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DÁ PARA SER GENTIL, SIMPÁTICA E EMPÁTICA E ESTABELECER LIMITES



Precisamos ter uma conversa sobre a gentileza feminina. Sim! Até isso vou alocar para a questão de gênero porque, infelizmente, ser gentil para sujeitas culturalmente treinadas a serem mulheres significa dispensar essa qualidade incondicionalmente, fora dos seus próprios limites.


A performance da gentileza está intrinsecamente ligada à pedagogia dos afetos, termo adotado pela pesquisadora Valeska Zanello sobre a socialização dos gêneros e que implica em ditar como devemos agir para darmos e recebermos afeto. Isso pode ser reforçado por várias tecnologias de gênero como as revistas femininas e as antigas Enciclopédias da Mulher que dedicavam páginas e mais páginas apenas sobre como a sujeita deve se comportar diante das pessoas, em uma dinâmica social onde é imperativo qualidades como doçura, sensibilidade, leveza e, claro, muita gentileza, como a autora destaca em um trecho de uma desses conteúdos:


“(...) a arte de ser mulher exige muita perspicácia, muita bondade. Um permanente sentido de prontidão e alerta para satisfazer às necessidades dos entes queridos.” (p. 77)

Prontidão e alerta! Acho que isso define bem o que significa ter gentileza e outras qualidades semelhantes sendo impostas a um corpo feminino. Dentro das análises de Zanello, a subjetividade da mulher é construída pelo discurso social e, por isso, é cabido a ela entender como o “jogo” funciona e agir por ele para garantir seu lugar de aceitação e uma reputação intacta. Ser o feminino é estar pronta sete dias na semana e 24h por dia a entregar gentilezas aos seus grupos de convivência, com evidência maior a família de nascimento e depois àquela fruto de um casamento legítimo.


Você pode pensar que ser gentil é uma boa qualidade e, se todos a praticassem, o mundo seria um lugar melhor. Dizer “Bom dia” aos transeuntes, “Obrigado” ao receber um agrado e “Desculpa” quando um erro foi cometido. Gentileza, na verdade, se tornou um lema nos últimos anos, com a chamada “Gentileza gera gentileza” sendo popularizada pelo profeta Gentileza e seus estandartes, convocando mudanças em nosso comportamento acelerado e estressado, tomado pela dinâmica intensa e fria das grandes metrópoles. Se como mulheres, já temos esse treinamento, este deveria ser um aspecto muito positivo.


Mas, a gentileza ao corpo feminino tem suas regras e seus porquês. É por ela que os silenciamentos são selados pois, “uma mulher direita não comenta sobre o amigo do marido que lhe tocou o corpo indevidamente quando estava bêbado”. Ela que tenha mais cuidado da próxima vez que encontrá-lo e mantenha a calma e paciência com esse “jeito” do rapaz, ou deixe seu marido resolver o problema como um homem deve fazer, sem envolvê-la. A gentileza também obrigada esse corpo feminino a não derramar lágrimas ou se deixar levar por outras emoções negativas ao receber amigos e parentes em casa. Após uma semana sendo oprimida pelo esposo, ou sofrendo de depressão por questões pessoais, a mulher sábia deve saber aterrar seus sentimentos com um belo sorriso no rosto e uma atitude predisposta e amigável com seus convidados - que nada têm a ver com seus dramas.


Quando o lugar da gentileza é um ensaio de comportamentos impostos por discursos sociais engendrados pela dinâmica machista, as consequências são pavorosas para a saúde mental e bem-estar da mulher. Observe:


  • Ela se sente obrigada a cuidar do estado emocional de todos ao seu redor. Do choro da criança à depressão do adulto.

  • Suas necessidades ficam em último lugar pois, seu tempo é dedicado às necessidades dos outros.

  • Em nome da gentileza, ela carrega para si todos os problemas alheios e se dedica a solucioná-los.

  • Sua via de regra para se sentir bem é ver TODOS felizes, mesmo que isso lhe custe toda a sua energia.


