THE SANDMAN É UM PESADELO PRA OS CONSERVADORES E UM SONHO PRA OS AMANTES DE CINEMA




“The Sandman” foi uma HQ produzida pelo britânico Neil Gaiman em 1988, recentemente lançada na Netflix no formato de uma série com dez episódios. Como eu já fui decepcionado várias vezes por conta de péssimas adaptações de romances, HQs e Animes, minha expectativa não era das maiores, tenho que confessar. Lembrem que a Netflix virou até mesmo um meme quando o assunto é o universo das adaptações, uma verdadeira piada de mal gosto. Sem dúvida, o trailer do “The Sandman” era muito bom, mas ainda assim não me encheu de esperança, já que todo mundo sabe o quanto trailers são traiçoeiros, nada confiáveis. Apesar de um passado com várias decepções cinematográficas, assisti o primeiro episódio... e não parei mais!!! “The Sandman” é uma clara evidência de que boas adaptações podem ser feitas, principalmente quando nos deslocamos de uma mídia (HQ) até outra (cinema). Embora esses deslocamentos não sejam fáceis, envolvendo aqui vários custos estéticos, parece que ainda existe um pouco de esperança no horizonte.


A HQ que já era revolucionária na década de 80, foi mais ainda radicalizada na nova adaptação da Netflix, incluindo todo um espectro de políticas identitárias que fazem parte do nosso mundo contemporâneo. A série contém várias cenas que incomodaria o mais tranquilo dos conservadores, como beijos gays, lésbicos e uma representatividade negra marcante. Mas por algum motivo “The Sandman” não é como outras séries e filmes com a mesma inclinação política. Por que ela se apresenta como diferente do resto? Apesar dos seus toques de esquerda, repletos de valores progressistas do início ao fim, os personagens da série não são simples representações coletivas, criaturas esvaziadas de substância, como se estivessem ali apenas como mensageiros de alguma pauta política abstrata; muito pelo contrário. Não existe na série O NEGRO, O GAY, A LÉSBICA, mas personagens individuais complexos, todos com um arco bem estabelecido, até mesmo os secundários, como na cena do restaurante no episódio 5.


"The Sandman" em nenhum momento reduz a esfera estética ao terreno político, o que torna seu enredo bem encadeado, assim como seus traços estruturais, a exemplo da direção, fotografia, figurino e trilha sonora. Seus aspectos políticos realçam os contornos estéticos da obra, mas nunca os sufocam. Compare essa série com o filme “Charlie’s Angels”, dirigido por Elizabeth Banks (2019). Esse é um claro exemplo do mal uso da esquerda (e da própria política) em filmes. Ao invés de personagens complexos, e um enredo impactante, a obra se torna apenas um pretexto de uma pauta política abstrata. As heroínas (as panteras) são apenas representações coletivas da “mulher emancipada e independente”, não se distinguindo umas das outras. Sem qualquer personalidade, elas representam o clássico perfil “Mary Sue”, ou seja, personagens perfeitos, autônomos, mas esvaziados de qualquer concretude, além de incapazes de produzir qualquer conexão com o espectador. Da mesma forma, os vilões são apenas “homens malvados”, nada mais do que pacotes abstratos de figuras “misóginas”. É muito claro que no filme “Charlie’s Angels” a política consumiu o campo estético, tornando tudo apenas um pretexto de uma mensagem coletiva. “The Sandman”, ao contrário, curiosamente é muito mais impactante em sua mensagem política, já que é mais complexo, sutil e bem estruturado. Sua narrativa lembra “Parasita” de Bong Joon-Ho, com seus temas de Classe ou os filmes “Corra” e “Nós” de Jordan Peele, com os debates sobre racismo. Nesses filmes, em nenhum momento a estética é ameaçada pela política, em nenhum momento o campo cinematográfico é sufocado pelas regras de outros espaços externos. A política incrementa a narrativa, mas não a substitui. A matriz continua sendo estética, mesmo quando traços de progressismo aparecem no horizonte.


"The Sandman" não é apenas uma aula sobre como fazer uma boa adaptação (entendeu “Death Note” da Netflix?), mas também sobre qual é o papel da política progressista no espaço estético. Ela nos ensina a respeitar o campo cinematográfico, extraindo dele o máximo possível, ao mesmo tempo que respeitando suas regras e exigências. É muito difícil descrever o impacto dessa série em mim. Embora seja uma opinião um pouco subjetiva, eu descreveria como PERFEITA em todos os níveis imagináveis, tendo apenas pequenos deslizes nos episódios finais.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

https://www.legiaodosherois.com.br/2022/critica-sandman-netflix.html

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