna, humilde. É o banquete onde a vida se reparte e o amor se faz pão. É a mesa onde todos têm lugar, e onde a esperança insiste em nascer mesmo no deserto.


Eis o chamado: abandonar a festa de Herodes, com seus cantos de vaidade e sua taça de sangue, e converter-se à festa de Cristo, onde o vinho é partilha, onde o pão é vida, onde o coração aprende a ser livre no gesto de amar. Porque no fim, só há duas mesas diante de nós: a mesa da morte ou a mesa da vida. E a escolha, sempre é nossa!


Um xêro no coração!

2 comentários

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Rafa
18 de dez. de 2025
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Na teoria, escolhemos a mesa do Cristo. Na prática, almejamos sentar à mesa de Herodes.

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Julio César
18 de dez. de 2025
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Excelente reflexão do poeta e escritor amigo. Este texto nos leva a uma meditação da regressão do ser humano. Estamos regredindo quando cultuamos pessoas, estamos retrocedendo a um caos que não deveria se repetir. A humanidade precisa evoluir e não retroceder.

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