Muitos outros pontos podem ser abordados, mas acredito que com o que eu já trouxe é possível que sua mente traga lembranças de alguma figura feminina da sua família e/ou do seu convívio. A matriarca que sustenta emocionalmente todos os parentes, a tia da sua amiga que vive para cuidar de todos (e possui sérios problemas de saúde por conta disso), a prima religiosa que enxerga a família como sua missão de vida e renega falar de si e de seus problemas ou, você mesma que, sendo treinada indireta ou diretamente pela sua mãe, tia, prima, avó e outras sujeitas de sua vida, entendeu que sua felicidade só nasceria da constante dedicação aos outros, sempre com a gentileza como a guardiã de frente desse serviço.


Isso significa que as mulheres estão fadadas a assumir esse papel? Felizmente, não. Mas, infelizmente, essa talvez seja uma das prisões mais difíceis de se libertar, já que ela se confunde com virtudes humanas muito louváveis. Cuidar, proteger, servir, sempre com um sorriso no rosto e um gesto gentil a postos é algo desejável para qualquer um. Tenho certeza que mesmo que uma mulher esteja de saco cheio de assumir esse papel, seria cabível ficar atônita caso sua vozinha do interior, que sempre lhe recebeu com um café gostoso e um bolo quentinho a cada visita, um belo dia, dissesse que suas pernas doem e não fizesse nada. Eu, você e muitas outras pessoas somos alimentadas pelo privilégio dessas figuras femininas sustentando esses ares de gentileza em todo tipo de ocasião.


Por isso, saber se libertar disso também significa entender a liberdade do outro e a perda de um prazer que pode estar incutido na sua mente como a forma mais importante de afeição que você recebe de alguma mulher da sua vida. Dito isso, quero apresentar um caminho para se desviar dessa prisão social incutida as mulheres. Tome essas qualidades de gentileza e simpatia e continue praticando elas em outro alvo: você mesma! Exercite ser gentil consigo mesma, ter empatia sobre suas necessidades e, logo vai descobrir que a melhor forma de ser tratada é encontrando dentro de si seus limites e avisando aos de fora quais são eles. Quando a gente se trata bem, entende rapidamente o que nos atinge, como nos atinge e o que sobra depois disso.


E aí vem a reviravolta que não foi contada pela guarda feminina de nossa convivência: dá para ser gentil e simpática e estabelecer limites. Qualquer forma de uma mulher avisar sobre limites é incutido de uma percepção de desvio do caminho traçado a esse corpo. Se ela diz “não” calmamente, acham que a sujeita deve estar indecisa. Se ela reitera o não com mais firmeza, provavelmente está de TPM. Se são negadas condições sobre sua resposta e apenas é declarado que seu desejo é dizer não àquela proposta, algo parece estar lhe afligindo, provavelmente está solteira ou o namorado não a está tratando bem.


Pulando todos esses obstáculos e insistindo no não, no desenho do limite que só a mulher é capaz de traçar diante do autoconhecimento e aprofundamento de sua subjetividade, é possível continuar cultivando os valores de gentileza, simpatia e, melhor ainda, empatia! Afinal, para dialogar com a dor do outro, precisamos estar em acesso a nossa e isso só acontece quando os teatros sociais deixam de ser prioridade e as sensações são legitimadas em sua expressão. Aquela que respeita e compreende suas emoções se torna uma pessoa apta a reconhecer e amparar a dor do outro sem precisar “consertar” a questão alheia.


Quando a mulher é socialmente educada para os tratados da vida feminina, é preciso força, diligência e esperança para dar esse passo de libertação, por isso, quando ouvir da parte dela um não bem sonoro, ou um não tímido, é preciso que aceitemos sua escolha, sem argumentos ou dramas. Muitas vezes, acatar essa negativa implica em mudar uma dinâmica cristalizada. A avó que fazia as vontades, pode impor limites desagradáveis. A mãe que focava no seu bem-estar, vai te soltar para o mundo enquanto tenta se reconhecer novamente. A esposa que sabia tudo o que precisava ser feito para a casa, está fazendo o mínimo porque entendeu que não precisa ser “guerreira” para ser valorizada. Aguente as mudanças, a perda de privilégios e, com toda gentileza do mundo, dê espaço para essas mulheres e seus limites passarem.




ZANELLO, Valeska. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Editora Appris, 2020.




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