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"ESSA PRAIA TÁ BARRIL". O DESCASO E ABANDONO DA ORLA DE SALVADOR.




Lá se vão 13 anos, quando em agosto de 2010, 447 barracas foram demolidas ao longo da faixa litorânea da orla de Salvador após determinação judicial. Na ação, o juiz Carlos D’ávila anunciou a retirada das barracas após considerar a “favelização” da orla e risco ambiental, além da alegada área da União (foi o que se espalhou na época, a Marinha havia reivindicado o controle da região) . E assim, milhares de pessoas ficaram sem emprego e sem renda. Se naquela época a justiça considerou que as barracas eram um trambolho, sem elas a orla virou o que? Melhorou? Verão mesmo só daqui a alguns meses, mas quando chegar essa estação o que os turistas verão?


Aconteceram tentativas de revitalização, projetos para criação de quiosques no calçadão, mas nada foi pra frente, seja por irregularidades, falta de boa vontade, ou modelo de implantação rejeitado. As raras barracas que existem oferecem um serviço seleto, para poucos, com preços mais salgados que o mar, sem condições de consumo da grande maioria que frequenta as praias. Ah, sim: e longe da areia. Pra corroborar isso, até as linhas de ônibus que rodavam por lá diminuíram consideravelmente.


Me recordo bem dessas barracas. apresentavam alguma estrutura, principalmente em Patamares e Piatã, um verdadeiro ponto de encontro de várias galeras advindas do miolo urbano da cidade. Tinham música ao vivo, banheiro, chuveiro, decoração rústica, e preços até acessíveis. Dava pro gasto. Nessa época, muita gente saia de lá para casas noturnas nas proximidades. Eu diria que foi uma fase proveitosa naquelas áreas da cidade.


E depois disso? Ocorreu um esvaziamento das praias e alguns barraqueiros tentaram sobreviver armando qualquer coisa pra oferecer, verdadeiros “cacete armado”. Famílias passaram a levar seus próprios mantimentos e se esses locais tinham problemas de limpeza com as barracas, sem elas a coisa virou uma pocilga. Não existem áreas especificas pra isso e muitas vezes visualizamos grandes aglomerações com farofa pra todo lado. Sem lixeiras, aumentou consideravelmente a sujeirada na areia e no mar. Um notícia do R7 em janeiro de 2017 afirma que naquele período mais de uma tonelada de lixo já havia sido retirada das praias. No Porto da Barra então... quilos e mais quilos de alumínio, plástico, tênis, raquete e demais objetos são retirados por projetos sociais do fundo do mar.


Por falar na Barra, é o maior exemplo de falta de estrutura. Considerada uma das praias mais bonitas do mundo, sofre com hiper lotação, poluição sonora, brigas, apreensões de drogas, tiro, ausência de banheiros... é só entrar nas tranquilas águas da Baía que você mergulha num esgoto só: mijo, toletes flutuantes, catarro, absorvente usado, uma beleza! Sem falar nos preços. Mesmo assim, continua sendo um lugar aprazível pra muita gente. No ano passado, um homem morreu após sair da água e seu corpo ficou estendido na areia, envolto em um saco preto, enquanto frequentadores tomavam sol, como podemos ver na “capa” desse texto.


Ao longo da orla, vemos a total falta de condições dos comerciantes, improvisando verdadeiras gambiarras pra suas vendas se concretizarem. Já vi gente fritando peixe embaixo de lona preta, num espacinho de um metro quadrado, ou seja, preparando alimentos sem a mínima higiene. Isso se reflete no turismo. Vários visitantes chegam aqui e se mandam pro Litoral Norte. Praia do Forte, Barra do Jacuípe, Itacimirim, Guarajuba, é logo ali. Sem falar em Buraquinho ou Ipitanga, mais próximas ainda e melhores paisagens.


Falando nisso, não há nem a preocupação em embelezar nossa costa. A escassez de vegetação típica e outras melhoras básicas mostra o nível do descaso. O coqueiral do Jardim de Alah faz vergonha e até a área do antigo Casquinha de Siri tá muito maltratada. É difícil plantar arvore agora? Não à toa, o ex-prefeito recebeu o apelido de “Acimento Neto”. Ruínas de antigos empreendimentos desmancham pelo caminho e parece não haver alternativa para esses mondrongos. Os rios canalizados ainda desaguam no mar e emissários submarinos parecem existir para fazerem parte de alguma anedota. Não temos áreas de manguezais, no entanto, nossa orla virou um mangue. Fico me perguntando se o juiz que autorizou a remoção das barracas vê a orla como está e passe por sua cabeça alguma conexão com aquela decisão tomada.


Você pode até perguntar “não tem nada de bom,véi? Só sabe cornetar!”. A praia tá pra quem quiser, vai quem quer. Boto pilha, mas no final das contas apareço. Afinal, você não deixa de ir pra bares com essa violência que tá aí, não deixa de ir pro churrasco na laje com o som pocando no centro, não deixa de tomar uma pedrada no buzu voltando do carnaval...


FONTE:





IMAGEM: Pragmatismo Político

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Interessante e necessário não permitir que essa denúncia se perca em meio as efêmeras novidades de hypes e polêmicas do momento. Bacana ver na página produções que dizem respeito ao território da cidade de Salvador

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