No Ritmo do Coração versus A Família Bélier



Uma adolescente, única componente ouvinte em uma família de deficientes auditivos, que descobre a sua paixão e talento para o canto.


Passeando pela lista de indicações à categoria de melhor filme do Oscar 2022, me deparei com No Ritmo do Coração (CODA) e resolvi assistir. Logo de cara, nesta sinopse, notei que já conhecia a história de algum lugar.


E então percebi que se tratava de um remake hollywoodiano, cujo original francês eu amo demais: A Família Bélier. Já assisti tantas vezes e sempre choro, por sinal.


Tenho que ser sincera com você. Eu torci o nariz, e fiquei me perguntando por qual motivo a produção de 2014 não foi indicada ao Oscar na época, para a categoria de melhor filme estrangeiro, e agora o remake estava dentre os escolhidos da de melhor filme.


Mesmo assim, decidi que seguiria assistindo.


No Ritmo do Coração não decepciona nas atuações e adaptação para cultura americana, mas a meu ver perde um pouco na emoção. Não que as cenas estejam apáticas, longe disso. A trama continua tocante e os atores fizeram jus ao anterior na interpretação.


Se você já teve oportunidade de ver o longa atual, talvez esteja achando um absurdo a minha colocação. Como assim, Sarah? No Ritmo do Coração é tão emocionante, e todas as resenhas dizem o mesmo!


A questão, leitora/leitor, é que é extremamente difícil (diria impossível) substituir emoções ligadas às músicas específicas de uma trilha sonora. E música e emoção estão atreladas por demais para o ser humano.


Em A Família Bélier, as canções propostas pelo professor do coral para o recital dos alunos são todas de um artista francês, Michel Sardou. Tipo um Roberto Carlos para nós brasileiros.


Sem dar spoiler, posso dizer que a música final, cantada por Paula (protagonista de versão francesa), Je Vole, se encaixa emocionalmente de forma perfeita ao contexto da cena, bem mais que a entoada por Ruby na versão atual.


Isto porque o ponto central dessa história, seja em solo francês ou americano, é a individuação da personagem. Se descobrir como pessoa, entender suas necessidades e reais desejos, separando-os dos da família, e validar a sua jornada individual a partir dali.


Isso foi bem complicado pra adolescente, posto que seus pais e irmão sempre a tiveram como intérprete para questões que envolviam comunicação com ouvintes, como no cotidiano no pequeno negócio que sustentava a casa, consultas médicas, etc. Situação que ocorria desde que ela era muito pequena.


Como “deixar” os que ama em prol de um sonho somente seu? Esse é o dilema da moça. Entender que não estará sendo egoísta ou abandonando os seus por escolher viver o que a faz vibrar. Difícil hein!


Muitas pessoas passam por isso. Desenvolvem, por vários fatores, a crença de que devem fazer mais pelo outro, que pensar em si e se colocar como prioridade é errado. Nesse sentido, se acostumam a não olhar pra si mesmas, invalidar o que querem, dizem sempre sim, se subjugando ou auto sacrificando o tempo inteiro.


Isso traz desgaste, sobrecarga, insatisfação.


E Ruby/Paula está cansada do peso que carrega, mas se cobra, se culpa, por querer ter uma vida à parte do que tem com seus familiares.


Ajudar e fazer coisas pelo outro é bom. Ver o que é melhor pra si e colocar isso à frente, quando necessário, também. E uma coisa não precisa excluir a outra na nossa vida. Isso será oscilante, normal e saudável.


Não esqueça de ter isso em mente, se for o seu caso esse padrão de pensamento distorcido.


O roteiro fala disso e o crescimento da personagem é lindo, em ambas as produções, mas a original ainda fala mais alto ao meu coração.


Em relação ao remake, para além da história, sua indicação ao Oscar tem um motivo válido: a representavidade.


A diretora Sian Heder, também responsável pela direção em Tallulah, optou pelo que se chama no cinema de “casting autêntico”, ou seja, atores com deficiência auditiva, ao invés de ouvintes. Fato que não ocorreu na produção francesa. Ponto pro Tio Sam.


O elenco inclui Troy Kotsur, que interpreta Frank, pai da protagonista, e Marlee Matlin — no papel de sua esposa, Jackie. Marlee foi a primeira (e única) atriz surda a ganhar um Oscar, em 1987, pela atuação em Filhos do Silêncio. Troy foi indicado na categoria de melhor ator coadjuvante para 2022.


Além disso, "Sian aprendeu linguagem de sinais para se comunicar diretamente com os atores e fez consultoria com artistas surdos para traduzir as falas dos personagens para sinais mais adequados e expressivos."


Tudo isso rendeu prêmios mais do que merecidos no festival de Sundance.


Ainda fica a dúvida sobre ausência de A Família Bélier no Oscar em 2014. Seria rivalidade cultural EUA x França? Enfim, não vou entrar nesse mérito, por não ser minha expertise, mas fiquei com a pulga atrás da orelha viu.


Se você já viu algum do dois filmes ou ambos, como eu, me fala nos comentários o que achou.


Para conferir a comédia dramática No Ritmo do Coração é só acessar o streaming Prime Vídeo, no entanto, eu não perderia a oportunidade de ver também A Família Bélier, e se emocionar duplamente. Esta você encontra no Globoplay, Telecine, Youtube (para alugar) e Google Play Filmes.


Caso não tenha acesso a tais plataformas, pelo menos assista ao vídeo da cena que mencionei acima, com a atriz Louane Emera. Louane - Je Vole ( Dublado Português ) - YouTube



Por Sarah Ferraz

Psicóloga e terapeuta cognitivo comportamental

Instagram @psisarahferraz


Imagens:

https://www.justwatch.com/pt/filme/coda

LPWDIKFURRDZLFB63F5ZO3CY74.jpg (980×528) (peru21.pe)


Fonte:

Oscar 2022: 'No Ritmo do Coração' destaca representatividade surda (uol.com.br)

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