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Jogo Justo: Quando uma esposa ocupa o lugar masculino do marido.




Na última semana estava “zapeando” pela Netflix procurando algo pra fechar a noite. De repente, me deparo com um filme que parecia bom, segundo minhas intuições. E eu estava certo. Com quase duas horas de duração, “Jogo Justo” apresenta um bom enredo e atuações razoáveis. Mas o que chama atenção mesmo é a temática, o cerne da película. Nesse sentido, ele é inovador, autêntico, vanguardista. Foi suficiente para uma reflexão: como eu me comportaria? Será que ficaria chateado? Irritado? Caramba, é uma situação muito incipiente!


Bom, o longa retrata um casal de noivos, Luke e Emily, que trabalham numa firma de investimentos, ou seja, mercado financeiro. A relação é secreta, pois a empresa não permite intimidades amorosas entre os analistas. Em determinado momento, um mangangão lá, chefe dos investidores, é demitido. Um deles está para substituí-lo e o preferido é Luke. Porém, ele é pego de surpresa: o promovido é sua noiva Emily. E aí vem uma série de fatores que podemos explorar aqui.


Não me recordo de outro filme, novela, livro, ou afins que retrate a história de um homem que almeja chegar ao poder e se dá conta que será chefiado por sua própria esposa, sua superiora. É algo que a trajetória masculina cis-branca-heterossexual está bastante desacostumada. Quando um homem casado consegue estabilidade profissional e financeira, há sempre uma mulher compreensiva que esteve sempre a seu lado, passando por todas as dificuldades juntos, colhendo anos depois os louros das batalhas vencidas. Mas o apoio que um homem daria quando sua companheira é que galga os espaços planejados por ele é incerto, indefinido, e duvidoso. Vou expor situações que podem ou não estar na cinematografia em questão.


Ao pensar que a mulher com quem você vive e convive, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, terá todas as benesses (carro com motorista a disposição, sair mais cedo do trabalho, jantares com a diretoria, etc.) enquanto os subalternos – incluindo o marido - trabalham até tarde, estudam e pesquisam para poder levar a sua patroa quais os melhores investimentos para ela representar aquele corpo de homens em pregões da Bolsa, um ataque machista pode estar se avizinhando. Isso porque compete a um líder estar disposto a frequentar os locais mais privilegiados em busca de um melhor entrosamento com gente muito poderosa que pode levar aquele grupo a aquisições milionárias em ações. E aí, aparecem outras inquietudes pelos quais homens que lutam para ser bem-sucedidos, estão bem desacostumados.


É praxe em dramas familiares o homem chegar bêbado em casa, depois de uma noitada, enchendo a cara com amigos, piadas sexistas, dançando com putas, e ainda esperar que o jantar esteja quentinho na mesa. Agora pense num cara que está em casa e tem que esperar a esposa frequentemente chegar tarde da noite de um happy hour, comendo água, sem nem conseguir abrir a porta de tão embriagada? Que homem imagina sua esposa numa boate de streap tease ou casa noturna, repleto de homens indecentes, conversas lascivas, danças sensuais, se divertindo a beça, gastando satisfeita o gordo salário, enquanto ele está comendo pizza fria, assistindo “Altas Horas” na TV? Hum...é dose. "ah, mas ela pode levar ele e se divertirem juntos". Quando negócios estão em primeiro lugar e somente quem está na cúpula pode render ganhos, só os prestigiados aproveitam. O marido não é marido, é um colega de posto inferior. É um intruso.


Essas passagens mencionadas são inversões de um éthos masculino. Talvez – só talvez! – o homem esteja não chateado por ser chefiado pela esposa, mas por ela ocupar um lugar que cabia a seu universo macho alfa. Ela ganhará muito mais do que ele, estará em locais afrodisíacos e sedutores, rodeada de pessoas a procura de sacanagem, irá consumir bebidas e drogas inseridos nas culturas de entretenimento histórico do homem. Quando ele sente que a companheira de vida irá substitui-lo nessas jornadas do prazer e da ambição, ele pode despirocar. Sem falar que quando mulheres sobem na vida, principalmente no mundo corporativo, paira a dúvida: ela deu pra alguém? subir assim na carreira? Rolou o “teste do sofá”? Difícil um prepotente aceitar que no mesmo ambiente laboral, a esposa seja bem mais competente e sagaz que ele.


No entanto, as personagens femininas nunca estão livres da demonstração de afeto ou salvação do amor quando este está em risco, até mesmo quando ela é empoderada e perspicaz. Lembro da protagonista de “De Pernas Pro Ar” que descobria mil modos de obter prazer ao gerenciar um sex shop, mas que no fundo, todas suas peripécias eram pra recuperar o marido que estava indo embora. Por mais que sejam poderosas, elas estão fadadas a carregarem seu lado Cinderela mais doce pra poder manter o equilíbrio da relação, da família, e dos filhos. Falta um longa polêmico e corajoso pra atirar a Amélia presente em cada mulher protagonista no limbo.


Não chego a recomendar o longa, esse não foi o meu propósito (tanto que citei o título lá no início, uma única vez). Seria uma ótima escolha no antigo Supercine, um filme pra acabar a noite quando não se tem muito o que fazer, nem outra grande programação. Entretanto, a história é muito original. Fica a dica. Porém, a pergunta não se cala: como eu reagiria se minha esposa ocupasse o cargo, as ações, as deliberações, e os prazeres com os quais tanto sonhei?

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A sua reflexão é interessante demais, Carlos. Mesmo que alguns homens tendam a responder positivamente a sua perginta final, quero ver é vivenciar na pele essa realidade... (tirando os aproveitadores e encostados da nossa comunidade, claro)

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