top of page

“A VILA” OU UM FEIXE DE MEDOS PRA CHAMAR DE SEUS





Viver é difícil. Apesar desta constatação, até certo ponto dramática, se eu dissesse o contrário, que viver é fácil, estaria muito mais longe da verdade. Mas quem disse que a vida pode ser definida de forma tão maniqueísta assim, reduzindo o viver a dois extremos, o fácil e o difícil, ou em isso ou aquilo?  A filosofia e a arte me ensinaram a enxergar muitas gradações e camadas nas nossas concepções do mundo. Vale muito o exercício de olhar o que há por detrás das nossas certezas.


Professora de filosofia, poeta e, portanto, amiga dos conceitos, há alguns anos, levei para a sala de aula o filme “A Vila” (The Village, da Touchstone Pictures, 2004) do diretor M. Night Shyamalan e exibi para uma turma de alunas e alunos universitários. Na época, era uma ideia impensável porque, para quem não sabe, não conhece a história, o enredo de “A Vila”, embora se mostre como um triller psicologicamente aterrorizante, trata-se de um filme de suspense e, a bem da verdade, esse nem é o foco principal.


A narrativa gira em torno de um pequeno grupo de famílias que se uniram para viverem isoladas do chamado “mundo civilizado”, no interior de uma floresta. A suposta “harmonia” do grupo, no entanto, se baseia no cultivo da cultura do medo, na disseminação da crença de que o mundo, fora dos limites circunscritos daquela comunidade, é hostil, perigoso e mortal, povoado de criaturas demoníacas.


Como toda crença, para durar, para se manter de pé, precisa estabelecer valores morais, normas dogmáticas, relatos que são passados de geração para geração e se transformam em tradições, sem perguntas. O medo se alimenta da ignorância, desconhecimento, para além de outros ardis muito bem demonstrados no filme.

Não se preocupem, nada de spoilers! Só vou dizer mais uma coisa que fui lembrando…


No mito de Édipo Rei (fui bem longe), havia um personagem central atuando para o desvendamento do enredo, o velho cego Tirésias. Coube a ele, que não enxergava, revelar a tragédia anunciada de Édipo.


A liberdade parece ter um preço, o rompimento com certezas sedimentadas no nosso pensar e agir. Para vencer o medo, será preciso reaprender a enxergar de outras formas e ângulos as coisas e o mundo, descondicionar a vista acostumada. Roland Barthes, quando procurava a essência da fotografia, igualmente, recomendou que para ver bem uma imagem é preciso fechar os olhos.


Mas, quem sou eu para dizer aqui que a coisa certa a fazer é encarar os medos ‘fechando os olhos’ para enxergar mais o que não está tão evidente?


Voltemos ao filme “A Vila”. Há nele uma estrutura narrativa típica que pode nos dar boas pistas sobre o terreno onde pisamos... Se pensamos na linguagem enquanto forma de comunicação humana, encontramos na sua etimologia, a partir de uma origem grega, duas palavras: mythos e logos indicam dois caminhos para se referir a linguagem. A palavra mythos deriva de dois verbos: do verbo mytheyo (contar, narrar, falar) e do verbo mytheo (conversar, anunciar, nomear); e logos quer dizer pensamento, ideia, argumentação. A linguagem tem, portanto, originariamente, estas duas dimensões.


O que é o mito? Mito é uma narrativa mágico-religiosa que oferece uma explicação para os acontecimentos de um passado longínquo, desde a origem do mundo e de tudo que nele existe. O que é logos? É, ao contrário, um discurso racional que se utiliza de argumentos, isto é, raciocínio e demonstração para explicar o real. Estes dois registros opostos servem ao mesmo propósito em “A Vila”.


Mas quem disse que o filme citado e a própria vida, como eu disse no começo desta escrita, podem ser definidos de forma tão maniqueísta assim, reduzindo o viver a uma simples tabela preenchida com extremos opostos, tipo fácil x difícil, ou isso x aquilo, mythos x logos? Está claro que não!


Que se registre e ressalte que logos e mythos, mythos e logos devem ser compreendidos como dimensões complementares em nós. Ambas são como lados de uma mesma moeda, pratos de uma balança, veneno e antídoto uma da outra. É assim que existimos como seres humanos únicos e complexos (para o bem e/ou para o mal), com margem suficiente para inumeráveis variações…


Queremos acreditar… acreditamos… duvidamos… e, ao duvidar, nos salvamos de um destino que nos pré-determinamos…

O que nos funda? O pensar e imaginar, como quem abre e fecha os olhos para ver melhor, como navegar é preciso e viver, nem tanto.


_________________________________________________________________




40 visualizações2 comentários
bottom of page