Por Que O Orgulho LGBTQIAPN+ Deve Orgulhar a Todos Nós?
- Armando Januário

- há 1 dia
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Armando Januário dos Santos[1]
Todos os meses do ano, sobretudo, junho, Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, são momentos de ações concretas, contínuas e permanentes contra o crime de LGBTQIAPN+fobia, praticado naquele que é o país líder em assassinatos contra essa população. Tal cenário deve servir, diariamente, tanto para questionar a nós mesmos, quanto a sociedade, sobre as barbáries ainda existentes. Estar em lugar de fala diferente – homem cisgênero, negro, endossexo, heterossexual e demissexual – jamais foi pretexto para me eximir de contribuir no combate das desigualdades impostas pelo patriarcado compulsoriamente cisgênero e heterossexual. Quando nos posicionamos contra discriminações, independente de sermos parte dos grupos discriminados, reforçamos a obrigação dos brancos serem antirracistas, dos héteros e cis serem anti LGBTQIAN+fobia e dos homens serem feministas. Tal compromisso reconhece a necessidade de proteger o outro, tendo em vista a proteção de si mesmo. Ora, se um governo pratica políticas de Estado contra pessoas trans – a exemplo de Donald Trump – por que nós não seríamos os próximos a sofrer perseguição e retirada de direitos?
Em 2026, o Orgulho LGBTQIAPN+ abrange a interseção com as lutas pela dignidade, reconhecimento, respeito e aceitação das diferenças de identidade de gênero e orientação sexual, o fim da escala 6x1, e, mais recentemente, o combate às bets. Mais de 60% de LGBTQIAPN+ atuaram ou ainda atuam nessa escala. A escravidão em trabalhar 6 dias e folgar apenas 1 impacta a saúde mental de um grupo que já é alvo de ataques à sua integridade psíquica e física, em função de uma sociedade retrógrada e persistente em avaliar a capacidade profissional, através de marcadores sociais, como raça, gênero e orientação sexual. Como resultado, pessoas em oposição às compulsões cisgêneras e heterossexuais, tendem a ter mais probabilidades em desenvolver transtornos mentais, se comparadas à população em geral.
Compreender essa realidade é reconhecer raça, gênero e sexualidade enquanto campos de luta política, nos quais ocorrem polarizações dos ímpetos humanos, inclusive daqueles estreitamente ligados à violência. Existe um vínculo ímpar entre desejo de matar e ânsia em ejacular. Morte e tesão seguem trilhas muito próximas; se o segundo não é elaborado de maneira civilizada, a primeira se apresenta como solução viável. A violência contra travestis e mulheres trans está longe de um ódio simplista. Na verdade, trata-se de um mecanismo de defesa contra a repressão do desejo. O agressor, na ânsia de concretizar o desejo, é atravessado pela fratura da segurança que tinha quanto a sua própria identidade. Inseguro, passa a duvidar da própria heterossexualidade. Na cultura da transfobia, sente ter perdido a masculinidade, dando passagem ao ato de matar. Eliminando o objeto do desejo, acredita ter eliminado os conflitos identitários que o assombram. Quão grande engano!
Quanto ao percurso histórico do Orgulho LGBTQIAPN+, no cenário internacional, sabemos que na noite de 28 de junho de 1969, no bar Stonewall Inn, as travestis Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera lideraram a reação à violência policial; apesar de haver registros históricos de manifestações anteriores, aquele dia representa o marco mundial do Orgulho LGBTQIAPN+. A partir de então, foram fundados inúmeros coletivos, visando proteger e reivindicar à cidadania plena de pessoas LGBTQIAPN+. Stonewall, nessa perspectiva, é a cisão dos movimentos de pessoas diferentes, porém, jamais inferiores, com a realidade opressora da heterociscompulsoriedade. Por isso, quando conversamos com uma travesti, vemos sempre uma força viva, um ser humano em transcendência, buscando a plenitude dos seus direitos, e, ao mesmo tempo, contribuindo de maneira decisiva para o avanço de pautas roubadas pelos colonizadores, a exemplo do direito à vida, ao uso do banheiro correspondente a identidade de gênero e a trabalho formal em carga horária adequada.
