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O CONTO DA CINDERELA E A FÁBULA DO POLYWORK.




Vou começar esse texto recorrendo à fábula de Cinderela, aquela moça que tinha um pai rico, mas que após a morte dele foi colocada como serviçal de sua madrasta cocó.  O rei da região promoveu uma festa, um baile funk, para que seu filho conhecesse uma linda rapariga para casar-se. Cinderela era a mais bela da região, mas sua madrasta impediu-a de ir pra quebradeira, com a desculpa que ela não tinha vestido pra tal evento. Com a ajuda de uma fada-madrinha, ela conseguiu vestido, calçado e condução. Teria como condição não dar o virote, e retornar antes da meia-noite, horário no qual a magia terminaria. Lá, o príncipe se encantou com ela, foi queixá-la, mas não podendo mais ficar, saiu picada e perdeu um sapatinho e o possante que a levou virou abóbora. Tempos depois, o príncipe procurou a dona daquela alpercata, encontrou-a e juntos foram dar um rolé em Morro para sempre.

 

Após esse trololó, abordo o tema em questão: o polywork, uma palavra bonita que vem sendo utilizada para caracterizar sistemas de sustentabilidade utilizados pela Geração Z – que tem diversos recortes geracionais, uns falam que são nascidos entre 1996 e 2010, outros entre 2001 e 2015, varia. O que importa aqui é o significado do termo, que é o oferecimento da força de trabalho em dois ou mais empregos simultâneos. Ou seja, é uma palavra sofisticada para designar o corre, bico, biscate, ou, melhor, a precarização que persegue o trabalhador contemporâneo – ou, pra continuar na boniteza dos termos, um workaholic.

 

Isso porque é preciso ganhar dinheiro, princípio básico pra viver e pagar conta. Com isso, todo mundo tem que se virar nos 30 fazendo o que aparecer. Se você tem um emprego meia boca, que dê pra levar e com isso conseguir quitar suas dívidas e ainda sobrar algum pra tomar uma, se dê por vencido. Você pertence a uma casta cada vez mais rara. Mas você conhece, com certeza, várias pessoas que rodam pra Uber, entregam comida pelo IFood, e, sobrando tempo, ainda bota um garrafão Indaiá pra vender na porta. Pois é, esse ser é um polyworker. Fora rifeiros, vendedor de cosméticos, apostador de bet esportiva, todo mundo no mundo encantado do polyworkismo.

 

Analistas tem considerado que essa geração Z polyworkizada sofre com a frustração profissional de serem multitrabalhadores, mas ao mesmo tempo não terem função alguma definida. E também observam que é uma turma com faixa etária jovem que se mantém vivendo à custa de ansiolíticos, antidepressivos, e anda por aí completamente medicada. O que ninguém sabe é o futuro desse pessoal, que pode ser comerciante, taxista, artista, professor, o caralho a quatro. Isso lembra até aquele ditado “quem sabe fazer um pouco de tudo, não sabe fazer nada direito”.

 

Mas peraí? O que isso tem a ver com Cinderela??? É que o conto dessa coitada aí se assemelha aos perrengues dessa geração. Teve o pai morto, assim como o trabalhador teve assassinado seus “pais”, a CLT, as leis trabalhistas, sindicatos, associações, etc. Ficou aos cuidados de algumas “madrastas”, ou seja, reforma trabalhista, terceirização, trabalhos intermitentes. Está sendo proibido a frequentar os bailes da vida – empregos formais, benefícios, seguridades... E aí, precisa recorrer à “fada-madrinha”, que é o corre, o se vira, o bico, e a precarização de ter que trabalhar o tempo inteiro, que lhe oferece. E assim, nossos jovens cinderelos estão na labuta, procurando seu sapatinho de cristal perdido, esperando um príncipe – que pode ser o retorno financeiro da labuta através desse “empreendedorismo” todo, ou uma loteria acertada – e evitando que sua carruagem, carregada de medicamentos, não vire abóbora.

 

FONTE:

 

 

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2 Comments

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Adorei as comparações e a reflexão Carlos! Particularmente eu acho que, assim como a geração de 80 foi responsabilizada por várias questões sociais e econômicas as novas gerações precisam entender o seu papel na história. Não consigo ver o príncipe chegando trazendo junto com ele as soluções de bandeja. Assim como o pai morto a terra já deve ter comido. Acreditar em vida pós morte é a solução? Ou a solução está nos próprios cinderelos? (Claro que estou generalizando a pancadinha! rs). Os problemas são de quem? Dos avós e pais que criaram? As soluções virão de quem? Essas são para mim as grandes perguntas, sendo prático com a questão.

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Jac Gama
Jac Gama
May 25
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Os jovens precisam lutar pelos seus direitos. O problema é que pra isso tem que parar o corre e as contas continuam chegando. Muito legal as reflexões, Carlos. E o pior que essas palavras em inglês romantizam a precariedade. Sem contar nos falacioso discursos meritocraticos e ainda naqueles que precisam se colocar como influenciador para divulgar seus corres, que as vezes é um complemento. Elogio também a releitura com nuances de baianês para o conto da Cinderela.

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