A GOURMETIZAÇÃO DA (TRANS)MISOGINIA: O Que é Ser Mulher?
- Armando Januário

- 23 de mar.
- 6 min de leitura

Quando o apresentador citado em nosso artigo A gourmetização da (trans)misoginia praticou crime de transfobia contra a deputada federal Erika Hilton, entre várias evocações, ele apelou para a biologia. A intenção foi a partir de uma perspectiva orgânica – presença do útero, menstruação e até ausência da bolsa escrotal – definir as mulheres de maneira indelével. Passando ao largo da novidade, ele recorreu a uma dimensão legitimada para conceituar às fêmeas humanas. O próprio Sigmund Freud (1856-1939), nos ensaios “Sobre a mais comum depreciação da vida amorosa” (1912) e “A dissolução do complexo de Édipo” (1924), também sinalizou as dimensões biológicas para afirmar que “a anatomia é o destino” na constituição da psique. A diferença entre os genitais seria, para Freud, decisiva para o psicodesenvolvimento das crianças.
O saber biomédico, inclusive as ciências psi, contribuíram sobremaneira para a construção histórica da mulher atrelada a reprodução. Tal determinação, fixa e estrita, busca a genitália para socionaturalizar a totalidade da mulher enquanto apenas a que gera prole. Operando a partir da lógica vagina-mulher-reprodução, para difundir a ideia de que mulher só será mulher se tiver vagina, menstruar e engravidar, o patriarcado serve ao imperativo capitalista da produção, no qual a mulher é ser totalmente produtivo apenas quando gera outros seres também produtivos. Mais ainda: em uma dinâmica tecnofeudalista, o corpo da mulher precisa ter uma vagina para dela se extrair renda, a partir de plataformas digitais de conteúdo adulto. Essa amplitude sexista vai caminhar lado a lado com o racismo para saturar os corpos das mulheres negras com uma erotização disciplinadora, que torna o estupro justificável. Ora, se na estrutura capitalista, a (re)produção era essencial para a mulher ser considerada como tal, no tecnofeudalismo, o seu corpo é atravessado por políticas digitais capazes de colonizar o seu psiquismo.
Uma breve visita a etimologia da palavra vagina revela as reais intenções do apresentador transfóbico. Oriunda do latim, vagina significa bainha, o invólucro para a espada, o pênis. Isso explica a ferramenta discursiva utilizada para deslegitimar a deputada Erika Hilton: a fixação na vagina enquanto recipiente para abrigar o pênis expressa a concepção da mulher em função dos desejos do homem, esse ser supostamente todo-poderoso, posto que possui uma espada para adentrar aos domínios da sua bainha. Ao se voltar para a vagina, o apresentador, na verdade, fez referência a dominação masculina, milenar e prolífica em irradiar discursos e práticas violentas para perpetuar seu poder. O referido sabe que suas ações são criminosas, contudo, ele persiste, porquanto visa colaborar para a rivalidade entre as mulheres e eventuais desentendimentos na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, dificultando os trabalhos da presidenta Erika. Sabe também que suas declarações fortalecem grupos masculinistas, o que lhes confere representatividade. Enfatiza o patriarcado no uso mais bestial da (trans)misoginia enquanto ferramenta tecnológica para perpetrar exclusões, como aquela que cerca de 80 entidades defensoras do esporte e dos Direitos Humanos tem buscado prevenir, quando solicitaram ao Comitê Olímpico Internacional (COI), a desistência da implantação de testes genéticos e da proibição geral de mulheres trans e intersexo nas competições femininas, alegando ser este um retrocesso histórico, no qual os esportes deixarão de ser lugares de pertencimento para se tornar espaços de segregação. De fato, permitir a participação de mulheres trans nos esportes e na sociedade, em condições equitativas às mulheres cis, representa um novo paradigma, capaz de compreender a diversidade das mulheres.
A heterogeneidade das mulheres foi assinalada por Jacques Lacan (1901-1981), no Seminário 20: Encore. Nele, Lacan afirma: “La femme n’existe pas”. O principal revisor de Sigmund Freud afirmou a inexistência d’A Mulher, aforismo, à primeira vista, controverso e excludente. Parece mesmo haver apagamento das mulheres na sua afirmativa. No entanto, um olhar criterioso mostra Lacan apontando para inexistência d’A Mulher e mais adiante, descrevendo a existência da multiplicidade das mulheres, sendo necessário “contá-las uma a uma”. Neste respeito, tem-se um ponto de inflexão na histórica polêmica de “A Mulher não existe”. O adjunto adnominal A, com letra maiúscula, fracassa em definir as mulheres em sua numerosidade. Esta mesma numerosidade torna indispensável reconhecer a abundância das especificidades presentes em cada mulher. O sujeito Mulher, com M maiúsculo, reforça a inexistência da universalidade das mulheres: a simbolização d’A Mulher falha se pensada de forma coesa. Nessa perspectiva, Lacan convida a uma espécie de contagem das mulheres, “uma a uma”, indicando o necessário reconhecimento da falha estrutural em determinar, com precisão, o que seria A Mulher. Nesse ínterim, a anatomia não é o destino, porquanto fracassa em conjugar os inúmeros sentidos