No Brasil, são pessoas LGBTQIAPN+ que lideram uma das maiores lutas da classe trabalhadora: o fim da Escala 6x1. Em meados de 2023, Rick Azevedo, fundou o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT). À época, balconista de farmácia, Azevedo pensou na realidade da neoescravidão nacional. Seu objetivo era encerrar um regime que aprisiona os trabalhadores, levando-os a viver sob constante exploração. Ele se elegeu vereador (PSOL-RJ), com 29.364 votos, o mais bem votado do partido. Levando a ideia adiante, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), trouxe novos contornos à luta, através da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/2025. Em seu texto, a parlamentar justificou a PEC, partindo da petição pública online de Rick. Após dois turnos de intenso enfrentamento à extrema direita, a Câmara dos Deputados aprovou a proposta, estabelecendo 40 horas semanais de jornada de trabalho, divididas em 5 dias e 2 dias de folga. O texto agora vai para o Senado e caso aprovado – a pressão popular, o ano de eleições e uma temática que contempla mesmo os pobres de direita são fatores que pressionam a classe política pela aprovação – seguirá para ser sancionado pela Presidência da República. Temos, portanto, nas figuras históricas de uma travesti negra e um homem negro, cisgênero e gay os maiores responsáveis por esta conquista. Servem a uma sociedade que persegue seus corpos e deseja tirar suas vidas. Demonstram ser, em essência, nacionalistas: em paralelo a defesa dos direitos de LGBTQIAPN+, Erika Hilton tem lutado por pautas que beneficiam principalmente pessoas cis, haja vista a transfobia impor barreiras a empregos formais para travestis e transexuais. Nessa perspectiva, o fim da escala 6x1 trará impactos positivos primeiro na vida de pessoas cisgêneras. Por este ângulo, vemos o quanto é importante a eleição de pessoas trans e travestis do campo progressista. Na prática, isso vai resultar em aumento da pressão sobre o historicamente conservador empresariado brasileiro e consequente crescimento de oportunidades no mercado formal para esta população.
O trabalho de Erika, à frente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, tem sido um divisor de águas na história recente do parlamento brasileiro. Embora tenha sido acusada de ‘não ser mulher’ por mulheres parlamentares da extrema direita, ela destinou R$ 2 milhões em emendas para as Delegacias de Defesa da Mulher de São Paulo, protocolou o projeto de lei 6075/2025, visando proibir a monetização de conteúdos digitais misóginos, sobretudo, compartilhados pela ideologia supremacista red pill, e, há três dias, voltou sua atenção às bets. Na última terça, 23/06/2026, Erika acionou o Ministério Público Federal (MPF) para solicitar a proibição da publicidade de apostas esportivas, através de comentaristas quando das transmissões dos jogos da Copa. O seu olhar sensível às camadas mais pobres, tantas vezes enganadas pela ilusão do dinheiro fácil e rápido, levou a pedagoga formada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) a denunciar a prática enganosa realizada por comentaristas como agente de estímulo à ludopatia. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), o vício em jogos afeta diretamente o cérebro, provocando um efeito similar à dependência química e resultando em perdas financeiras, rompimento das relações familiares e depressão severa. Esses foram alguns argumentos utilizados pela deputada para solicitar abertura de inquérito civil e apuração junto ao MPF.
No dia do Orgulho LGBTQIAPN+, lembramos de uma necessidade urgente. A sociedade brasileira está sendo convocada para escutar as vozes das travestis e mulheres trans, as quais lideram o protagonismo da sigla no parlamento brasileiro e seguem, combativas, nas câmaras municipais e estaduais. Portanto, o mundo sonhado pelo fascismo já não reúne condições de existir. Ainda que as opressões sigam, seguirá também a resistência e resiliência de pessoas como Erika e Rick, as quais, de forma alguma estão sozinhas. Pessoas cis aliadas já compreenderam que as lutas podem até ser diferentes, mas, quando existe união, a vitória contempla mais gente. E quanto mais gente vencendo, mais a democracia se consolida!
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[1] Armando Januário dos Santos é Psicólogo (CRP-03/20912), Mestre em Psicologia e Especialista em Gênero e Sexualidade. Instagram: @januario.psicologo | WhatsApp: (71) 98108-4943
Fonte: Imagem gerada por Inteligência Artificial.

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