SORRIA, VOCÊ ESTÁ GOZANDO: Por que rimos o tempo todo em nossas fotos?







O riso com certeza é algo de especial, único, sendo impossível negar sua importância e até mesmo sua funcionalidade. Rir pode ser visto como uma característica incrível que nos separa dos outros animais (Bergson), uma arma política e revolucionária (Deleuze) ou até mesmo uma forma de desconstruir as hipocrisias do nosso próprio ego (Bataille). Apesar de tantas funções, o riso também pode ser considerado como um instrumento conservador, além de uma forma estranha e bem contemporânea de sofrimento (Freud, Adorno). Por isso que nem sempre "sorrir é o melhor remédio", muito pelo contrário. Não acredita? Então vamos ao nosso ensaio de hoje...


Você, por acaso, tem em sua casa fotos muito antigas, ou já viu alguma em algum lugar, como aquelas da década de 50 ou 60, de preferência retratos de família? Você já percebeu que em fotos assim as pessoas não sorriem, mas olham sérias em direção à câmera como se tivessem encarando alguém ou alguma coisa? Aquelas caras de pura indiferença parecem tão estranhas, e até chocantes, principalmente quando comparamos com nossas fotos de hoje, em que o riso não apenas aparece, como é também uma exigência... “Sorria!!!!”. Se, por acaso, você recusar esse sorriso, resistindo a esse sentimento contagiante, com certeza essa atitude não vai ser ignorada. Afinal, sorrir não é mais uma opção, muito menos uma resposta automática diante de uma circunstância alegre... É UM IMPERATIVO!!!!


O ato de fotografar, assim como do próprio cinema no início do século XX, tinha apenas uma função meramente descritiva, de puro registro de uma paisagem, de uma pessoa ou de uma circunstância. Fotos eram tiradas como uma forma de congelar instantes, fazendo com que se arrastassem ao longo dos anos e sobrevivessem ao teste do tempo. Por outro lado, nossa fotografia contemporânea, principalmente aquelas que passeiam pelo Instagram e Facebook, carrega uma função adicional, algo bem inédito e impossível de ser encontrado em outros momentos históricos. A fotografia, para nós, contemporâneos, não é mais uma simples ferramenta que registra acontecimentos, mas também uma prestação de contas, um gesto que precisa ser dissecado em detalhes.


A atmosfera da década de 60, com suas revoluções e seus slogans como “proibido proibir”, trazia consigo um obstáculo moral bem claro, muito escancarado: a REPRESSÃO. O superego tinha um funcionamento puramente repressivo, exercendo aquilo que Foucault chamaria de um poder negativo, aquela instância que diz “Não”, que "impede", que "bloqueia", etc. Por outro lado, hoje em dia o imperativo é outro, segue um percurso alternativo e até mesmo contráditório, ao menos quando comparamos com a década de 60. Ao invés de um “Não”, o superego cobra agora um completo investimento libidinoso, além de um sólido registro dessa felicidade que deve ser constante e absoluta. Essa atitude pode muito bem ser condensada em nossas fotografias contemporâneas, assim como no esforço de manter todas sorridentes. A pergunta de um psicanalista, diante de tanto sorriso, seria: "para quem estamos rindo?" "Com quem estamos tentando nos comunicar?" Se sua resposta é "pessoas anônimas e dispersas", lamento, mas não é tão simples assim. O objetivo é satisfazer esse novo superego que se formou, um tipo de figura paterna (materna) não mais repressiva, mas permissiva, ao mesmo tempo em que a palavra de ordem é simples: “GOZE!!!”... E NÃO ESQUEÇA DE “PROVAR” PRA MIM!!!! O sorriso é a nossa prestação de contas a esse novo superego que se formou, a essa nova instância moral.


Ao contrário do que imaginavam os grupos de resistência na década de 60, a fuga da repressão não é imediatamente um sinônimo de liberdade, muito menos uma rota confiável rumo a um mundo melhor. O “Proibido proibir”, cantado por Caetano Veloso na década de 80, como uma forma de resistência, hoje foi transformado em um novo imperativo moral, uma nova corrente que nos segura, ao menos tempo que parece nos libertar. O “Goze!!!” e o “não se reprima” se tornaram uma ordem, um compromisso necessário que precisa ser firmado por todos. “Como posso ter certeza que eu cumpro esse papel?”, pergunta alguém aleatório. E a resposta é simples: “Fotografe todo dia... quero ver um sorriso estampado em seu rosto... quero ver você feliz... o tempo todo, com todo mundo", responde a sociedade


Referência da Imagem:


https://paxbahia.com.br/blog/47-beneficios-do-riso.html




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