MUITA SOCIOLOGIA FAZ MAL “PRA” CABEÇA? Os riscos da “dependência epistêmica” nas ciências humanas




A dependência química é algo comum, preocupante e muito dolorosa, já que retira do sujeito aquilo de mais sensível em sua vida, ou seja, sua autonomia, sua capacidade de experimentar o mundo de forma complexa, dinâmica e saudável. A dependência vai consumindo aos poucos a vida do dependente, tomando posse das várias dimensões de sua experiência, ao reduzir tudo a um único denominador comum: “a substância”. Quando pensamos no universo das humanidades, com seus debates, argumentos, teorias, além de muitos outros detalhes epistêmicos, algo parecido se manifesta, um tipo de vínculo de dependência que parece nobre, ao menos à primeira vista, mas a longo prazo pode ser prejudicial. Teorias, ao invés de serem vistas como recursos pragmáticos, pontuais, e falhos, ao invés de simples manobras provisórias, além de recortes limitados, se tornam verdadeiras moradias existenciais. Nesse ensaio, vamos chamar esse tipo de vínculo de dependência epistêmica, já que se assemelha bastante com seu equivalente “químico”, como acontece com bebidas, cigarros, comida, jogos, sexo, etc.


Em seu livro “Ensinando a transgredir”, Bell Hooks apresenta um pouco da sua trajetória de militante, assim como seu próprio vínculo com os estudos raciais. Além disso, revela o quanto toda essa bagagem de experiências e estudos se tornou, segundo ela, uma verdadeira terapia, um campo de acolhimento em que seu próprio corpo finalmente ganhou sentido. Essa corporeidade não foi apenas dilacerada por racismos, mas também por relações problemáticas com a família, assim como experiências amorosas frustradas. Sem dúvida, esse vínculo terapêutico entre teoria e prática é muito importante, eu diria até inevitável, mas é preciso deixar claro os riscos desse tipo de conexão emocional, ao menos quando passa do controle, o que não se aplica, claro, a Bell Hooks, mas ao uso instrumentalizado que muitos fazem de sua teoria. Graças a dependência epistêmica, argumentos se tornam estruturas congeladas de sentido, muitas vezes até verdadeiras gaiolas, e não simplesmente um campo de possibilidades e conexões. Conceitos deixam de ser conceitos e se tornam “escudos e espadas”, como diria Bourdieu em seu livro o oficio do sociólogo; premissas perdem seus fundamentos linguísticos e ganham uma materialidade perigosa demais; debates deixam de ser espaços de contingência e se tornam apenas pretextos que reforçam convicções preestabelecidas.


Diante desse vínculo terapêutico, daquilo que chamei de dependência epistêmica, muitos podem acabar se “embriagando” com tanta teoria, bebendo demais seus líquidos adocicados e bastante alcoólicos. Quando Stengers apoia a retomada de uma Slow Science, ela se refere justamente a um cuidado no consumo das teorias e práticas que atravessam o campo científico. Segunda ela, é necessário “apreciar com moderação” aquilo que é sugerido, sempre incluindo muita calma e cuidado no processo de pesquisa, ao invés de uma pressa perigosa, caso contrário o campo de debates e questionamentos desmorona por completo, se tornando apenas um sonho distante.


É preciso compreender que as humanidades não podem, sozinhas, dar conta do peso existencial que repousa sobre nossas costas. Precisamos criar outros vínculos, outras válvulas, senão teorias podem se transformar em verdadeiros campos de batalha protegidos por arame farpado, completamente invioláveis, assim como rígidos ou até autoritários. Não é isso que queremos. Sem dúvida nós queremos acolher corpos; queremos, claro, acolher essas demandas no simbólico, verbalizando seus sofrimentos, mas esse trabalho precisa ser descentrado também. O que acontece muitas vezes é uma sobrecarga muito grande nas ciências humanas e sociais, esvaziando outras possibilidades de conexão com o mundo. Isso torna o problema da “dependência epistêmica” não apenas real, mas também perigosa no campo científico, além de comprometer a própria pessoa em jogo. Esse espaço de relações, como consequência, se torna um terreno onde críticas jamais são bem recebidas, mesmo que sejam feitas por pessoas de esquerda, mesmo que sejam sugeridas de forma suave, tranquila e construtiva. Afinal, como criticar aquilo que estrutura meu mundo? Como aceitar uma crítica a algo que não apenas descreve fenômenos da realidade, mas garante minha própria moradia existencial? Em outras palavras, como aceitar críticas quando o custo é tão alto, quando existe tanto em jogo?


O objetivo desse ensaio não é remover a capacidade terapêutica que teorias nas ciências humanas e sociais carregam dentro de si, já que é inevitável e bem vinda. O objetivo desse ensaio, ao contrário, e espero que tenha ficado claro, é descentrar a responsabilidade emocional das teorias, oferecendo aos indivíduos outros espaços de jogo, outros caminhos, outras conexões. A ideia é não apostar todas as suas fichas psicológicas em um único jogo de cartas, mas repartir essas fichas em outras brincadeiras. Em outras palavras, não podemos apenas depender das ciências humanas e sociais para estruturarem nosso campo experiencial, caso contrário a “dependência epistêmica” pode nos levar a um buraco inescapável de puro ressentimento, além de uma cegueira científica perigosa. Da mesma forma que a dependência química, o problema é a obsessão em um único objeto de desejo, o esquecimento de outros espaços, de outros vínculos, de outros contatos. Não podemos sobrecarregar áreas do conhecimento, assim como pessoas, cobrando algo que elas sozinhas não são capazes de oferecer. Precisamos descentrar o sofrimento, caso contrário as ciências humanas e sociais podem implodir suas fronteiras , assim como sua atmosfera científica, o que hoje é impensável, principalmente no meio de tanto negacionismo. É necessário fortalecer nossa área e não o contrário.


Portanto, o objetivo é continuar acolhendo corpos, mas permitindo que eles “se emancipem” das próprias ciências humanas e sociais, na medida em que compreendam a ciência como um ponto de partida e não como uma moradia eterna e aconchegante. O universo científico é uma ferramenta e não simplesmente uma terapia. As humanidades não são apenas válvulas de escape, mas mecanismos fundamentais na compreensão do mundo e seus desafios e obstáculos. Elas não têm apenas a ver comigo, com minhas crises, minhas demandas, e minha necessidade de aceitação, mas com estruturas objetivas que organizam e até violentam a própria realidade. Em outras palavras, ela não é apenas um pretexto que entra como algum suporte emocional barato, mas é algo coletivo que nos ajuda a compreender o que acontece ao nosso redor.


Referência da Imagem:

https://veja.abril.com.br/wp-content/uploads/2019/01/saude-ansiedade-20171229-003.jpg




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