O pseudo desconstruído




Vamos falar desse tipo de pessoa muito comum nos dias atuais? Quem são os pseudo desconstruídos? São aquelas pessoas que estudam sobre lugar de fala, racismo estrutural, luta feminista, cultura das minorias e se diz ser contra todos os ismos. Pessoas que mantêm vínculos afetivos com minorias e até acredita fazer parte delas, seres estudiosos e que se ofendem profundamente se forem contrariados. O pseudo desconstruído afirma a alteridade e a diversidade, luta por elas, e se reconhece desconstruído, a ponto de não tolerar quem os faça sentir ou pensar que não o são. O grande problema dessas pessoas é que elas não consideram a desconstrução como um processo interminável e geralmente tem um problema de ego fragilizado que constantemente se irrita com a possibilidade de estarem errados. Sentem-se diminuídos quando "alguém" lhe faz refletir sobre alguma atitude que possa ter tido que seja contraditório a seus discursos e para se defenderem listam todas as suas atitudes altruístas, conhecimento sobre o assunto e negam seus erros projetando-os no outro que cometeu o grande erro de acusá-lo injustamente, provavelmente movido por alguma emoção. Geralmente o pseudo desconstruído tende a sobrepor a razão à emoção e julga pessoas que pensem diferentemente como instáveis emocionalmente, que levam tudo para si e por isso não os compreendem.


O pseudo desconstruído não enxerga em si suas sombras, mas diz ter consciência, pois não perde a pose do bom homem ou boa mulher. Nunca admitem quando agem de forma invasiva, racista, machista, homofóbica ou outras formas de opressão geralmente expressas através de silenciamentos, violências legítimas pela preponderância de suas ideias e de sua fala, no entanto, vivem se justificando. Os pseudos desconstruídos sempre são vítimas, àqueles que estão sendo silenciado, impedidos de “ajudar”, de oferecer seu ilustre conhecimento que irá contribuir para a redenção do outro, estão sempre em busca de oferecer “ajuda”, o que na verdade é uma tentativa desesperada de serem reconhecidos,amados,vistos, aplaudidos, mesmo que seja pelo seu “eu” interno.


O pseudo desconstruído não é desconstruído, é na verdade rígido e preconceituoso, um humano tradicional, defensor da moral e dos bons costumes. Reprime tudo que sai da ordem do elevado e sublime, até mesmo sua sombra, em prol da luz, e julga a si mesmo através do outro, usa palavras como “você me desrespeitou”, “ você me cortou”, “ você me agrediu”, mas sobre si, ele usa o termo “sou veemente" para não assumir estar sendo agressivo, “estou dando minha opinião” para justificar silenciamentos, sem jamais aceitar que ninguém a pediu. Afinal, este é um ser iluminado e desconstruído que está na missão de iluminar os demais, ignorando completamente o fato deste pensamento ser opressor, afinal, considera que os demais são alunos, desprovidos de luz (a -sem, luno- luz). São os ditos cujos professores que trabalham em gratuidade e em tempo integral e vivem querendo dar soluções para os problemas alheios.


Os pseudo desconstruídos são piores que os tradicionais à moda antiga, pois não se reconhecem como verdadeiramente são, muitas vezes, são impossibilitados de se enxergarem, isto torna-os fakes e provavelmente pessoas que jamais irão se desconstruir, pois já se sentem prontos. Quando pressionados por bons argumentos, eles recuam, “aceitam” as posturas alheias as quais não concordam e julgam, e dizem que não forçam a mudança nem são impositivos, mas guardam a prerrogativa de não concordar e se afastar do que não é seu afim. Porém, eles estão impondo suas verdades e se você não as aceita, é porque não está pronto. São pessoas que sempre estão na superfície de si mesmos e não toleram pessoas que as forçam a mergulhar em suas sombras, afinal, eles já se "desconstruíram" e não possuem mais sombras, iluminaram todas elas.


São seres que se sentem perfeitos e sofrem muito quando falham, afinal, esta é uma condição não admitida em si mesmo. Seres muito rígidos são primeiramente consigo mesmos. Constantemente na defensiva, vivem com palavras floreadas de beleza, mas agem com todos os “ismos” que se dizem ser contra, invadem espaços, silenciam mulheres e negros, são agressivos com veemência, machistas de primeira, opinam sobre aborto, prostituição e homossexualidade, mas se defendem ao dizer “até tenho amigos que são/ até tenho gente na família que é”, fazem brincadeiras homofóbicas e possuem masculinidade frágil e muitas vezes tóxica. Costumam ter posturas controladoras, egoístas, narcísicas e vitimistas.


Todos nós temos um mini pseudo desconstruído dentro de nós e temos que tomar muito cuidado com sua presença, principalmente quando nos sentimos à vontade, com o poder nas mãos e diante de minorias, cujos privilégios são inferiores. A auto-observação não deve ser racional, intelectual, mas vivencial, ela se dá no contato com o outro. Precisamos praticar a escuta sensível e atenta, calar e silenciar diante da fala de uma minoria, sem querer dizer algo que a “ajude”. Afinal, a maravilhosa Djamila Ribeiro discursa sobre o silenciamento estrutural das minorias e a necessidade dos privilegiados calarem-se e abrirem-se à escuta afetiva. Esta tendência do privilegiado em negar o argumento da minoria e ir diretamente para sua solução é uma postura extremamente problemática, pois figuram-se como violências justificadas por vontade superior, as tão comuns “foi com boa intenção”. No entanto, acima de tudo, precisamos estar prontos para enfrentar os pseudos desconstruídos, tirar-lhe a máscara, dar limites a seus egos inflados e cheios de verdade e tomar muito cuidado com sua fala, pois são mestres em manipulação e não compreendem o sentido de diálogo.


Ninguém tem o poder de mudar ninguém, e se tivéssemos este ato seria uma forma de opressão, não desfazemos opressão com opressão, nem violência com violência, porém também não a desfazemos com submissão e bondade, mas com limites, assertividade e firmeza. Respeitar é acima de tudo não invadir, cada ser se constrói a partir de seu desejo de ser construído e assim também ocorre na desconstrução. Não forçamos as pessoas, elas se fazem por si. Então diante de um pseudo desconstruído, atente-se para não ser silenciado, oprimido, nem invadido, faça uso constante da arma do limite e principalmente do autolimite, aquele que te faz frear quando bate a vontade de discutir e "ajudá-lo" a enxergar sua não construção.


Corremos o risco de cair na armadilha deles, afinal, não estamos aqui para ajudar nem mudar nada sem a devida solicitação, pedido de ajuda, dando abertura para tal. Tome distância para não ser agredido(a), no entanto, aqui não basta a distância física, mas emocional e psíquico, pois não vivemos em solidão, o melhor é aprender a conviver ,afinal, somos espelhos, se o outro reflete algo que nos incomoda, significa que existe algo em nós que nos chama ao ato de se refazer. Se você está em busca ou no processo da desconstrução, veja isto como um desafio para melhorar-se, e deixe o outro ser o que quer, o que se é, o que está sendo, afinal, pseudos desconstruídos não estarão jamais abertos a se desconstruir porque assim o deseja, mas quem sabe, vendo seu movimento eles não se sintam inclinados a olharem para si? Vale a tentativa.


Link da imagem: https://vidasrestauradas.no.comunidades.net/desconstruindo-deus



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