MAX WEBER E A POLÍTICA COMO VOCAÇÃO




O texto de hoje traz algumas das principais ideias do pensador alemão Max Weber, no discurso pronunciado na Universidade de Munique, em 1918, e publicado em 1919, intitulado “A Política como Vocação”[1]. A riqueza de tal documento é inestimável e deve ser sempre publicizado.


Em sentido geral, na conceituação mais comum, a política significa uma liderança ou influência sobre a liderança, que pode existir dentro de uma empresa, um sindicato, numa comunidade, na família. Interessa focar aqui na política no escopo do Estado-nação. Como ele é configurado no pensamento de Weber?


Sociologicamente falando, o Estado moderno só pode ser entendido por seus meios específicos, e não pelos seus fins. E tais meios incluem o monopólio legítimo da força física. Afora este instrumento, a realidade é uma anarquia. O uso legal da violência consentida pelos dominados é fundamental para a existência do Estado, dentro de um território delimitado. E qualquer necessidade de uso da violência precisa passar pela aprovação desse ente moderno.


O Estado, ou as associações políticas precedentes, é uma relação de homens dominando homens, mantida por meio da coerção legítima. Em tal relação, precisa haver uma legitimação do dominante; dominados precisam aceitar o mando. Há três justificativas ideais: a) tradicional, a confiança no “ontem eterno”, no que sempre foi, é habitual, historicamente exercido pelo patriarca e pelo príncipe patrimonial; b) carisma, que leva em consideração os atributos pessoais e extraordinárias do mandante, do líder; c) legalidade, fé na validade do estatuto legal, calcado em regras racionalmente criadas objetivamente. Contudo, no mundo real estes três tipos teóricos encontram-se muito raramente; normalmente há combinações.


Para este texto, o autor focou mais no segundo tipo, o carismático. Vamos nesta direção.


Todo Estado se baseia em um dos dois tipos de relação com o quadro administrativo (externamente faz parte do domínio político): a) os próprios quadros - as pessoas envolvidas - são donos dos meios; b) os quadros são separados dos meios administrativos (materiais, instrumentos). Quem detém o poder acredita contar sempre com a obediência dos membros dos quadros.


No Estado de direito, na organização moderna do serviço público, há uma separação radical entre o próprio quadro - os funcionários - e os meios materiais de organização administrativa. Em outros termos, não existe o dono da maquinaria estatal, e, sim, direção e controle. Politicamente falando, a parafernália burocrática do Estado atual é somente conduzida e organizada. Mas a chave de tudo isso é ter acesso, controlar e distribuir o poder legalmente.


Há dois tipos de político: o ocasional e o profissional. No primeiro, o exercício da política é algo secundário ou esporádico. Quando votamos, por exemplo, estamos todos exercendo ocasionalmente uma ação política.


O segundo tipo dedica-se integralmente à política: é sua principal vocação. Aqui há dois subtipos ideais: a) quem vive para a política, e b) quem vive da política. No primeiro, a ação do agente político, geralmente provido de condições econômicas favoráveis, não depende da política como meio de renda; no segundo, precisa das compensações pecuniárias, da remuneração direta, a fim de manter-se. Em ambos os casos, não há uma completa exclusão. De fato, “jamais houve uma camada que não tivesse, de alguma forma, vivido da política”.[2]


Burocracia moderna x políticos profissionais. A tensão do Estado moderno é entre uma configuração mais técnica dos quadros (servidores especializados, peritos profissionais) e as indicações políticas guiadas por líderes partidários.


Funcionários. Dois tipos básicos: administrativos e políticos - eleitos, com dia e hora para sair. A racionalidade em questão passa pela capacidade técnica, eficiência em cumprir determinada função, e as indicações politiqueiras que tendem a favorecer partidos e apadrinhados.


O funcionário autêntico, administrativo, cumpre um papel ideal de imparcialidade, servindo às determinações oficiais, sempre baseado numa disciplina constante. A honra do servidor público, técnico, é executar ordens, sem contestar, mesmo que pareçam incorretas. Já o líder político, um estadista importante, por exemplo, preza por ter uma atitude responsável, sem terceirizar suas próprias ações ou transferir suas escolhas. Eis a sua honra, ou sua moral.


O demagogo. Este possui a arte de convencimento. Suas táticas caminham ao apelo emotivo, em aspectos irracionais. É agente com capacidade de utilizar a fraseologia demagógica como uma arma a seu favor; são escolhidos pelos partidos políticos para participarem da corrida eleitoral. Meta: aumentar suas chances de sucesso. Sucesso significa influencia, poder, em suma, cargos.


