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REFORMAS DE OUTONO




*Por Camila Alemany


Ontem falava com uma amiga sobre as mudanças profundas que vivemos em certos períodos e como elas coincidem, muitas vezes, com o contexto exterior.


Sabe quando o dia está radiante e você está na mesma frequência e, pelo contrário, quando está cinza e sombrio, ele harmoniza perfeitamente com seus problemas?


Pois é, por aqui tem chovido muito lá fora e, também, aqui dentro.


E mesmo quando o mundo continua num ritmo frenético e acelerado, é preciso parar e olhar com atenção dentro de nós. Porque acredito que não é possível cobrir o sol com um dedo. É preciso sentir e aprofundar nos nossos sentimentos até chegar nas raízes das nossas dores, sozinhas ou acompanhadas.


Assim como festejar nossas alegrias é fundamental, viver nossas aflições é necessário para avançar. Sentir nossas dores é preciso para deixar passar o que é ruim e ficar com o que é bom - ou pelo menos tentar.


Focar intencionalmente na metade do copo cheio, para assim tentar continuar com mais leveza é uma tarefa bastante difícil que, pelo menos eu, tenho demorado séculos em conseguir. Na verdade, quase 40 anos.


E é que fomos educadas para sorrir, para estar bem, para ocultar o que nos faz dano. Para engolir o que não gostamos, chorar sozinhas e comentar apenas o que os outros querem ouvir.


No meu caso, agradar todo mundo o tempo todo e procurar pela aprovação, foram minhas principais amarras. Mas agora, a base de constância e prática, consigo pensar mais em mim, no que verdadeiramente gosto, preciso e desejo. Consigo avançar com mais honestidade.


Eu me acolho dentro do meu próprio corpo, da minha casa e afetos, do meu trabalho. Eu sou meu próprio lar.


Algumas pessoas, quando fazem mudanças na vida cortam o cabelo, eu derrubo paredes. E, literalmente, estou nesse processo agora. Derrubando, pintando, selecionando, organizando. Deixando a energia fluir.


Porque transitar por momentos difíceis rodeada do passado, para mim, é ainda mais duro. Por isso, quando atravesso por momentos desafiadores, decido fazer mudanças no meu entorno.


Acredito que reformar é mudar e recomeçar. Reconhecer a necessidade de um câmbio, avançar sem sair do espaço que habitamos, seja nosso próprio corpo, seja nosso próprio lar.


Então, reformo minha casa e nestes dias de chuva eterna em Salvador, no meio do outono tropical e quente, reflito sobre esta estação e procuro entender melhor seu significado. Será que está alinhado com meu momento?


E entendo que o outono é tempo de renovação da natureza: as folhas se desprendem das árvores, as flores ficam mais tímidas, as noites mais longas e os dias mais curtos. É momento de recolhimento, de reforçar o ninho para suportar o inverno.


E percebo como minhas mudanças, externas e internas, coincidem com o contexto, e, de alguma maneira inexplicável, isso me dá um conforto no coração.


O outono, simbolicamente, é um bom momento para fazer mudanças. É um período ótimo para limpar e arrumar nossa casa, tirar coisas dos armários, descartar as roupas que já não servem mais, abrir, literalmente, espaço. Às vezes pequenos câmbios, como pintar uma parede ou trocar as coisas de lugar, fazem tanto por nosso lar. Fazem tanto por nós.


Porque selecionar é preciso. Escolher é necessário. Descartar é fundamental - e, confesso, para mim, quase terapêutico.


Por isso, meu convite é que você pare e se pergunte:


Neste outono, o que desejo manter comigo e o que preciso deixar ir para avançar com mais sentido?


Decido continuar sem mergulhar dentro de mim ou encaro minhas dores e avanço com mais honestidade e leveza?


Com amor,


Camila


* Camila Alemany é ilustradora e empreendedora

@camilalemany

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1 Comment

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Taís Gomes
Taís Gomes
May 25, 2023
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Excelentes reflexões ! Mudanças são necessárias, por isso as folhas caem no outono. O inverno pode ser duro demais, mas depois do inverno temos a primavera. Sua primavera virá!

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