"AS PESSOAS NA SALA DE JANTAR": Luciano Huck, O Bolsa Família e Flávio Bolsonaro
- Armando Januário

- 1 de jun.
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Contrariando o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Banco Mundial, no sábado, 23/05/2026, Luciano Huck descreveu o Programa Bolsa Família (PBF) como algo “que não gera nenhum tipo de estímulo para que as famílias queiram sair [...]; na verdade, elas [as famílias] criam um monte de atalhos, pra conseguir ficar no programa de distribuição de renda, de proteção social ad eternum”. Após ampla repercussão negativa, o apresentador da Rede Globo disse que sua fala ocorreu “em um ambiente fechado” e circulou “fora de contexto”. Contudo, o vídeo é claro: ele se posicionou contra o PBF e tentou negar isso depois, quando se sentiu desconfortável ante a opinião pública. Contudo, por que logo ele, que apresenta o “Lata Velha”, reformando veículos de trabalhadores, se posicionou contra o PBF? Seria verídica a sua tese, sobre o benefício? Afinal, para quem foi o seu discurso e por que isso deve nos interessar?
Conforme a FGV, 61% dos contemplados pelo PBF, entre 2014 e 2025, já deixaram o programa, sobretudo entre pessoas com 11 e 14 anos (60,8%) e 15 e 17 anos (71,2%). Entre 2012 e 2019, o Banco Mundial pesquisou famílias, identificando 23% delas com permanência inferior a três anos no PBF; outras 40% seguiram no benefício por um período superior a sete anos. Já o IPEA identificou uma diminuição no desemprego dos inscritos no PBF: 4,3% entre 20% da população mais pobre, entre 2019 e 2023. Mas, não fica apenas nisso: o mesmo instituto encontrou redução do subemprego: o PBF contribui para que as famílias contempladas recusem trabalho precarizado, indo em busca de melhores condições para atuação profissional. Para o IPEA, esse dado indica uma relação entre a recusa e o aumento do emprego formal. Já segundo pesquisa do FMI, a renda transferida pelo PBF colabora para as mulheres pagarem educação e transporte dos filhos, ao mesmo tempo em que elas buscam emprego.
Contestado pelos números de organismos nacionais e estrangeiros, Huck foi também alvo de celebridades. Ana Paula Renault, Luana Piovani e Nath Finanças defenderam o PBF, expondo o descaso das classes dominantes ante a miséria. Para a vencedora do Big Brother Brasil 2026, quem critica o Bolsa Família ‘ignora evidência, ignora desigualdade e ignora o Brasil real’. Piovani corroborou a postagem de Renault, acrescentando alguns stories em seu Instagram, nos quais Huck aparece criticando o PBF, contudo, se posicionando favorável ao Banco Master e as bets. Nath Finanças, influenciadora de economia, postou a fala de Luciano no X, para, logo em seguida se posicionar: “cada R$ 1 investido no Bolsa Família gera R$ 1,78 no PIB (Ipea). O programa também reduziu a pobreza extrema em 28% no Brasil (Banco Mundial). Luciano, as bets que você divulga e o Familhão prejudicam a vida financeira da população pobre e brincam com os sonhos”. Curioso que apenas após essas críticas, Luciano Huck tenha postado um vídeo se defendendo...

Em paralelo aos dados e às críticas, existem os exemplos de países desenvolvidos investindo pesado em programas sociais. A França destina cerca de 45 bilhões de euros, equivalentes a R$ 200 bilhões, totalizando 2,1% do seu PIB e mais da média dos países ricos. São investimentos que representam um verdadeiro arco de proteção da sociedade, com auxílios para pagamento de água, luz, aluguel e aquisição de material escolar. A China tem uma ampla rede de proteção social, mas, pretende estender os cuidados com a população. Em junho desse ano, a Lei Nacional de Assistência Social passa a vigorar, trazendo mecanismos de prevenção da pobreza, os quais amparam as famílias nos primeiros sinais de risco econômico. Essa é uma medida inovadora, visando aumentar o raio de ação de Pequim no combate à fome e à desigualdade social, com investimentos de US$ 21,6 bilhões. O Japão aposta no Seikatsu Hogo, seu programa social, para investir 24,9% do PIB, cerca de US$ 135 bilhões tanto para aquecer a economia, quanto para auxiliar famílias no enfrentamento das despesas com alimentação, saúde, educação e moradia. Alemanha, Reino Unido, Índia, Itália,
Canadá, Coreia do Sul também figuram na lista de potências determinadas a transferir rendas para quem mais precisa, evitando o aprofundamento das injustiças sociais.
Os Estados Unidos, mesmo com a recomendação de Donald Trump para suspensão do Supplemental Nutrition Assistance Program (SNAP), mais importante programa social do país, investe mais de US$ 90 bilhões por ano em proteção social. Famílias de baixa renda utilizam o valor do SNAP para comprar comida. Infelizmente, a política armamentista de Trump tem custado caro aos estadunidenses: ao cortar as verbas para esse programa e investir na indústria militar, ele empurrou 1 a cada 5 crianças para a fome. Isso abrange 47 milhões de pessoas em insegurança alimentar, no país com maior PIB mundial. Quem poderia imaginar o país detentor de uma produção de excedentes capaz de alimentar nações inteiras, com pessoas sem conseguir acessar alimentos, pulando – ou diminuindo a quantidade de – refeições e com pais e mães incapazes de encher o prato dos filhos! Latinos e negros são os mais afetados: 22% e 20%, respectivamente. Esses dados se aproximam dos piores índices urbanos da América Latina!
As palavras de Luciano Huck mostram qual o seu lado. Seu rabino político foi Fernando Henrique Cardoso, de quem segue fielmente a cartilha neoliberal. Ele votou em Jair Bolsonaro no segundo turno de 2018 e apoiou a nomeação de Sérgio Moro para ministro da Justiça e Segurança Pública. A esteira de tais comportamentos demonstra o quanto seu discurso contrário ao Bolsa Família se alinha ao projeto representado por Flávio Bolsonaro: redução de gastos públicos e desvinculação do reajuste do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e da aposentadora do aumento real do salário mínimo. Na prática, isso vai estrangular o poder de compra de aposentados e beneficiados. Assim como Paulo Guedes fez durante o governo Bolsonaro, seu filho 01 pretende continuar tal necropolítica, inclusive privatizando 95% das estatais para colocar o Brasil de joelhos, novamente na fila do osso. Tentar desacreditar o PBF, portanto, revela o pensamento racista e escravocrata de quem sabe da autonomia que o benefício oferece para aquisição de empregos com melhores salários e resultante ascensão social.

Todavia, nada vai impedir Huck de seguir criticando qualquer projeto de segurança socioeconômica, desde que as linhas de crédito do Estado continuem disponíveis. Foi assim em 2013, quando ele adquiriu um jatinho da Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A. (Embraer) financiando R$ 17,7 milhões junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Caso o candidato dele não ganhe as eleições de outubro, é simples: basta fugir das câmeras, como ele fez quando Aécio Neves foi derrotado por Dilma Rousseff, no segundo turno de 2014. A covardia é sua amiga íntima: ele só tem coragem para expressar suas ideias “em um ambiente fechado”, longe do público. Basta as câmeras e as redes aparecerem: aí ele foge da luta política, desiste de sustentar o que fala e tal qual 2018, deixa de lado a própria candidatura ao Planalto.
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