do ser-mulher. Na verdade, quanto mais as ciências biomédicas insistirem na imposição de um viés monolítico sobre o tema, ainda maior será a sua derrota, levando em consideração a contínua transformação do processo de se tornar mulher. Ainda que as travestis e mulheres trans sejam proibidas de atuar nos esportes e na sociedade, ainda que elas sejam assassinadas, ainda que a prostituição compulsória seja o lugar imposto pela cultura heterociscompulsória, ainda que a sua chegada em espaços de poder – universidades, mercado de trabalho formal, casas legislativas – seja recente e ainda que as mulheres cis sofram constante violência doméstica, tornou-se impossível pensar a categoria mulher em um único prisma. Isso porque subjacente ao próprio pensamento, está o psiquismo e nele se localizam as inúmeras concepções de mulheres.
Se para a psicanálise lacaniana, as mulheres são singulares e absolutamente diversas, na Teoria Queer, elas estão para além de pontos de vista biológicos, psíquicos e socioculturais fixos. Como espaço crítico pós-estruturalista, o pensamento queer problematiza as imposições sociais acerca de gênero e sexualidade. Gênero não é natural, antes, ele é uma construção sociocultural que incide sobre corpos neutros, através da repetição de discursos e práticas, performatividades que impõem e normatizam as ideias de homem e mulher. Mesmo que ao nascer, os corpos tenham uma vagina ou um pênis, os significados de mulher e homem são produções da linguagem inscritas e reguladas pela sociedade sobre aqueles e existentes antes da sua origem. Nesses termos, a oposição homem/mulher cai por terra, o que possibilita pensar tanto homens e mulheres como ficções inseridas por discursos colonizadores, quanto compreender as identidades não-binárias. Mais ainda: o próprio sexo é um dado sociocultural sequestrado pelo campo imutável da natureza, para conferir a fantasia de ser compreendido. Editado por discursos de poder, o corpo, ente encarcerado pela ideologia de gênero, alega existir sexo originário da natureza e gênero originado da construção sociocultural. Nesse ponto, se localiza a autêntica ideologia de gênero: é aquela que desinforma, quando sob a farsa de defender a família tradicional, persiste na ignorância e no atraso de se agarrar, desesperada, ao sexo como natural e pré-existente e ao gênero enquanto socioculturalmente construído. Na verdade, tanto sexo quanto gênero são construtos socioculturais, e, por isso mesmo, são iguais: sexo é gênero desde o princípio, quando a sexagem fetal e o ultrassom encontram, respectivamente, o DNA e o genital do bebê. A partir disso, todo o percurso para o chá de revelação, nascimento e psicodesenvolvimento estão atravessados pela ideologia de gênero da cultura dominante: binária, cissexista, heterociscompulsória e racista.
O projeto ideológico de desmulherizar todas as mulheres se afasta da originalidade. Apesar de ter aqui e ali inovações culturais, ele segue o padrão coercitivo das palavras do apresentador: enfatizar os aspectos orgânicos para, criando noções canhestras e grosseiras de sexo e gênero, disseminar violações de direitos. De fato, são produções discursivas como as do referido que motivam parlamentares conservadores a propor pautas atrasadas. Ao ecoar declarações (trans)misóginas, com o objetivo de expandir o raio de ação do patriarcado, ele expressa o seu comportamento machista, reacionário e escravagista: em 2016, o mesmo agrediu uma assistente de palco. No mesmo ano, ele foi condenado pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) a indenizar funcionários em R$ 200 mil por obrigá-los a realizar refeições em banheiros e lavouras, que aconteciam na sua propriedade, denominada Fazenda Esplanada. Decerto, os exemplos do pai refletem nas declarações e práticas do filho e atual governador do Paraná: durante entrevista em 15/03/2026, o mandatário foi enfático ao se colocar a favor da escala de trabalho 6x1. Em 2024, ele foi condenado por assediar um professor. E em 28/01/2026, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) suspendeu a privatização da Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar). O motivo é a exposição de dados sensíveis da população do Paraná para o setor privado.
Entre discursos masculinistas, encontramos o patriarcado fazendo uso da misoginia, seu método tecnológico para subjugar os corpos no interior do capitalismo, agora explorado pelo tecnofeudalismo. O presente ano, contudo, oferece a população brasileira a oportunidade de escolher políticas públicas conectadas com a essência de uma sociedade na qual as pessoas possam ser tratadas de maneira equitativa. Optar por isso passa por reconhecer as táticas daqueles que reverberam seus projetos antipovo, avançando sobre os direitos das mulheres, as quais são maioria no Brasil. Optar por isso envolve romper com as estruturas de poder. Optar por isso obriga a desmontar visões preconceituosas sobre as mulheres. Optar por isso abrange revisitar a si mesmo, reconhecer-se estruturalmente patriarcal e se comprometer com uma desconstrução sem precedentes.
FONTE:
IMAGEM: Portal Sinte Piauí

Gratidão, Soteroprosa!