Partidos políticos. Muitos deles (ou será todos?) não possuem princípios, se parecem com


“organizações de caçadores de empregos, elaborando plataformas que variam segundo as possibilidades de conseguir votos, modificando suas cores em um grau que, apesar de todas as analogias, não se encontra em nenhuma outra parte”.[3]

E mais,


“Os partidos são simplesmente e absolutamente condicionados à campanha eleitoral que é mais importante para a distribuição de cargos: a luta pela presidência e pelo governo dos vários estados”.[4]

Portanto, o chefe político, o diretor da máquina administrativa partidária, cada vez mais burocratizada, numa democracia competitiva, assemelha-se a um empresário capitalista político, pois precisa gerenciar os custos e bônus, ter dinheiro suficiente para fazer funcionar bem sua estrutura social; seu interesse não é candidatar-se a político, simplesmente deseja que seus candidatos consigam votos suficientes para o sucesso eleitoral. Seus dirigentes visam cargos, distribuir empregos e controlá-los.


Personalidade política autêntica. Três são as qualidades essenciais: a) paixão, busca de um objetivo, dedicação a uma causa; b) senso de responsabilidade sobre os objetivos desejados; c) senso de proporção, distância da realidade que o cerca e de si mesmo (capacidade de ter frieza).


Um dos grandes pecados do político é a vaidade vulgar, inimigo mortal da dedicação objetiva a uma causa. O político procura sempre o poder, é seu instinto natural. Normal. Por isso que a luta pelo poder deve ter uma objetividade, algo claro a ser perseguido. Se a busca pelo poder perde esse telos, esse horizonte, a embriaguez torna-se inevitável: o gosto do poder pelo poder sem nenhuma finalidade substantiva.


“Embora - ou antes, justamente porque - o poder é o meio inevitável, e a luta pelo poder é uma das forças motrizes de toda a política , não há deformação mais prejudicial da força política do que a ostentação do poder [...] e a inútil complacência no sentimento do poder, e em geral qualquer culto do poder em si”. [5]

O sentimento de indiferença, um certo blasé, torna o político débil. Deve ele ter alguma fé, senão o ego ou seus demônios o engolirá dia após dia. Será visto como irresponsável, desapaixonado e sem senso de proporção. Cedo ou tarde será cobrado e cairá.


Ethos da política . Há dois tipos de ética que o político enfrenta. A primeira é a ética das finalidades últimas, da qual a ação só leva em conta a intenção; o ator acredita que chegará no resultado previsto. É ingênuo quanto às mudanças de rumos, a gratuidade dos eventos, os efeitos inesperados. Assemelha-se à ética do evangelho, do Sermão da Montanha, que é uma devoção incondicional, absoluta; um completo dever de fidelidade. Pode ser visto com um certo senso de fé incondicional, sendo que todo desvio, por não prever os trilhos fora do lugar, jamais é levado em consideração. Aqui é um prato cheio para os revolucionários ideólogos racionalistas. Para estes, pouco importa os meios, desde que o resultado seja alcançado.


A ética dos fins últimos sempre foi uma ética religiosa que vislumbra um mundo melhor, distante desta realidade material dominada pela miséria e pela maldade. O racionalista devoto revolucionário moderno apropriou-se desta ética e desenvolveu uma crença secular, uma sociedade futura, um paraíso terreno, sem contradições e mazelas.


A segunda ética é a da responsabilidade. Por esse caminho leva-se em consideração os desvios, circunstâncias não desejadas, as ações imprevisíveis dos humanos, as ramificações daninhas. Quem age assim é flexível, capaz de ver a realidade tal como ela é; busca soluções concretas que, vez ou outra, pode condenar uma ética absoluta, ao menos momentaneamente.


Quem deseja ser um grande político vocacionado, uma grande liderança, não pode abrir mão do uso da violência. É um dado histórico. “Quem busca a salvação da alma, sua e de outros, não deve busca-la no caminho da política, pois as tarefas totalmente diferentes da política só poder ser resolvidas pela violência”.[6] A salvação religiosa é, portanto, secundária.


Será possível combinar as duas éticas mencionadas para um grande líder? Sim. Em Weber, a política é feito com a cabeça, mas também com paixão. O político com vocação superior deve ter sempre consciência responsável de seus atos – o que envolve pensar sobre os meios que deve utilizar num determinado contexto. Mas em algumas ocasiões, pode unir uma ação responsável com uma convicção que vem do fundo do coração e da alma. Existe tal possibilidade, no qual um suplementa o outro.


Por fim, leitores, o grande líder, o político vocacionado weberiano, com qualidades especiais, deve possuir perspectiva e paixão. Clareza e ímpeto. “ o homem não teria alcançado o possível se repetidas vezes não tivesse tentando o impossível”. [7]


Link da imagem: http://sociologia-do-cotidiano.blogspot.com/2013/05/max-weber-o-individuo-e-acao-social.html


Notas

[1][1] WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. 5º ed. Rio de Janeiro: LTC, 2016. [2] Ibid., p. 61 [3] Ibid., p. 75 [4] Ibid. p. 75 [5] Ibid. p. 81 [6] Ibid., p. 87 [7] Ibid. p. 89

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